Um disco para poucos

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Guitarrista de mão cheia
Guitarrista de mão cheia

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Publicada em 18/09/2018 às 06:36:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
'Alma de carbono' é um disco para poucos. Não que o trabalho assinado por Ivan Reis tenha algo de inacessível. Muito ao contrário. Compositor forjado nos festivais, o músico jamais privilegiou o virtuosismo em detrimento da canção. A sua ausência nas plataformas de música em streaming, no entanto, mais o alheamento das rádios locais em relação aos tambores da aldeia (com as exceções de sempre), tem o potencial de transformar o seu esforço de comunicação em uma garrafa lançada ao mar. Disponível apenas em formato físico, 'Alma de carbono' é como uma mensagem boiando no oceano, sem esperança razoável de chegar à praia.
De todo modo, o disco existe. E é por suas 13 faixas que merece ser julgado. Ali, os quinze anos da trajetória iniciada no Sescanção ganham o status de documento. 'Lobo do mar' é ainda o ponto alto de um repertório fragilizado pelo lirismo pedestre. Mas se as letras procuram as rimas mais fáceis, os arranjos brilham. Cercado por instrumentistas tão competentes quanto ele mesmo, Ivan Reis não economiza nos timbres. A forma e a inflexão apelam ao gosto médio. Mas nas entrelinhas, por assim dizer, adivinha-se o toque do gênio.
Não se trata de um disco para músicos, longe disso. Entretanto, embora soe como um pop de novela, radiofônico, com letras edulcoradas, 'Alma de carbono' também guarda boas surpresas nas passagens instrumentais. E talvez seja a essa espécie de costura entre as faixas que dê unidade ao disco, como o próprio Ivan prometeu, quando lançou a campanha de financiamento coletivo. 
"Isso acabou gerando um resultado curioso, pois tem músicas que eu escrevi há mais tempo e algumas que eu fiz pouco tempo atrás. Eu passei muito tempo pensando o que seria esse disco, se eu deveria gravar só músicas novas e esquecer as mais antigas, ou se deveria gravar as mais antigas, mas que nunca fizeram parte de nenhum disco (pois este é o primeiro), e acabei fazendo um mix das duas coisas. Tentei encontrar porém um conceito que as agrupasse mesmo minimamente, e isso me fez cortar algumas músicas que o meu pequeno público esperava no disco. É a vida".
Eu não sei se Ivan Reis gosta de John Mayer. Mas a música de um e de outro possuem as mesmas virtudes, além de resvalar em pecados parecidos. Os dois encarnam o mesmo dilema. Cantores excelentes, guitarristas de mãos cheias, eles tiveram a manha de conter o próprio pendor para o virtuosismo, em favor das canções. Mas se o apelo pop tem o potencial de alcançar um público expressivo, desde que se disponha às plataformas digitais, também é capaz de, numa primeira impressão, espantar os ouvintes mais exigentes. 

'Alma de carbono' é um disco para poucos. Não que o trabalho assinado por Ivan Reis tenha algo de inacessível. Muito ao contrário. Compositor forjado nos festivais, o músico jamais privilegiou o virtuosismo em detrimento da canção. A sua ausência nas plataformas de música em streaming, no entanto, mais o alheamento das rádios locais em relação aos tambores da aldeia (com as exceções de sempre), tem o potencial de transformar o seu esforço de comunicação em uma garrafa lançada ao mar. Disponível apenas em formato físico, 'Alma de carbono' é como uma mensagem boiando no oceano, sem esperança razoável de chegar à praia.
De todo modo, o disco existe. E é por suas 13 faixas que merece ser julgado. Ali, os quinze anos da trajetória iniciada no Sescanção ganham o status de documento. 'Lobo do mar' é ainda o ponto alto de um repertório fragilizado pelo lirismo pedestre. Mas se as letras procuram as rimas mais fáceis, os arranjos brilham. Cercado por instrumentistas tão competentes quanto ele mesmo, Ivan Reis não economiza nos timbres. A forma e a inflexão apelam ao gosto médio. Mas nas entrelinhas, por assim dizer, adivinha-se o toque do gênio.
Não se trata de um disco para músicos, longe disso. Entretanto, embora soe como um pop de novela, radiofônico, com letras edulcoradas, 'Alma de carbono' também guarda boas surpresas nas passagens instrumentais. E talvez seja a essa espécie de costura entre as faixas que dê unidade ao disco, como o próprio Ivan prometeu, quando lançou a campanha de financiamento coletivo. 
"Isso acabou gerando um resultado curioso, pois tem músicas que eu escrevi há mais tempo e algumas que eu fiz pouco tempo atrás. Eu passei muito tempo pensando o que seria esse disco, se eu deveria gravar só músicas novas e esquecer as mais antigas, ou se deveria gravar as mais antigas, mas que nunca fizeram parte de nenhum disco (pois este é o primeiro), e acabei fazendo um mix das duas coisas. Tentei encontrar porém um conceito que as agrupasse mesmo minimamente, e isso me fez cortar algumas músicas que o meu pequeno público esperava no disco. É a vida".
Eu não sei se Ivan Reis gosta de John Mayer. Mas a música de um e de outro possuem as mesmas virtudes, além de resvalar em pecados parecidos. Os dois encarnam o mesmo dilema. Cantores excelentes, guitarristas de mãos cheias, eles tiveram a manha de conter o próprio pendor para o virtuosismo, em favor das canções. Mas se o apelo pop tem o potencial de alcançar um público expressivo, desde que se disponha às plataformas digitais, também é capaz de, numa primeira impressão, espantar os ouvintes mais exigentes.