É o capitalismo, estúpido

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Publicada em 19/09/2018 às 07:14:00

 

* Luiz Gonzaga Belluzzo 
Na terça-feira 11 o jornal Valor nos ofereceu um artigo instigante de Rana Foroohar, colunista do Financial Times. Os analistas do mercado jogam Lego com a macroeconomia dos manuais, entoando as estrofes de 'Batatinha quando nasce".
Rana arrisca-se em compreender as peripécias do capitalismo global. Empenha-se em desvendar a especificidade dos movimentos que afetam o arranjo macroeconômico-financeiro das economias contemporâneas.
Com simplicidade, a colunista do Financial Times observa que "os dirigentes dos bancos centrais do mundo foram responsáveis por garantir que a Grande Recessão não se transformasse em mais uma Grande Depressão, ao conservar baixas as taxas de juros e ao manter impressionantes 15 trilhões de dólares em seus balanços.
"Isso levou as bolsas a alcançar seus picos de todos os tempos, apesar de não ter propiciado a criação de qualquer tipo de crescimento real dos salários. Os bancos centrais podem criar bolhas de ativos, é claro, mas não conseguem mudar os efeitos de arrocho salarial da globalização, a deflação puxada pela tecnologia e a crescente concentração de poder corporativo que impossibilita que os trabalhadores dos países ricos contem com qualquer verdadeiro poder de barganha.
"(...) Desde a gestão de Alan Greenspan no comando do Fed, o viés tem sido deixar as taxas baixas e se preocupar com as inevitáveis bolhas de ativos depois. Trata-se de atitude compreensível, especialmente diante da incapacidade dos políticos do mundo desenvolvido de aprovar grandes planos de infraestrutura ou a reforma educacional ou outras coisas que realmente mudariam a situação para as pessoas comuns, nos últimos dez anos."
A colusão entre as práticas financeiras, a formação das cadeias globais de valor, as inovações tecnológicas sustentam a competitividade da grande empresa internacionalizada.
A migração das empresas para as regiões onde prevalece uma relação mais favorável entre produtividade e salários associou-se à rapidez das inovações tecnológicas e ao controle do capital financeiro sobre as estratégias empresariais para enfraquecer o poder de negociação dos sindicatos e o número de sindicalizados.
Os ganhos de produtividade gerados pelas novas tecnologias estão escondidos nos calabouços construídos pelo poder de mercado das grandes empresas que se apropriam do valor criado: sobem as margens de lucro e destinam seus ganhos parrudos à recompra das próprias ações e ao pagamento de dividendos.
Os salários modorrentos, a letargia do investimento empresarial, a "geração de valor" para os acionistas e a aflitiva concorrência pela busca de resultados a curto prazo espelham o poder de monopólio das grandes empresas.
Há poucas semanas, no encontro patrocinado pelo Federal Reserve em Jackson Hole, o economista da Sloan School of Management, John Van Reenen, observou que muitas indústrias se tornaram "o vencedor leva tudo ou quase tudo", devido à globalização e às novas tecnologias.
No relatório Compendium of Productivity Indicators 2018, a OCDE investiga o paradoxo da produtividade: "A despeito da retomada do crescimento na maioria dos países da OCDE, o maior peso de empregos de baixa produtividade reduziu os salários reais na economia como um todo".
A aceleração do progresso tecnológico desloca um contingente significativo de trabalhadores para atividades de baixa qualificação, o que deprime a produtividade e a capacidade de consumo dos trabalhadores submetidos ao emprego precário e intermitente.
Em seu rastro de vitórias, as poderosas empresas deixam uma procissão de desgraças: a despeito das cifras oficiais do desemprego, caem as taxas de participação na força de trabalho por conta do desalento e cresce a precariedade das novas formas de ocupação, o que desata a queda dos salários reais e a exclusão social.
O processo que submete a criação de valor à extração de valor impulsiona o crescimento dos trabalhadores em tempo parcial e a título precário, sobretudo nos serviços, é escoltado pela destruição dos postos de trabalho mais qualificados na indústria. O inchaço do subemprego e da precarização endureceu as condições de vida do trabalhador.
A evolução do regime do "precariato" constituiu relações de subordinação dos trabalhadores dos serviços, independentemente da qualificação, sob as práticas da flexibilidade do horário, que tornam o trabalhador permanentemente disponível.
O resultado é a incerteza a respeito dos rendimentos e horas de trabalho. Esta é a mudança mais importante na força de trabalho americana ao longo de um século. Algumas projeções estimam que, nos próximos cinco anos, mais de 40% da força de trabalho americana estará submetida a um emprego precário.
* Luiz Gonzaga Belluzzo  é economista e professor. (Publicado originalmente na Carta Capital)

* Luiz Gonzaga Belluzzo 

Na terça-feira 11 o jornal Valor nos ofereceu um artigo instigante de Rana Foroohar, colunista do Financial Times. Os analistas do mercado jogam Lego com a macroeconomia dos manuais, entoando as estrofes de 'Batatinha quando nasce".
Rana arrisca-se em compreender as peripécias do capitalismo global. Empenha-se em desvendar a especificidade dos movimentos que afetam o arranjo macroeconômico-financeiro das economias contemporâneas.
Com simplicidade, a colunista do Financial Times observa que "os dirigentes dos bancos centrais do mundo foram responsáveis por garantir que a Grande Recessão não se transformasse em mais uma Grande Depressão, ao conservar baixas as taxas de juros e ao manter impressionantes 15 trilhões de dólares em seus balanços.
"Isso levou as bolsas a alcançar seus picos de todos os tempos, apesar de não ter propiciado a criação de qualquer tipo de crescimento real dos salários. Os bancos centrais podem criar bolhas de ativos, é claro, mas não conseguem mudar os efeitos de arrocho salarial da globalização, a deflação puxada pela tecnologia e a crescente concentração de poder corporativo que impossibilita que os trabalhadores dos países ricos contem com qualquer verdadeiro poder de barganha.
"(...) Desde a gestão de Alan Greenspan no comando do Fed, o viés tem sido deixar as taxas baixas e se preocupar com as inevitáveis bolhas de ativos depois. Trata-se de atitude compreensível, especialmente diante da incapacidade dos políticos do mundo desenvolvido de aprovar grandes planos de infraestrutura ou a reforma educacional ou outras coisas que realmente mudariam a situação para as pessoas comuns, nos últimos dez anos."
A colusão entre as práticas financeiras, a formação das cadeias globais de valor, as inovações tecnológicas sustentam a competitividade da grande empresa internacionalizada.
A migração das empresas para as regiões onde prevalece uma relação mais favorável entre produtividade e salários associou-se à rapidez das inovações tecnológicas e ao controle do capital financeiro sobre as estratégias empresariais para enfraquecer o poder de negociação dos sindicatos e o número de sindicalizados.
Os ganhos de produtividade gerados pelas novas tecnologias estão escondidos nos calabouços construídos pelo poder de mercado das grandes empresas que se apropriam do valor criado: sobem as margens de lucro e destinam seus ganhos parrudos à recompra das próprias ações e ao pagamento de dividendos.
Os salários modorrentos, a letargia do investimento empresarial, a "geração de valor" para os acionistas e a aflitiva concorrência pela busca de resultados a curto prazo espelham o poder de monopólio das grandes empresas.
Há poucas semanas, no encontro patrocinado pelo Federal Reserve em Jackson Hole, o economista da Sloan School of Management, John Van Reenen, observou que muitas indústrias se tornaram "o vencedor leva tudo ou quase tudo", devido à globalização e às novas tecnologias.
No relatório Compendium of Productivity Indicators 2018, a OCDE investiga o paradoxo da produtividade: "A despeito da retomada do crescimento na maioria dos países da OCDE, o maior peso de empregos de baixa produtividade reduziu os salários reais na economia como um todo".
A aceleração do progresso tecnológico desloca um contingente significativo de trabalhadores para atividades de baixa qualificação, o que deprime a produtividade e a capacidade de consumo dos trabalhadores submetidos ao emprego precário e intermitente.
Em seu rastro de vitórias, as poderosas empresas deixam uma procissão de desgraças: a despeito das cifras oficiais do desemprego, caem as taxas de participação na força de trabalho por conta do desalento e cresce a precariedade das novas formas de ocupação, o que desata a queda dos salários reais e a exclusão social.
O processo que submete a criação de valor à extração de valor impulsiona o crescimento dos trabalhadores em tempo parcial e a título precário, sobretudo nos serviços, é escoltado pela destruição dos postos de trabalho mais qualificados na indústria. O inchaço do subemprego e da precarização endureceu as condições de vida do trabalhador.
A evolução do regime do "precariato" constituiu relações de subordinação dos trabalhadores dos serviços, independentemente da qualificação, sob as práticas da flexibilidade do horário, que tornam o trabalhador permanentemente disponível.
O resultado é a incerteza a respeito dos rendimentos e horas de trabalho. Esta é a mudança mais importante na força de trabalho americana ao longo de um século. Algumas projeções estimam que, nos próximos cinco anos, mais de 40% da força de trabalho americana estará submetida a um emprego precário.

* Luiz Gonzaga Belluzzo  é economista e professor. (Publicado originalmente na Carta Capital)