Tragédia nacional

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Publicada em 07/09/2018 às 07:39:00

 

O brasileiro chorou no começo da semana como se tivesse perdido um irmão mais velho. Nunca o dano a um bem material foi tão sentido como na destruição quase que completa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que ardeu em chamas na madrugada da segunda-feira.
Talvez o brasileiro tenha soluçado ao perceber que uma parte dele estava indo embora, ao descobrir o quanto dele mesmo estava guardado naquele imponente palácio do começo do século 19.
O mundo lamentou, o prejuízo foi para a humanidade.
Mas para um povo específico, a morte foi mais real. Indígenas da Aldeia Maracanã, do Rio, tentaram, mas não conseguiram salvar nada do Centro de Documentação de Línguas Indígenas, que preservava referências de povos antigos. As línguas faladas por tribos extintas, os cantos, os discursos de seus líderes, tudo foi perdido.
Mais antiga instituição científica do Brasil e figurando como um dos maiores museus de história natural e de antropologia das Américas, o Museu Nacional era como se fossem vários museus contidos em um só.
Localizado no interior do aprazível parque da Quinta da Boa Vista, o Museu foi criado por D. João VI em 1818, portanto, há 200 anos. NO entanto, o palácio serviu de residência à família real portuguesa de 1808 a 1821, abrigou a família imperial brasileira de 1822 a 1889 e sediou a primeira Assembléia Constituinte Republicana, de 1889 a 1891, antes de ser destinado ao uso do museu, em 1892.
O edifício foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1938. O Museu era vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Com 20 milhões de itens, a riqueza do seu acervo se subdividia em coleções de geologia, paleontologia, botânica, zoologia, antropologia biológica, arqueologia e etnologia.
A coleção egípcia abrigava 700 itens, entre sarcófagos, estátuas, amuletos, bronzes e múmias - a maioria dos períodos mais tardios da história egípcia.
A melhor peça da coleção era o esquife de uma cantora do santuário do deus Amun. Datava da 23ª Dinastia, cerca de 750 anos antes de Cristo, e foi presenteado pelo vice-rei do Egito ao imperador D. Pedro 2º, durante sua viagem àquele país do norte da África, em 1876.
Mas a peça mais importante do Museu era o crânio de uma mulher com cerca de 12 mil anos que os cientistas deram o nome de Luzia, considerado o achado humano mais antigo da América do Sul, que foi localizado no sítio de Lagoa Santa, em Minas Gerais, e agora pode ter se perdido para sempre.
Também havia muitas peças importantes da cultura pré-colombiana e de povos que habitaram o território do Brasil antes do descobrimento.
O acervo de etnologia do Museu Nacional abrigava cerca de 40.000 itens referentes à cultura material de diversos povos do mundo. O núcleo de etnologia indígena brasileira era o mais representativo, abrangendo objetos produzidos por povos nativos de todas as regiões do país, desde o início do período colonial. A coleção abrangia também significativos conjuntos de artefatos referentes à etnologia africana, à etnologia afro-brasileira e às culturas do Oceano Pacífico.
O Museu Nacional possuía um dos mais significativos acervos paleontológicos da América Latina, totalizando cerca de 56.000 exemplares, incluindo esqueletos inteiros de dinossauros.
E guarda o Meteorito do Bendegó, o maior já encontrado no Brasil e um dos maiores do mundo. Trata-se de uma massa compacta de ferro e níquel, pesando mais de 5 toneladas e medindo mais de dois metros de comprimento, descoberto em 1784 em uma fazenda no sertão da Bahia. 
No campo do ensino, o museu oferecia cursos de extensão, especialização e pós-graduação em diversas áreas do conhecimento, além de realizar exposições temporárias e atividades educacionais voltadas ao público em geral.
Nos últimos 20 anos, houve várias tentativas de dotar o Museu Nacional da necessária independência financeira que lhe garantisse a preservação. Mas as iniciativas sempre esbarraram na burocracia e em interesses menores diante da importância daquela instituição.
Nos últimos cinco anos, o dinheiro destinado pelo governo federal sofreu cortes sucessivos e o mais adequado sistema contra incêndio nunca foi instalado. 
Agora só resta salvar o que o fogo não destruiu. E tentar aprender com mais essa tragédia nacional.

