80 anos de balanço

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Música negra made in Brasil
Música negra made in Brasil

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Publicada em 19/09/2018 às 06:38:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O jornalista especializa
do em Cultura nunca 
esteve tão vulnerável, à mercê do julgamento alheio, como em nossos dias. Quando o objeto de tantas cismas permanecia apartado do leitor, circunscrito ao alcance de meia dúzia de gatos pingados, bastava ao escriba formular uma tese, temperá-la com alguma graça e servir o produto de suas reflexões em letra de imprensa, com a autoridade de um suposto entendido. Hoje, ao contrário, a experiência da fruição musical, por exemplo, está à disposição de qualquer um.
Por outro lado, no entanto, também é mais fácil ignorar os imperativos da agenda que subordinava os cadernos culturais e realizar uma recomendação extemporânea, propondo o exercício meditativo que interessa ao resgate de capítulos esquecidos de nossa história. É como se o jornalista questionasse o seu conhecimento a respeito das origens da música negra no Brasil, só para lembrar que no distante ano de 1971, um disco gravado pelo pianista Dom Salvador, à frente do Grupo Abolição, reuniu os elementos da cultura Black exportados pela indústria fonográfica do Tio Sam, moendo a bagaça da cana a sua própria maneira.
O autor da façanha acaba de completar 80 anos de muito balanço, lançar disco inédito, registro de uma performance recente no Carnegie Hall, e estrelar o documentário 'Endless Soul', com data de estréia ainda não divulgada. O capítulo mais importante de sua trajetória artística, no entanto, foi escrito há muito tempo. Uma das páginas mais felizes da música negra made in Brasil.
Som, sangue e raça - O disco é seminal, não há como se negar ao adjetivo. A gente se enche de alegria, sorvendo a mistura de influências que tomou conta da música instrumental local, e esquece de mencionar que as firulas de tantos músicos tarimbados é herança de verdadeiros desbravadores. Gente que, a exemplo do sagrado Tim Maia, desafiou pré-conceitos e roeu a corda sem um pingo de medo.
'Som, sangue e raça' prova. Tárik de Souza, que dispensa qualquer apresentação, defende que foi a ousadia do pianista Dom Salvador, quando liderou o Copa Trio ao lado do baixista Gusmão e do batera Dom Um Romão, que permitiu a ascensão dos personagens do Beco das Garrafas. "O grupo serviria de suporte para as decolagens de Elis Regina e Jorge Ben (antes do Jor), entre outros". Isso, pra não mencionar, muitos anos mais tarde, a influência notável sobre o nosso Ferraro Trio.
Digressões à parte, a verdade é que além de gigantesco (eram oito integrantes), o Grupo Abolição contava com músicos de primeira linha, a exemplo do saxofonista Oberdã Magalhães e do baterista Luis Carlos, que no futuro fundariam a cultuada Black in Rio.
Na fervura do caldo, um bocado de jazz, bossa nova, samba e rhythm & blues. Tem gente que chama de Samba-Jazz, há quem diga que o nome mais adequado para o resultado - originalíssimo! - responde por Samba-Soul, mas isso não importa. No fim das contas, o rótulo não diz muita coisa. É música de preto, pra ninguém botar defeito.

O jornalista especializa do em Cultura nunca  esteve tão vulnerável, à mercê do julgamento alheio, como em nossos dias. Quando o objeto de tantas cismas permanecia apartado do leitor, circunscrito ao alcance de meia dúzia de gatos pingados, bastava ao escriba formular uma tese, temperá-la com alguma graça e servir o produto de suas reflexões em letra de imprensa, com a autoridade de um suposto entendido. Hoje, ao contrário, a experiência da fruição musical, por exemplo, está à disposição de qualquer um.
Por outro lado, no entanto, também é mais fácil ignorar os imperativos da agenda que subordinava os cadernos culturais e realizar uma recomendação extemporânea, propondo o exercício meditativo que interessa ao resgate de capítulos esquecidos de nossa história. É como se o jornalista questionasse o seu conhecimento a respeito das origens da música negra no Brasil, só para lembrar que no distante ano de 1971, um disco gravado pelo pianista Dom Salvador, à frente do Grupo Abolição, reuniu os elementos da cultura Black exportados pela indústria fonográfica do Tio Sam, moendo a bagaça da cana a sua própria maneira.
O autor da façanha acaba de completar 80 anos de muito balanço, lançar disco inédito, registro de uma performance recente no Carnegie Hall, e estrelar o documentário 'Endless Soul', com data de estréia ainda não divulgada. O capítulo mais importante de sua trajetória artística, no entanto, foi escrito há muito tempo. Uma das páginas mais felizes da música negra made in Brasil.

Som, sangue e raça - O disco é seminal, não há como se negar ao adjetivo. A gente se enche de alegria, sorvendo a mistura de influências que tomou conta da música instrumental local, e esquece de mencionar que as firulas de tantos músicos tarimbados é herança de verdadeiros desbravadores. Gente que, a exemplo do sagrado Tim Maia, desafiou pré-conceitos e roeu a corda sem um pingo de medo.
'Som, sangue e raça' prova. Tárik de Souza, que dispensa qualquer apresentação, defende que foi a ousadia do pianista Dom Salvador, quando liderou o Copa Trio ao lado do baixista Gusmão e do batera Dom Um Romão, que permitiu a ascensão dos personagens do Beco das Garrafas. "O grupo serviria de suporte para as decolagens de Elis Regina e Jorge Ben (antes do Jor), entre outros". Isso, pra não mencionar, muitos anos mais tarde, a influência notável sobre o nosso Ferraro Trio.
Digressões à parte, a verdade é que além de gigantesco (eram oito integrantes), o Grupo Abolição contava com músicos de primeira linha, a exemplo do saxofonista Oberdã Magalhães e do baterista Luis Carlos, que no futuro fundariam a cultuada Black in Rio.
Na fervura do caldo, um bocado de jazz, bossa nova, samba e rhythm & blues. Tem gente que chama de Samba-Jazz, há quem diga que o nome mais adequado para o resultado - originalíssimo! - responde por Samba-Soul, mas isso não importa. No fim das contas, o rótulo não diz muita coisa. É música de preto, pra ninguém botar defeito.