Terra em transe

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Elza Soares, no aug
Elza Soares, no aug

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Publicada em 22/09/2018 às 07:14:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O anúncio dos indi
cados ao Grammy 
Latino confirmou a impressão reiterada desta página, desde o início do ano: Anitta, Chico Buarque e Elza Soares são hoje os artistas com trabalhos mais relevantes na seara musical de Terra Brasílis, por razões muito diferentes. Os três concorrem em categorias diversas. Independente de uma eventual consagração, no entanto, deixaram registrados, cada um a seu próprio modo, os embates travados aqui e agora, no coração de uma terra em transe.
Ambiciosa como ela só, de olhos nas notas dando sopa sob as barbas do Tio Sam, Anitta vem investindo de maneira mais ou menos consistente em sua carreira internacional. Para tanto, tratou de capitalizar uma verdade axiomática: fora do centro é tudo beira. Neste particular, o rock errou. Sem as guitarras propagadas pelos donos do mundo, pretos e pobres, os viados, as putas dançam funk.
O sambista, por sua vez, assina a música do ano. 'As caravanas' é uma canção magistral, com ecos do funk bombando no alto do morro, composta sob a perspectiva de um aturdido frequentador de Copacabana. Na vida real, a tensão social nas praias cariocas, capturada de maneira magistral pelo músico/cronista, pode até não merecer os necessários dedos de prosa. Aqui, no entanto, foi evocada com força inédita em termos de grande poesia. 
Por fim, convém realizar todas as reverências à majestade de Elza Soares. A artista está no auge, na crista da onda, nadando de braçada no mar revolto da sensibilidade hodierna. O disco recém lançado 'Deus é mulher' reafirma com todas as guitarras e letras a disposição manifesta no engajado 'A mulher do fim do mundo' (2016). Se, no disco anterior, a artista evocou um universo de violências e afetos brutos vividos na própria pele preta, Elza Soares canta agora a potência do feminino, em paz com a própria carne, plena de si.

O anúncio dos indi cados ao Grammy  Latino confirmou a impressão reiterada desta página, desde o início do ano: Anitta, Chico Buarque e Elza Soares são hoje os artistas com trabalhos mais relevantes na seara musical de Terra Brasílis, por razões muito diferentes. Os três concorrem em categorias diversas. Independente de uma eventual consagração, no entanto, deixaram registrados, cada um a seu próprio modo, os embates travados aqui e agora, no coração de uma terra em transe.
Ambiciosa como ela só, de olhos nas notas dando sopa sob as barbas do Tio Sam, Anitta vem investindo de maneira mais ou menos consistente em sua carreira internacional. Para tanto, tratou de capitalizar uma verdade axiomática: fora do centro é tudo beira. Neste particular, o rock errou. Sem as guitarras propagadas pelos donos do mundo, pretos e pobres, os viados, as putas dançam funk.
O sambista, por sua vez, assina a música do ano. 'As caravanas' é uma canção magistral, com ecos do funk bombando no alto do morro, composta sob a perspectiva de um aturdido frequentador de Copacabana. Na vida real, a tensão social nas praias cariocas, capturada de maneira magistral pelo músico/cronista, pode até não merecer os necessários dedos de prosa. Aqui, no entanto, foi evocada com força inédita em termos de grande poesia. 
Por fim, convém realizar todas as reverências à majestade de Elza Soares. A artista está no auge, na crista da onda, nadando de braçada no mar revolto da sensibilidade hodierna. O disco recém lançado 'Deus é mulher' reafirma com todas as guitarras e letras a disposição manifesta no engajado 'A mulher do fim do mundo' (2016). Se, no disco anterior, a artista evocou um universo de violências e afetos brutos vividos na própria pele preta, Elza Soares canta agora a potência do feminino, em paz com a própria carne, plena de si.