Marcos Cardoso

O brasileiro chorou no começo da semana como se tivesse perdido um irmão mais velho. Nunca o dano a um bem material foi tão sentido como na destruição quase que completa do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que ardeu em chamas na madrugada da segunda-feira.
Talvez o brasileiro tenha soluçado ao perceber que uma parte dele estava indo embora, ao descobrir o quanto dele mesmo estava guardado naquele imponente palácio do começo do século 19.
O mundo lamentou, o prejuízo foi para a humanidade.
Mas para um povo específico, a morte foi mais real. Indígenas da Aldeia Maracanã, do Rio, tentaram, mas não conseguiram salvar nada do Centro de Documentação de Línguas Indígenas, que preservava referências de povos antigos. As línguas faladas por tribos extintas, os cantos, os discursos de seus líderes, tudo foi perdido.
Mais antiga instituição científica do Brasil e figurando como um dos maiores museus de história natural e de antropologia das Américas, o Museu Nacional era como se fossem vários museus contidos em um só.
Localizado no interior do aprazível parque da Quinta da Boa Vista, o Museu foi criado por D. João VI em 1818, portanto, há 200 anos. NO entanto, o palácio serviu de residência à família real portuguesa de 1808 a 1821, abrigou a família imperial brasileira de 1822 a 1889 e sediou a primeira Assembléia Constituinte Republicana, de 1889 a 1891, antes de ser destinado ao uso do museu, em 1892.
O edifício foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1938. O Museu era vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Com 20 milhões de itens, a riqueza do seu acervo se subdividia em coleções de geologia, paleontologia, botânica, zoologia, antropologia biológica, arqueologia e etnologia.
A coleção egípcia abrigava 700 itens, entre sarcófagos, estátuas, amuletos, bronzes e múmias - a maioria dos períodos mais tardios da história egípcia.
A melhor peça da coleção era o esquife de uma cantora do santuário do deus Amun. Datava da 23ª Dinastia, cerca de 750 anos antes de Cristo, e foi presenteado pelo vice-rei do Egito ao imperador D. Pedro 2º, durante sua viagem àquele país do norte da África, em 1876.
Mas a peça mais importante do Museu era o crânio de uma mulher com cerca de 12 mil anos que os cientistas deram o nome de Luzia, considerado o achado humano mais antigo da América do Sul, que foi localizado no sítio de Lagoa Santa, em Minas Gerais, e agora pode ter se perdido para sempre.
Também havia muitas peças importantes da cultura pré-colombiana e de povos que habitaram o território do Brasil antes do descobrimento.
O acervo de etnologia do Museu Nacional abrigava cerca de 40.000 itens referentes à cultura material de diversos povos do mundo. O núcleo de etnologia indígena brasileira era o mais representativo, abrangendo objetos produzidos por povos nativos de todas as regiões do país, desde o início do período colonial. A coleção abrangia também significativos conjuntos de artefatos referentes à etnologia africana, à etnologia afro-brasileira e às culturas do Oceano Pacífico.
O Museu Nacional possuía um dos mais significativos acervos paleontológicos da América Latina, totalizando cerca de 56.000 exemplares, incluindo esqueletos inteiros de dinossauros.
E guarda o Meteorito do Bendegó, o maior já encontrado no Brasil e um dos maiores do mundo. Trata-se de uma massa compacta de ferro e níquel, pesando mais de 5 toneladas e medindo mais de dois metros de comprimento, descoberto em 1784 em uma fazenda no sertão da Bahia. 
No campo do ensino, o museu oferecia cursos de extensão, especialização e pós-graduação em diversas áreas do conhecimento, além de realizar exposições temporárias e atividades educacionais voltadas ao público em geral.
Nos últimos 20 anos, houve várias tentativas de dotar o Museu Nacional da necessária independência financeira que lhe garantisse a preservação. Mas as iniciativas sempre esbarraram na burocracia e em interesses menores diante da importância daquela instituição.
Nos últimos cinco anos, o dinheiro destinado pelo governo federal sofreu cortes sucessivos e o mais adequado sistema contra incêndio nunca foi instalado. 
Agora só resta salvar o que o fogo não destruiu. E tentar aprender com mais essa tragédia nacional.