O artesanato do tempo

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Símbolo imprevisto
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Publicada em 21/09/2018 às 06:47:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O grande navio en
ferrujado estava 
atracado há tanto tempo, a ponto de ser confundido com a própria paisagem. Bastava alguém molhar a vista na margem oposta da aldeia para sentir o atrito metálico na retina, feito amargo travo visual. Ali, encalhado, na ausência de um monumento capaz de dar uma forma definida ao espírito do lugar, o navio da H. Dantas foi adotado como uma espécie de totem, símbolo imprevisto, um arauto flutuante da imobilidade Serigy.
Segundo uma canção popular, "tudo o que move é sagrado". Pois numa capital de pedra, como Aracaju, até o sentimento é estanque. Ruína e ferrugem, o artesanato do tempo, são fabricados em silêncio, com a complacência dos entes públicos. Enquanto as traças se fartam com os papéis da burocracia, os cupins engordam, lambendo os dedos. Só por isso o Hotel Palace ainda ameaça o passeio no centro da cidade. Mas tão certo como dois e dois é igual a quatro, um dia a casa cai.
Aqui, quando as paredes não vacilam, as portas são trancadas a sete chaves. Basta lembrar o que foi feito do finado Cacique Chá. De ambiente animado, abrigo de farras e debates calorosos, casa de todos os pecados, a julgar pela crônica saborosa de Amaral Cavalcante, foi feito um restaurante sem graça, em regime de horário comercial, sob o pretexto de preservar a memória traída pela ingerência de sucessivos governos. Melhor seria tê-lo abandonado à própria sorte, até o prédio desmoronar de uma vez por todas, sob uma nuvem de poeira, orgulhoso como um herói.
Da Galeria de Artes Álvaro Santos, alguns passos à frente, na mesma Praça Olímpio Campos, nem se fala. Fontes ligadas à Prefeitura Municipal de Aracaju comentam a boca pequena sobre a eventual cessão do espaço ao empresário Joubert Uchôa, com propósito indefinido. Certo é que, desde a posse do prefeito Edvaldo Nogueira, a GAAS não realizou nenhuma mostra, não exibiu sequer um quadro novo entre as suas quatro paredes.
Assim, o último resquício de sensibilidade nos limites estreitos de Aracaju é mesmo o esqueleto de um navio caindo aos pedaços, ancorado na outra margem Rio Sergipe, desde sempre. Quando finalmente terminarem o desmanche do monstro estacionado, esquecido das distâncias cheias de espuma e os caminhos revoltos dos oceanos, não restará mais nada. O último vínculo autêntico do sergipano médio com a paisagem de todos os dias terá virado ferro velho.

O grande navio en ferrujado estava  atracado há tanto tempo, a ponto de ser confundido com a própria paisagem. Bastava alguém molhar a vista na margem oposta da aldeia para sentir o atrito metálico na retina, feito amargo travo visual. Ali, encalhado, na ausência de um monumento capaz de dar uma forma definida ao espírito do lugar, o navio da H. Dantas foi adotado como uma espécie de totem, símbolo imprevisto, um arauto flutuante da imobilidade Serigy.
Segundo uma canção popular, "tudo o que move é sagrado". Pois numa capital de pedra, como Aracaju, até o sentimento é estanque. Ruína e ferrugem, o artesanato do tempo, são fabricados em silêncio, com a complacência dos entes públicos. Enquanto as traças se fartam com os papéis da burocracia, os cupins engordam, lambendo os dedos. Só por isso o Hotel Palace ainda ameaça o passeio no centro da cidade. Mas tão certo como dois e dois é igual a quatro, um dia a casa cai.
Aqui, quando as paredes não vacilam, as portas são trancadas a sete chaves. Basta lembrar o que foi feito do finado Cacique Chá. De ambiente animado, abrigo de farras e debates calorosos, casa de todos os pecados, a julgar pela crônica saborosa de Amaral Cavalcante, foi feito um restaurante sem graça, em regime de horário comercial, sob o pretexto de preservar a memória traída pela ingerência de sucessivos governos. Melhor seria tê-lo abandonado à própria sorte, até o prédio desmoronar de uma vez por todas, sob uma nuvem de poeira, orgulhoso como um herói.
Da Galeria de Artes Álvaro Santos, alguns passos à frente, na mesma Praça Olímpio Campos, nem se fala. Fontes ligadas à Prefeitura Municipal de Aracaju comentam a boca pequena sobre a eventual cessão do espaço ao empresário Joubert Uchôa, com propósito indefinido. Certo é que, desde a posse do prefeito Edvaldo Nogueira, a GAAS não realizou nenhuma mostra, não exibiu sequer um quadro novo entre as suas quatro paredes.
Assim, o último resquício de sensibilidade nos limites estreitos de Aracaju é mesmo o esqueleto de um navio caindo aos pedaços, ancorado na outra margem Rio Sergipe, desde sempre. Quando finalmente terminarem o desmanche do monstro estacionado, esquecido das distâncias cheias de espuma e os caminhos revoltos dos oceanos, não restará mais nada. O último vínculo autêntico do sergipano médio com a paisagem de todos os dias terá virado ferro velho.