Sororidade

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 03/10/2018 às 07:04:00

 

* Lelê Teles
Fui ao ato das mulheres contra o inominável, tudo lindo!
Fui às lágrimas: não saía da minha cabeça a imagem criada por Lula antes da sua prisão:
"Vocês podem arrancar uma, duas flores... mas não podem impedir a chegada da primavera".
A primavera chegou chegando, e elas estavam lá.
Atifiquei, gritei palavras de ordem, solidarizei-me com as irmãs de luta e fui dormir.
E dormindo sonhei.
"Quero uma imagem/símbolo do dia 29/10 para grafitar nessa parede, tem uma sugestão?"
Perguntou-me uma garota de cabelos cacheados e tiara de lenço na cabeça, enquanto sacudia as latas de tinta.
A parede de tintura descascada, carcomida pelo tempo e pelo abandono, estava repleta de marcas de tiro.
"Uma imagem/símbolo?", eu perguntei.
Ela ficou sacudindo o spray, a esperar.
"Lembra da pintura do Caravaggio, a mulher com o busto nu, a bandeira da república francesa na mão, pisando em corpos..."
"A imagem/símbolo da revolução francesa... já sei", ela me cortou. E começou a rascunhar na parede, enquanto falava comigo:
"Foi lindo o ato, eu queria ter estado lá, mas sei que estive no coração de muitas das que ergueram os punhos nas ruas do Brasil e do exterior."
Aí ela falou sobre a luta da mulher negra e pobre, da mulher com deficiência, da mulher acima do peso padrão, da mulher trans, da lésbica, da travesti... falou-me da diversidade que compõe o mosaico feminino.
"Quando nos vestiram de rosa, não nos deram uma cor, nos forçaram ao monocromatismo", ela seguia. "Vermelho é cor de puta!"
Eu falei, "e preta é a cor do alvo no tiro ao alvo."
Ela completou: "mentiram que éramos inimigas, que tínhamos que ter inveja umas das outras, que éramos um sexo frágil... mentiram que mulher ama sapatos, mas só quem ama sapatos é a mulher ocidental, porque exposta às propagandas que propagam que ela ama sapatos... a mulher sujeito é a antítese do homem abjeto"
Enquanto falávamos, ela desenhava. Primeiro veio a pilha de corpos de homens no chão.
De pé apenas três mulheres. Uma segurava um livro em cada mão, uma delas erguida aos céus.
A outra, de lado, mostrava o muque do braço, arregaçando a manga da camisa.
A terceira trazia um estandarte onde se lia: Declaração Universal dos Direitos da Mulher.
Aí, ela olhou pra mim e perguntou: "sabe por quê o lema da bandeira francesa tem a palavra fraternidade?"
Eu botei a mão no queixo, esperando.
Ela continuou: "fraternidade é a irmandade entre os homens. Vem do latim Frater, que quer dizer irmão; por isso, Fratello em italiano."
Compreendi a parada e disse a ela: "então, não é em busca de fraternidade que vocês estão?"
 Cclaro que não. É a fraternidade que une os eleitores do Coiso", ela respondeu sem me olhar, ainda pintando.
"Fraternidade é o que vocês homens buscaram a vida toda. Nós queremos sororidade. Irmã em latim é Soror; por isso, irmã em italiano é Sorella. Só a sororidade nos salva!"
Ela terminou o desenho e flutuou pelos ares como se ave fosse, pluma no céu plúmbeo.
Dei três passos pra trás e contemplei o desenho finalizado.
Não era a Marianne com a bandeira da França na mão, pisoteando os corpos.
Era a Marielle.
Com os cabelos cacheados e a tiara de lenço na cabeça, erguendo uma bandeira lilás com o símbolo feminino desenhado.
Ela escreveu em letras garrafais sobre o grafite: IGUALDADE, LIBERDADE E SORORIDADE.
Só me dei conta quando a mulher sumiu: a moça da pintura era a mesma que pintava.
Palavra da salvação.
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista

* Lelê Teles

Fui ao ato das mulheres contra o inominável, tudo lindo!
Fui às lágrimas: não saía da minha cabeça a imagem criada por Lula antes da sua prisão:
"Vocês podem arrancar uma, duas flores... mas não podem impedir a chegada da primavera".
A primavera chegou chegando, e elas estavam lá.
Atifiquei, gritei palavras de ordem, solidarizei-me com as irmãs de luta e fui dormir.
E dormindo sonhei.
"Quero uma imagem/símbolo do dia 29/10 para grafitar nessa parede, tem uma sugestão?"
Perguntou-me uma garota de cabelos cacheados e tiara de lenço na cabeça, enquanto sacudia as latas de tinta.
A parede de tintura descascada, carcomida pelo tempo e pelo abandono, estava repleta de marcas de tiro.
"Uma imagem/símbolo?", eu perguntei.
Ela ficou sacudindo o spray, a esperar.
"Lembra da pintura do Caravaggio, a mulher com o busto nu, a bandeira da república francesa na mão, pisando em corpos..."
"A imagem/símbolo da revolução francesa... já sei", ela me cortou. E começou a rascunhar na parede, enquanto falava comigo:
"Foi lindo o ato, eu queria ter estado lá, mas sei que estive no coração de muitas das que ergueram os punhos nas ruas do Brasil e do exterior."
Aí ela falou sobre a luta da mulher negra e pobre, da mulher com deficiência, da mulher acima do peso padrão, da mulher trans, da lésbica, da travesti... falou-me da diversidade que compõe o mosaico feminino.
"Quando nos vestiram de rosa, não nos deram uma cor, nos forçaram ao monocromatismo", ela seguia. "Vermelho é cor de puta!"
Eu falei, "e preta é a cor do alvo no tiro ao alvo."
Ela completou: "mentiram que éramos inimigas, que tínhamos que ter inveja umas das outras, que éramos um sexo frágil... mentiram que mulher ama sapatos, mas só quem ama sapatos é a mulher ocidental, porque exposta às propagandas que propagam que ela ama sapatos... a mulher sujeito é a antítese do homem abjeto"
Enquanto falávamos, ela desenhava. Primeiro veio a pilha de corpos de homens no chão.
De pé apenas três mulheres. Uma segurava um livro em cada mão, uma delas erguida aos céus.
A outra, de lado, mostrava o muque do braço, arregaçando a manga da camisa.
A terceira trazia um estandarte onde se lia: Declaração Universal dos Direitos da Mulher.
Aí, ela olhou pra mim e perguntou: "sabe por quê o lema da bandeira francesa tem a palavra fraternidade?"
Eu botei a mão no queixo, esperando.
Ela continuou: "fraternidade é a irmandade entre os homens. Vem do latim Frater, que quer dizer irmão; por isso, Fratello em italiano."
Compreendi a parada e disse a ela: "então, não é em busca de fraternidade que vocês estão?"
 Cclaro que não. É a fraternidade que une os eleitores do Coiso", ela respondeu sem me olhar, ainda pintando.
"Fraternidade é o que vocês homens buscaram a vida toda. Nós queremos sororidade. Irmã em latim é Soror; por isso, irmã em italiano é Sorella. Só a sororidade nos salva!"
Ela terminou o desenho e flutuou pelos ares como se ave fosse, pluma no céu plúmbeo.
Dei três passos pra trás e contemplei o desenho finalizado.
Não era a Marianne com a bandeira da França na mão, pisoteando os corpos.
Era a Marielle.
Com os cabelos cacheados e a tiara de lenço na cabeça, erguendo uma bandeira lilás com o símbolo feminino desenhado.
Ela escreveu em letras garrafais sobre o grafite: IGUALDADE, LIBERDADE E SORORIDADE.
Só me dei conta quando a mulher sumiu: a moça da pintura era a mesma que pintava.
Palavra da salvação.

* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista