Raiva, raiva, raiva

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Publicada em 03/09/2018 às 23:25:00

 

* Luciano Correia
luccorreia@uol.com.br
     Primeiro foi o espanto: Deus dos céus, o Museu Nacional do Rio de Janeiro! Depois uma tristeza imensa. Como se não já bastassem tantas desgraças acumuladas, como se a desconstrução de um país que nem se tornou nação fosse pouco para nossos corações feridos, perdemos numa só tacada milhares de anos de História, a história grande, com H. Porque não foram os 200 anos da instituição, fundada por D. João VI, mas, só pra ficar num de seus tesouros, os 12 mil anos do esqueleto de Luzia, o mais antigo habitante das Américas encontrado até agora. Depois da tristeza, a raiva, pelo descaso que nos define desde sempre, o país do improviso, do amadorismo, do jeitinho e do tudo na última hora. 
Da meia dúzia de museus que visitei por aí, me lembrei de um em especial, o Museu de Antropologia do México, um país mais pobre do que nosso Brasil esfacelado. Ali, em 1996, quando estive lá, o cuidado dos funcionários com cada peça, cada ambiente, soava quase incômodo para os visitantes. Mas é assim que as coisas são. Em algum momento este imprudente visitante tentou sacar uma foto de uma peça e, como se tivesse lido meus pensamentos, o funcionário gentilmente me alertou da proibição, porque a luz dos flashes reage quimicamente com a pintura original e provoca alterações na cor de determinadas pinturas. Depois disso, nunca mais fiz fotos sem pedir autorização. Deve ser por coisinhas assim, detalhes como este, que países como o México exibe orgulhosamente seu belo e gigantesco Museu de Antropologia, um dos maiores destinos turísticos de quem percorre a Cidade do México.
O brasileiro, sobretudo o classe média que se exibe em museus espalhados pelo mundo, é curioso por algumas características, além do costume de falar alto em lugares públicos: aprecia o que é dos outros e ignora o que é nosso. Acabo de fazer uma maravilhosa aventura pela história do Brasil. Como a maioria dos adultos que só tomam conhecimento de nossa história nos primeiros anos de escola e depois recebe relatos fragmentados de determinados períodos e eventos, fiz uma visita guiada pela narrativa jornalística de Laurentino Gomes, que, com a ferramenta de sua especialidade, percorre nossa história a partir das centenas de autores que se debruçaram sobre o tema, dos antigos aos mais atuais. Comecei por "1822" e não parei mais. Em semanas devorei as mais de mil páginas dos três volumes, somadas as de "1889" e "1808". 
O resultado da leitura é o conhecimento de uma tentativa de construir uma nação, do esforço estupendo para nos assegurar uma identidade e unidade, sobre os riscos da desintegração requerida nas várias revoluções regionais que reclamavam a separação. Ao final, concluímos: o Brasil existe e, apesar das tristezas atuais, dá orgulho de ser brasileiro. Mais que isso, oferece uma ideia do quanto fomos importantes no contexto internacional, muito mais do que representa, por exemplo, nossa importância econômica no mundo contemporâneo: representamos menos de 1% do comércio mundial. De um amontoado de colônias que não se comunicavam entre si, ganhamos uma ideia de país, a partir de um rei gordo, sujo e feio, apresentado pelos republicanos como um idiota, mas que empunhou o desafio da unidade nacional e criou coisas como o Banco do Brasil, a Casa da Moeda e a fabulosa Biblioteca Nacional, formada com o acervo transferido de Lisboa com a família real. E dentre outras criações, o Museu Nacional que ontem incrível e simplesmente deixou de existir, junto com o pó de seus mais de 20 milhões de utensílios.
A tragédia do Museu Nacional é a melhor metáfora do país em chamas, dessa agonia que se prolonga desde quando agentes da lei foram os primeiros a rasgá-la e os agentes da política, acovardados, negam a política mais que três vezes, trezentas e tantas que sejam necessárias para exercerem, acanhados e tutelados, a única atividade social capaz de repor o país nos trilhos do desenvolvimento: a política e só a política, com democracia e justiça social.  Os inúmeros alertas feitos pela imprensa e por cientistas ao longo dos últimos anos só servem para revelar para o mundo que somos assim mesmo, que aqui as coisas são assim e pronto, que mesmo a maior das catástrofes será naturalizada por um jeitinho brasileiro acostumado a se acostumar com tudo, mesmo e principalmente com a falta de vergonha.
* Luciano Correia é jornalista

* Luciano Correia

luccorreia@uol.com.br

 

Primeiro foi o espanto: Deus dos céus, o Museu Nacional do Rio de Janeiro! Depois uma tristeza imensa. Como se não já bastassem tantas desgraças acumuladas, como se a desconstrução de um país que nem se tornou nação fosse pouco para nossos corações feridos, perdemos numa só tacada milhares de anos de História, a história grande, com H. Porque não foram os 200 anos da instituição, fundada por D. João VI, mas, só pra ficar num de seus tesouros, os 12 mil anos do esqueleto de Luzia, o mais antigo habitante das Américas encontrado até agora. Depois da tristeza, a raiva, pelo descaso que nos define desde sempre, o país do improviso, do amadorismo, do jeitinho e do tudo na última hora. 
Da meia dúzia de museus que visitei por aí, me lembrei de um em especial, o Museu de Antropologia do México, um país mais pobre do que nosso Brasil esfacelado. Ali, em 1996, quando estive lá, o cuidado dos funcionários com cada peça, cada ambiente, soava quase incômodo para os visitantes. Mas é assim que as coisas são. Em algum momento este imprudente visitante tentou sacar uma foto de uma peça e, como se tivesse lido meus pensamentos, o funcionário gentilmente me alertou da proibição, porque a luz dos flashes reage quimicamente com a pintura original e provoca alterações na cor de determinadas pinturas. Depois disso, nunca mais fiz fotos sem pedir autorização. Deve ser por coisinhas assim, detalhes como este, que países como o México exibe orgulhosamente seu belo e gigantesco Museu de Antropologia, um dos maiores destinos turísticos de quem percorre a Cidade do México.
O brasileiro, sobretudo o classe média que se exibe em museus espalhados pelo mundo, é curioso por algumas características, além do costume de falar alto em lugares públicos: aprecia o que é dos outros e ignora o que é nosso. Acabo de fazer uma maravilhosa aventura pela história do Brasil. Como a maioria dos adultos que só tomam conhecimento de nossa história nos primeiros anos de escola e depois recebe relatos fragmentados de determinados períodos e eventos, fiz uma visita guiada pela narrativa jornalística de Laurentino Gomes, que, com a ferramenta de sua especialidade, percorre nossa história a partir das centenas de autores que se debruçaram sobre o tema, dos antigos aos mais atuais. Comecei por "1822" e não parei mais. Em semanas devorei as mais de mil páginas dos três volumes, somadas as de "1889" e "1808". 
O resultado da leitura é o conhecimento de uma tentativa de construir uma nação, do esforço estupendo para nos assegurar uma identidade e unidade, sobre os riscos da desintegração requerida nas várias revoluções regionais que reclamavam a separação. Ao final, concluímos: o Brasil existe e, apesar das tristezas atuais, dá orgulho de ser brasileiro. Mais que isso, oferece uma ideia do quanto fomos importantes no contexto internacional, muito mais do que representa, por exemplo, nossa importância econômica no mundo contemporâneo: representamos menos de 1% do comércio mundial. De um amontoado de colônias que não se comunicavam entre si, ganhamos uma ideia de país, a partir de um rei gordo, sujo e feio, apresentado pelos republicanos como um idiota, mas que empunhou o desafio da unidade nacional e criou coisas como o Banco do Brasil, a Casa da Moeda e a fabulosa Biblioteca Nacional, formada com o acervo transferido de Lisboa com a família real. E dentre outras criações, o Museu Nacional que ontem incrível e simplesmente deixou de existir, junto com o pó de seus mais de 20 milhões de utensílios.
A tragédia do Museu Nacional é a melhor metáfora do país em chamas, dessa agonia que se prolonga desde quando agentes da lei foram os primeiros a rasgá-la e os agentes da política, acovardados, negam a política mais que três vezes, trezentas e tantas que sejam necessárias para exercerem, acanhados e tutelados, a única atividade social capaz de repor o país nos trilhos do desenvolvimento: a política e só a política, com democracia e justiça social.  Os inúmeros alertas feitos pela imprensa e por cientistas ao longo dos últimos anos só servem para revelar para o mundo que somos assim mesmo, que aqui as coisas são assim e pronto, que mesmo a maior das catástrofes será naturalizada por um jeitinho brasileiro acostumado a se acostumar com tudo, mesmo e principalmente com a falta de vergonha.

* Luciano Correia é jornalista