Reunião do COPOM? Mas que COPOM?

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Publicada em 28/09/2018 às 07:37:00

 

* Paulo Kliass
Pouca gente se deu conta ou foi 
informada a esse respeito. Mas 
no dia 19 de setembro foi realizada a 217ª reunião ordinária do Comitê de Política Monetária, o nosso conhecido COPOM. No entanto, ao contrário das grandes pompas e expectativas com as quais as editorias de economia dos grandes meios de comunicação costumam se referir a esse evento, dessa vez quase nada foi falado, escrito ou comentado.
Uma das hipóteses levantadas para explicar esse estranho silêncio reside na mesmice da deliberação do douto colegiado. Mais uma vez, os integrantes da diretoria do Banco Central resolverem manter o mesmo nível da taxa SELIC em 6,5% ao ano, tal como vinha sendo decidido ao longo das últimas quatro reuniões desde 21 de março.
Mas não creio que essa seja uma explicação de todo convincente. Afinal, já houve sequências muito mais longas sem mudança na taxa e nem por isso a grande imprensa deixava de conferir toda a cobertura detalhada dos encontros. Entre julho de 2015 e outubro de 2016, por exemplo, foram dez reuniões consecutivas em que o comitê decidia pela manutenção da SELIC no patamar de 14,25%. Mas a aposta na desestabilização do governo Dilma e a preparação da estratégia do golpeachment faziam do espaço do comitê um momento de disputa política importante e de sua utilização para garimpar apoio da opinião ao afastamento da presidenta eleita, ainda que sem provas.
O COPOM no fim de feira.
O fato concreto é que estamos diante de um governo com uma popularidade rastejante, que perde até mesmo para as margens de erro das pesquisas de intenção de voto. O governo Temer encerra uma fase trágica de nosso País, que ele mesmo fez mergulhar na maior crise social e econômica de sua História. Meirelles, o candidato oficial de seu governo à Presidência da República, é solenemente ignorado por 6 em cada 5 dirigentes políticos do MDB nos estados e nos municípios. Os demais candidatos que se imaginavam herdeiros do austericídio e da política de desmonte do Estado patinam pelo Brasil afora e não conseguem decolar nos levantamentos dos institutos de pesquisa.
Ilan Goldfajn é um dos poucos remanescentes que permanece fiel no primeiro escalão do governo, sempre à frente do Banco Central. O alto dirigente do Banco Itaú não se licenciou para ser candidato a nenhum cargo eletivo e foi encarregado de fechar o boteco na passagem de bastão para a próxima equipe econômica. Ora, nessas condições o que interessa falar da decisão do COPOM? E olha que ainda teremos mais duas reuniões depois de conhecidos os resultados do segundo turno do pleito presidencial, no final de outubro e no começo de dezembro. Mas as editorias de economia preferem amplificar o catastrofismo da especulação com a taxa de câmbio a analisar o desastre causado pelo alto custo dos empréstimos.
A elite refinada do financismo já sabe que as eleições deverão promover a mudança no rumo e no comando da política econômica. Assim, não há muito o que se preocupar com o governo atual. Como se diz no popular, não vale a pena gastar vela boa com defunto ruim. A estratégia do sistema financeiro agora parece priorizar o seu desespero de entabular a qualquer custo um governo comprometido com a continuidade do desastre em curso. Caso contrário, o Plano B prevê a tomada de assalto dos principais postos da economia em eventual governo de Haddad, por exemplo. Além disso, é claro, preparam a nossa conhecida artilharia da chantagem ao exigir compromissos de lealdade ao receituário liberal e mostras de bom mocismo na continuidade do ajuste.
Financismo se prepara para 2019.
Assim, ninguém mais no seleto circuito das finanças parece se importar muito com o fato de o COPOM ter mantido, diminuído ou subido um pouco a SELIC na semana passada. A questão é olhar para a frente. E assim fortalecer Paulo Guedes como o conselheiro de Bolsonaro ou exercer um lobby eficiente para que os nomes indicados e o programa adotado por Haddad não representem muita mudança em relação ao cardápio aplicado até agora.
Para o outro lado da sala, aquele que mais nos interessa, talvez a manutenção da SELIC no patamar de 6,5% seja o menos relevante no momento atual. É bem verdade que qualquer projeto de superação do atual quadro recessivo e que aponte para a retomada do crescimento e do desenvolvimento exige uma taxa de juros oficial mais reduzida. Mas como não se espera nada nesse front de um governo em final de feira, essa informação termina por ser menos importante.
O fato é que os candidatos do campo progressista já apontam para aspectos que implicam em alterar de forma efetiva alguns dos fundamentos da política econômica em vigor. É o caso da revogação da EC 95, que congela os gastos orçamentários sociais por 20 anos. É o caso da revogação do arremedo de reforma trabalhista, que nada fez senão reduzir direitos dos trabalhadores no meio de uma recessão espetacular. É o caso da necessidade de redefinir a prática de geração sistemática do superávit primário, que termina por drenar recursos públicos para o sistema financeiro.
O consenso pela mudança avançou mais ainda. É o caso de medidas tributárias inovadoras para fazer com que, finalmente, os setores do topo da pirâmide social passem a contribuir com algum recurso para a superação das dificuldades fiscais. É o caso da necessária mudança no mandato da política monetária, que deveria passar a considerar também o nível de emprego, para além das metas de inflação, no processo de definição da taxa SELIC. É também o caso de uma ação mais incisiva dos bancos públicos como instrumento para provocar a queda do escandaloso spread bancário em nossas terras.
Enfim, face a esse conjunto de medidas necessárias para reorientar o rumo da política econômica, talvez os atuais 6,5% mantidos pelo comitê sejam realmente um ponto secundário no debate. Afinal, a maioria da população aguarda o início de janeiro próximo com uma agenda nova, portadora de mudanças e que seja capaz de deixar para trás essa tragédia toda do austericídio. Um novo COPOM será instalado e uma nova política monetária deverá ser adotada. Será o momento de desfazer o estrago e nos preparamos para (re)construir um futuro melhor, com democracia efetiva, mais igualdade e desenvolvimento.
* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal

