Encantos e desafios da emblemática Ladeira do Burumburum-II

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Publicada em 04/10/2018 às 07:29:00

 

* Acrísio Gonçalves de Oliveira
Conta-se que ainda nos anos 1940, ao pé da ladeira, havia uma passagem por dentro do citado riacho e próximo a ele - misturado a tantos outros matos e árvores - um frondoso jenipapeiro, cujos frutos alguns viajantes apanhavam para saciar um pouco a fome. Antes, porém, ao observarmos essa parte geográfica estanciana ela nos faz remeter ao que disse o cronista e jornalista João do Rio (1881-1921) ao refletir sobre as ruas do Rio de Janeiro. "A rua é a civilização da estrada. Onde morre o grande caminho começa a rua". A ladeira do Brumburum foi um dos grandes caminhos de Estância e talvez por isso fosse logo se conectar a importante Rua da Ópera. Uma rua que talvez tenha sido, com a sua Casa da Ópera, o palco onde o maestro Marcelo Santa Fé ensinou música a Tobias Barreto, o grande filósofo sergipano. Ainda nos dizeres do cronista tratava-se de uma rua viajada. Uma rua "com a visão de outros horizontes".
Assim, se justificava pelo Burumburum o trânsito constante de pessoas: tropeiros com todo tipo de mercadoria, carros de bois que conduziam cargas de açúcar dos engenhos para o Porto d'Areia ou deste para outras cidades; cargas de lenha para a queima nos fogões das casas e padarias ou mesmo carradas de cana costumeiramente vendidas na Praça Barão do Rio Branco, o ponto da feira local. Canas para serem consumidas como garapa ou como "roletes", estes sempre vendidos nas festas, nas portas dos cinemas, nas portas das igrejas, nas portas dos cabarés. Tantas eram as carradas que chegavam à cidade, que mais tarde, depois da mudança do local da referida feira, uma rua virou destaque ficando conhecida por "Beco das Canas".
Para entendermos a intensidade da rota do Brumburum, o periódico da cidade A Razão, de 1923, nos dá uma mostra ao dizer que a "passagem constante de carros por ali tem contribuído poderosamente para o estrago do local" e destacando ainda que são tantos "buracos que já impedem o trânsito durante às noites".
Por causa do incerto calçamento, o Brumburum demandava a atenção de quem estivesse na condução de animal e mesmo daquele que andasse a pé. Antes apenas de chão puro a destacada ladeira, para evitar as crateras que se abriam nos tempos de chuva, muitas pedras foram deslocadas para ali. Tudo indica que elas vieram dos rios que banham a cidade e é possível que tenham sido postas nos finais dos 1800. É que o peso das rodas dos carros de bois entrecortavam muito as estradas e abriam espaço para buracos nas enxurradas. A mesma coisa se fez no caminho que levava ao Porto d'Areia. No início de 1900 o povo reclamava do lamaçal da ladeira do aludido porto, um dos lugares de grande acesso dos estancianos. Para dar um basta no antigo problema foram colocadas pedras. 
De fato o calçamento das muitas ladeiras ou ruas da cidade foram feitos se utilizando dos abundantes lajedos que tomam o leito do Piauí ou do Piauitinga. Partindo dessa mesma estratégia assim se procedeu com a grandiosa ladeira que tomava corpo logo em seguida a primeira Ponte da Cachoeira (ver Ponte da Cachoeira - um marco histórico abandonado). A ponte estanciana, a época a "melhor ponte da Província", uma soberba construção do século XIX ainda denominada "obra colossal", possuía, do lado da Rua Cachoeira, uma enorme ladeira que às vezes chegava a dificultar a subida de carros de bois vazios. Constantemente reclamada pelos donos de engenhos da vizinha Santa Luzia, que viam na ladeira um empecilho - pois precisavam transportar suas cargas com certa segurança - estes se colocaram à disposição da Província para o devido calçamento, prometendo usar as pedras do próprio rio. Uma comissão se fez tomando parte o dono do Engenho Castelo, J.J. Calasans Bitencourt, sendo os trabalhos realizados no ano de 1858. Porém, mesmo com as pedras fincadas depois de efetuado o rebaixamento a ladeira não deixou de ficar alta, não conseguindo os bois se manter firmes no trajeto, dado os altos e baixos dos enormes pedregulhos. Muitos condutores dos referidos carros costumavam chegar ao centro da cidade por uma estrada alternativa. Com a nova ponte a ladeira foi recortada sobrando a que hoje se vê. 
Eram encaradas de modo idêntico as dificuldades com os desníveis das pedras no Brumburum. Curiosamente Bumburum, a expressão mais usada para denominar a atual ladeira é o nome de uma comunidade quilombola de Laranjeiras. Vale destacar ainda que em São Cristóvão se pode ver uma via de acesso denominada Rua do Bumburum. Segundo o historiador cristovense Thiago Fragata também tem uma ladeira do Bumburum, na velha cidade. Num outro levantamento que fizemos descobrimos, na década de 1850, na ex-capital, uma capela denominada São Miguel do Brumburum, infelizmente desaparecida. Teria havido, em Sergipe, alguma motivação para o surgimento desse nome? Parece que sim.
Chamou-nos também a atenção ao vermos Burumburum ligado ao nome do pequeno riachinho supracitado. Ele aparece contido numa lei da Câmara Municipal de Estância dos meados de século XIX. Como o pequeno veio d'agua surgiu, evidentemente, antes da estrada, supomos ter a ladeira herdado o nome do riacho como acontecera com a rua Caminho do Rio, próxima a dita ladeira, que entendemos ser uma alusão ao vai e vem de pessoas destinadas a lavar roupas ou tomar banho no Piauitinga, o "rio gentil e enamorado", como disse em verso o poeta da cidade José Maria Gomes de Souza (1839-1894). 
No mandato da prefeita Núbia Macedo (1951-1954), as enormes pedras foram retiradas da ladeira, executando-se no seu governo o rebaixamento e calçamento. Enoque dos Santos, 73 anos, relembra que nos anos 1960 havia um famoso carnavalesco acostumado a caprichar nas pronúncias das palavras e que sempre se gabava ao dizer que sua "madrinha Núbia" foi quem calçou a "ladeira do Borumborum". Queria o divergente "intelectual" inaugurar uma sutil forma de denominar a memorável ladeira? Burumburum, eterna ladeira da estancianidade sergipana. 
* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância

* Acrísio Gonçalves de Oliveira

Conta-se que ainda nos anos 1940, ao pé da ladeira, havia uma passagem por dentro do citado riacho e próximo a ele - misturado a tantos outros matos e árvores - um frondoso jenipapeiro, cujos frutos alguns viajantes apanhavam para saciar um pouco a fome. Antes, porém, ao observarmos essa parte geográfica estanciana ela nos faz remeter ao que disse o cronista e jornalista João do Rio (1881-1921) ao refletir sobre as ruas do Rio de Janeiro. "A rua é a civilização da estrada. Onde morre o grande caminho começa a rua". A ladeira do Brumburum foi um dos grandes caminhos de Estância e talvez por isso fosse logo se conectar a importante Rua da Ópera. Uma rua que talvez tenha sido, com a sua Casa da Ópera, o palco onde o maestro Marcelo Santa Fé ensinou música a Tobias Barreto, o grande filósofo sergipano. Ainda nos dizeres do cronista tratava-se de uma rua viajada. Uma rua "com a visão de outros horizontes".
Assim, se justificava pelo Burumburum o trânsito constante de pessoas: tropeiros com todo tipo de mercadoria, carros de bois que conduziam cargas de açúcar dos engenhos para o Porto d'Areia ou deste para outras cidades; cargas de lenha para a queima nos fogões das casas e padarias ou mesmo carradas de cana costumeiramente vendidas na Praça Barão do Rio Branco, o ponto da feira local. Canas para serem consumidas como garapa ou como "roletes", estes sempre vendidos nas festas, nas portas dos cinemas, nas portas das igrejas, nas portas dos cabarés. Tantas eram as carradas que chegavam à cidade, que mais tarde, depois da mudança do local da referida feira, uma rua virou destaque ficando conhecida por "Beco das Canas".
Para entendermos a intensidade da rota do Brumburum, o periódico da cidade A Razão, de 1923, nos dá uma mostra ao dizer que a "passagem constante de carros por ali tem contribuído poderosamente para o estrago do local" e destacando ainda que são tantos "buracos que já impedem o trânsito durante às noites".
Por causa do incerto calçamento, o Brumburum demandava a atenção de quem estivesse na condução de animal e mesmo daquele que andasse a pé. Antes apenas de chão puro a destacada ladeira, para evitar as crateras que se abriam nos tempos de chuva, muitas pedras foram deslocadas para ali. Tudo indica que elas vieram dos rios que banham a cidade e é possível que tenham sido postas nos finais dos 1800. É que o peso das rodas dos carros de bois entrecortavam muito as estradas e abriam espaço para buracos nas enxurradas. A mesma coisa se fez no caminho que levava ao Porto d'Areia. No início de 1900 o povo reclamava do lamaçal da ladeira do aludido porto, um dos lugares de grande acesso dos estancianos. Para dar um basta no antigo problema foram colocadas pedras. 
De fato o calçamento das muitas ladeiras ou ruas da cidade foram feitos se utilizando dos abundantes lajedos que tomam o leito do Piauí ou do Piauitinga. Partindo dessa mesma estratégia assim se procedeu com a grandiosa ladeira que tomava corpo logo em seguida a primeira Ponte da Cachoeira (ver Ponte da Cachoeira - um marco histórico abandonado). A ponte estanciana, a época a "melhor ponte da Província", uma soberba construção do século XIX ainda denominada "obra colossal", possuía, do lado da Rua Cachoeira, uma enorme ladeira que às vezes chegava a dificultar a subida de carros de bois vazios. Constantemente reclamada pelos donos de engenhos da vizinha Santa Luzia, que viam na ladeira um empecilho - pois precisavam transportar suas cargas com certa segurança - estes se colocaram à disposição da Província para o devido calçamento, prometendo usar as pedras do próprio rio. Uma comissão se fez tomando parte o dono do Engenho Castelo, J.J. Calasans Bitencourt, sendo os trabalhos realizados no ano de 1858. Porém, mesmo com as pedras fincadas depois de efetuado o rebaixamento a ladeira não deixou de ficar alta, não conseguindo os bois se manter firmes no trajeto, dado os altos e baixos dos enormes pedregulhos. Muitos condutores dos referidos carros costumavam chegar ao centro da cidade por uma estrada alternativa. Com a nova ponte a ladeira foi recortada sobrando a que hoje se vê. 
Eram encaradas de modo idêntico as dificuldades com os desníveis das pedras no Brumburum. Curiosamente Bumburum, a expressão mais usada para denominar a atual ladeira é o nome de uma comunidade quilombola de Laranjeiras. Vale destacar ainda que em São Cristóvão se pode ver uma via de acesso denominada Rua do Bumburum. Segundo o historiador cristovense Thiago Fragata também tem uma ladeira do Bumburum, na velha cidade. Num outro levantamento que fizemos descobrimos, na década de 1850, na ex-capital, uma capela denominada São Miguel do Brumburum, infelizmente desaparecida. Teria havido, em Sergipe, alguma motivação para o surgimento desse nome? Parece que sim.
Chamou-nos também a atenção ao vermos Burumburum ligado ao nome do pequeno riachinho supracitado. Ele aparece contido numa lei da Câmara Municipal de Estância dos meados de século XIX. Como o pequeno veio d'agua surgiu, evidentemente, antes da estrada, supomos ter a ladeira herdado o nome do riacho como acontecera com a rua Caminho do Rio, próxima a dita ladeira, que entendemos ser uma alusão ao vai e vem de pessoas destinadas a lavar roupas ou tomar banho no Piauitinga, o "rio gentil e enamorado", como disse em verso o poeta da cidade José Maria Gomes de Souza (1839-1894). 
No mandato da prefeita Núbia Macedo (1951-1954), as enormes pedras foram retiradas da ladeira, executando-se no seu governo o rebaixamento e calçamento. Enoque dos Santos, 73 anos, relembra que nos anos 1960 havia um famoso carnavalesco acostumado a caprichar nas pronúncias das palavras e que sempre se gabava ao dizer que sua "madrinha Núbia" foi quem calçou a "ladeira do Borumborum". Queria o divergente "intelectual" inaugurar uma sutil forma de denominar a memorável ladeira? Burumburum, eterna ladeira da estancianidade sergipana. 

* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância