O perigo na esquina

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O diabo mostra o rabo
O diabo mostra o rabo

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Publicada em 06/10/2018 às 06:35:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Há dois anos, véspe
ra de eleições, Ele
nilton Pereira me chamou a sua sala e sugeriu a redação de um artigo sobre o apelo eleitoral de um poste. O texto nunca vingou. Não se escreve algo do gênero sem um monte de palavras presas na garganta. Hoje, no entanto, contra todas as previsões, há perigo na esquina, o diabo mostra o rabo.
O medo não é bom conselheiro, mas escreve como ninguém. Basta mencionar 'A peste', de Albert Camus. 'A náusea', obra maior de Sartre, transpira terror e impotência da primeira à última página. Mais recente, 'O ensaio sobre a cegueira', inspiração de um comunista anacrônico, José Saramago, segue na mesma toada. 'Nêmesis', o derradeiro livro de Philip Roth, gênio sem o Nobel, é um arrazoado derrotista sobre a paranóia. Quando o mundo paralisa, tomado de pavor, só a criação move.
Eu temo por mim mesmo e todos os amigos a quem ninguém enxerga. Somos - os pretos, os pobres, as putas, os bêbados, os maconheiros e os viados -, como o artista circense, ocupado com malabarismos nos cruzamentos mais movimentados da cidade. O sujeito desafia a gravidade, no intervalo do sinal fechado. Mas se não mendigar moedas, como todo operário da fome, impassível, ante as janelas fechadas dos carros, termina o dia sem um tostão furado. 
Triste de quem deposita a sua última esperança na matéria concreta de um poste. O clima é de agitação, de norte a sul do País. O povo tomou as ruas, munido com cartazes e palavras de ordem. Sem o impulso de uma ideia original, sem nome próprio, o poste permanece parado. A depender do poste, que não sonha, o sol nascer amanhã é pura questão de sorte.
Dedos cruzados, portanto. Os dados foram lançados. Entre a falta de imaginação e o mal maior, com pigarro e tudo, cuspido e escarrado, a aposta mais certa é dar tudo errado. 

Há dois anos, véspe ra de eleições, Ele nilton Pereira me chamou a sua sala e sugeriu a redação de um artigo sobre o apelo eleitoral de um poste. O texto nunca vingou. Não se escreve algo do gênero sem um monte de palavras presas na garganta. Hoje, no entanto, contra todas as previsões, há perigo na esquina, o diabo mostra o rabo.
O medo não é bom conselheiro, mas escreve como ninguém. Basta mencionar 'A peste', de Albert Camus. 'A náusea', obra maior de Sartre, transpira terror e impotência da primeira à última página. Mais recente, 'O ensaio sobre a cegueira', inspiração de um comunista anacrônico, José Saramago, segue na mesma toada. 'Nêmesis', o derradeiro livro de Philip Roth, gênio sem o Nobel, é um arrazoado derrotista sobre a paranóia. Quando o mundo paralisa, tomado de pavor, só a criação move.
Eu temo por mim mesmo e todos os amigos a quem ninguém enxerga. Somos - os pretos, os pobres, as putas, os bêbados, os maconheiros e os viados -, como o artista circense, ocupado com malabarismos nos cruzamentos mais movimentados da cidade. O sujeito desafia a gravidade, no intervalo do sinal fechado. Mas se não mendigar moedas, como todo operário da fome, impassível, ante as janelas fechadas dos carros, termina o dia sem um tostão furado. 
Triste de quem deposita a sua última esperança na matéria concreta de um poste. O clima é de agitação, de norte a sul do País. O povo tomou as ruas, munido com cartazes e palavras de ordem. Sem o impulso de uma ideia original, sem nome próprio, o poste permanece parado. A depender do poste, que não sonha, o sol nascer amanhã é pura questão de sorte.
Dedos cruzados, portanto. Os dados foram lançados. Entre a falta de imaginação e o mal maior, com pigarro e tudo, cuspido e escarrado, a aposta mais certa é dar tudo errado.