O coração na ponta dos dedos

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O fazendeiro do ar, urso de Ipanema.
O fazendeiro do ar, urso de Ipanema.

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Publicada em 14/09/2018 às 06:39:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O Instituto Moreira 
Salles resolveu jo
gar as crônicas de Rubem Braga na rede. O fazendeiro do ar, urso de Ipanema, mais cronistas da cepa de Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Otto Lara Rezende. Eu li a notícia de nariz torcido. Imperdoável, o que a internet fez com a obra de Caio Fernando Abreu. A má vontade durou até eu vencer a rabugice dos primeiros fios de cabelo branco e visitar o Portal da Crônica Brasileira. Apesar do suporte, a iniciativa serve uma literatura de lamber os beiços. 
Nunca será como folhear um livro, capaz de suscitar "o amor táctil dos maços de cigarros". Mas o acervo resgatado pela iniciativa é precioso. Em inspirado texto de apresentação, Humberto Werneck resgata a origem do gênero. E lembra que Machado de Assis, o maior de todos os escritores brasileiros - para alguns, o maior escritor da língua portuguesa -, foi dos primeiros a apelar para a prosa ligeira dos periódicos, subvertendo a informação em arte, abusando dos adjetivos.
"Já em 1859 o jovem - 20 anos -  Machado de Assis pôs em palavras as características da crônica, tal como é hoje entendida. O folhetinista, escreveu ele, era alguém capaz de promover 'a fusão admirável do útil e do fútil, o parto curioso e singular do sério, consorciado com o frívolo'. Para Machado (que na década de 1870 passaria a usar o termo 'crônica') esse tipo de escriba 'na sociedade, ocupa o lugar do colibri na esfera vegetal; salta, esvoaça, brinca, tremula, paira e espaneja-se sobre os caules suculentos, sobre todas as seivas vigorosas. Todo mundo lhe pertence, até mesmo a política".
Se o maior de todos falou, está falado. Quem não lembra do saudoso Cleomar Brandi, língua enrolada, um copo de conhaque à mão, personagem de si mesmo, reclamando a ausência de novos cronistas na imprensa sergipana? Seria por veleidade beletrista? Eu duvido muito. Ao cronista, no entanto, é permitido apreender o espírito dos tempos, alheio às preocupações objetivas da notícia. Amaral Cavalcante está aí, mandando brasa, um olho nas memórias lombradas, outro no curso dos acontecimentos. E, fora ele, em letra de imprensa, mais ninguém.
Amaral, Cleomar, Machado, Rubem Braga... Se notícia bastasse, os grandes não escreveriam com o coração na ponta dos dedos.

O Instituto Moreira  Salles resolveu jo gar as crônicas de Rubem Braga na rede. O fazendeiro do ar, urso de Ipanema, mais cronistas da cepa de Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Otto Lara Rezende. Eu li a notícia de nariz torcido. Imperdoável, o que a internet fez com a obra de Caio Fernando Abreu. A má vontade durou até eu vencer a rabugice dos primeiros fios de cabelo branco e visitar o Portal da Crônica Brasileira. Apesar do suporte, a iniciativa serve uma literatura de lamber os beiços. 
Nunca será como folhear um livro, capaz de suscitar "o amor táctil dos maços de cigarros". Mas o acervo resgatado pela iniciativa é precioso. Em inspirado texto de apresentação, Humberto Werneck resgata a origem do gênero. E lembra que Machado de Assis, o maior de todos os escritores brasileiros - para alguns, o maior escritor da língua portuguesa -, foi dos primeiros a apelar para a prosa ligeira dos periódicos, subvertendo a informação em arte, abusando dos adjetivos.

"Já em 1859 o jovem - 20 anos -  Machado de Assis pôs em palavras as características da crônica, tal como é hoje entendida. O folhetinista, escreveu ele, era alguém capaz de promover 'a fusão admirável do útil e do fútil, o parto curioso e singular do sério, consorciado com o frívolo'. Para Machado (que na década de 1870 passaria a usar o termo 'crônica') esse tipo de escriba 'na sociedade, ocupa o lugar do colibri na esfera vegetal; salta, esvoaça, brinca, tremula, paira e espaneja-se sobre os caules suculentos, sobre todas as seivas vigorosas. Todo mundo lhe pertence, até mesmo a política".
Se o maior de todos falou, está falado. Quem não lembra do saudoso Cleomar Brandi, língua enrolada, um copo de conhaque à mão, personagem de si mesmo, reclamando a ausência de novos cronistas na imprensa sergipana? Seria por veleidade beletrista? Eu duvido muito. Ao cronista, no entanto, é permitido apreender o espírito dos tempos, alheio às preocupações objetivas da notícia. Amaral Cavalcante está aí, mandando brasa, um olho nas memórias lombradas, outro no curso dos acontecimentos. E, fora ele, em letra de imprensa, mais ninguém.
Amaral, Cleomar, Machado, Rubem Braga... Se notícia bastasse, os grandes não escreveriam com o coração na ponta dos dedos.