* Paulo Kliass

Pouca gente se deu conta ou foi  informada a esse respeito. Mas  no dia 19 de setembro foi realizada a 217ª reunião ordinária do Comitê de Política Monetária, o nosso conhecido COPOM. No entanto, ao contrário das grandes pompas e expectativas com as quais as editorias de economia dos grandes meios de comunicação costumam se referir a esse evento, dessa vez quase nada foi falado, escrito ou comentado.
Uma das hipóteses levantadas para explicar esse estranho silêncio reside na mesmice da deliberação do douto colegiado. Mais uma vez, os integrantes da diretoria do Banco Central resolverem manter o mesmo nível da taxa SELIC em 6,5% ao ano, tal como vinha sendo decidido ao longo das últimas quatro reuniões desde 21 de março.
Mas não creio que essa seja uma explicação de todo convincente. Afinal, já houve sequências muito mais longas sem mudança na taxa e nem por isso a grande imprensa deixava de conferir toda a cobertura detalhada dos encontros. Entre julho de 2015 e outubro de 2016, por exemplo, foram dez reuniões consecutivas em que o comitê decidia pela manutenção da SELIC no patamar de 14,25%. Mas a aposta na desestabilização do governo Dilma e a preparação da estratégia do golpeachment faziam do espaço do comitê um momento de disputa política importante e de sua utilização para garimpar apoio da opinião ao afastamento da presidenta eleita, ainda que sem provas.

O COPOM no fim de feira.
O fato concreto é que estamos diante de um governo com uma popularidade rastejante, que perde até mesmo para as margens de erro das pesquisas de intenção de voto. O governo Temer encerra uma fase trágica de nosso País, que ele mesmo fez mergulhar na maior crise social e econômica de sua História. Meirelles, o candidato oficial de seu governo à Presidência da República, é solenemente ignorado por 6 em cada 5 dirigentes políticos do MDB nos estados e nos municípios. Os demais candidatos que se imaginavam herdeiros do austericídio e da política de desmonte do Estado patinam pelo Brasil afora e não conseguem decolar nos levantamentos dos institutos de pesquisa.
Ilan Goldfajn é um dos poucos remanescentes que permanece fiel no primeiro escalão do governo, sempre à frente do Banco Central. O alto dirigente do Banco Itaú não se licenciou para ser candidato a nenhum cargo eletivo e foi encarregado de fechar o boteco na passagem de bastão para a próxima equipe econômica. Ora, nessas condições o que interessa falar da decisão do COPOM? E olha que ainda teremos mais duas reuniões depois de conhecidos os resultados do segundo turno do pleito presidencial, no final de outubro e no começo de dezembro. Mas as editorias de economia preferem amplificar o catastrofismo da especulação com a taxa de câmbio a analisar o desastre causado pelo alto custo dos empréstimos.
A elite refinada do financismo já sabe que as eleições deverão promover a mudança no rumo e no comando da política econômica. Assim, não há muito o que se preocupar com o governo atual. Como se diz no popular, não vale a pena gastar vela boa com defunto ruim. A estratégia do sistema financeiro agora parece priorizar o seu desespero de entabular a qualquer custo um governo comprometido com a continuidade do desastre em curso. Caso contrário, o Plano B prevê a tomada de assalto dos principais postos da economia em eventual governo de Haddad, por exemplo. Além disso, é claro, preparam a nossa conhecida artilharia da chantagem ao exigir compromissos de lealdade ao receituário liberal e mostras de bom mocismo na continuidade do ajuste.

Financismo se prepara para 2019.
Assim, ninguém mais no seleto circuito das finanças parece se importar muito com o fato de o COPOM ter mantido, diminuído ou subido um pouco a SELIC na semana passada. A questão é olhar para a frente. E assim fortalecer Paulo Guedes como o conselheiro de Bolsonaro ou exercer um lobby eficiente para que os nomes indicados e o programa adotado por Haddad não representem muita mudança em relação ao cardápio aplicado até agora.
Para o outro lado da sala, aquele que mais nos interessa, talvez a manutenção da SELIC no patamar de 6,5% seja o menos relevante no momento atual. É bem verdade que qualquer projeto de superação do atual quadro recessivo e que aponte para a retomada do crescimento e do desenvolvimento exige uma taxa de juros oficial mais reduzida. Mas como não se espera nada nesse front de um governo em final de feira, essa informação termina por ser menos importante.
O fato é que os candidatos do campo progressista já apontam para aspectos que implicam em alterar de forma efetiva alguns dos fundamentos da política econômica em vigor. É o caso da revogação da EC 95, que congela os gastos orçamentários sociais por 20 anos. É o caso da revogação do arremedo de reforma trabalhista, que nada fez senão reduzir direitos dos trabalhadores no meio de uma recessão espetacular. É o caso da necessidade de redefinir a prática de geração sistemática do superávit primário, que termina por drenar recursos públicos para o sistema financeiro.
O consenso pela mudança avançou mais ainda. É o caso de medidas tributárias inovadoras para fazer com que, finalmente, os setores do topo da pirâmide social passem a contribuir com algum recurso para a superação das dificuldades fiscais. É o caso da necessária mudança no mandato da política monetária, que deveria passar a considerar também o nível de emprego, para além das metas de inflação, no processo de definição da taxa SELIC. É também o caso de uma ação mais incisiva dos bancos públicos como instrumento para provocar a queda do escandaloso spread bancário em nossas terras.
Enfim, face a esse conjunto de medidas necessárias para reorientar o rumo da política econômica, talvez os atuais 6,5% mantidos pelo comitê sejam realmente um ponto secundário no debate. Afinal, a maioria da população aguarda o início de janeiro próximo com uma agenda nova, portadora de mudanças e que seja capaz de deixar para trás essa tragédia toda do austericídio. Um novo COPOM será instalado e uma nova política monetária deverá ser adotada. Será o momento de desfazer o estrago e nos preparamos para (re)construir um futuro melhor, com democracia efetiva, mais igualdade e desenvolvimento.

* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal