Música de Mulher Preta na televisão

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto
A moça canta como ninguém
A moça canta como ninguém

Clique nas imagens para ampliar

Publicada em 09/10/2018 às 06:33:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Os embates partidá
rios e eleitorais, as 
narrativas em conflito no Brasil do "golpe", redundaram na emergência de uma sensibilidade francamente fascista. Há alarme, mas também há medo genuíno, sobretudo entre os pretos e pobres, primeiros e únicos a arcar com as consequências das partidas jogadas a portas trancadas no primeiro escalão da República.
Mas se a guerra suja do poder parece perdida, no campo da cultura os progressistas ganham de lavada. De outro modo, a música de Bia Ferreira jamais seria veiculada em rede nacional de televisão, como ocorro hoje à noite, justamente em programa da vênus platinada.
Eu mesmo não conheço outro trabalho capaz de equacionar engajamento e valor musical de maneira tão feliz. 'Cota não é esmola', o maior hit da moça, capaz de impressionar gente como Caetano Veloso; 'Não precisa ser Amélia', de um feminismo cheio de melanina; 'Boto fé', um sopro de otimismo e boa vontade, comunicam um discurso de gênero e racial radical, muito autêntico, derivado da experiência, sem abrir mão do suingue. Aqui, o ritmo é didático, o balanço do corpo faz a cabeça de homem branco, privilegiado, pegar no tranco, areja o pensamento e ajuda a pensar. 
Bia Ferreira se diz sergipana, já andou pela orla de Atalaia, abordando as pessoas com um violão velho e o chapéu estendido. Certa vez, dei a sorte de ser surpreendido enquanto engolia um pedaço de tapioca. Mesmo assim, no susto, entoando repertório alheio, à cata de alguns trocados, ela conseguia impressionar com a força da voz sempre bem colocada. A moça canta como ninguém.
O primeiro turno das eleições presidenciais, concluído domingo, deixou um gosto amargo de derrota nos brasileiros avessos à polarização política. O clima é de rebordosa. Mas enquanto gente como Bia Ferreira tiver espaço para mandar o seu recado - Música de Mulher Preta, em sua própria definição -, apesar de todos os pesares, estaremos todos bem.

Os embates partidá rios e eleitorais, as  narrativas em conflito no Brasil do "golpe", redundaram na emergência de uma sensibilidade francamente fascista. Há alarme, mas também há medo genuíno, sobretudo entre os pretos e pobres, primeiros e únicos a arcar com as consequências das partidas jogadas a portas trancadas no primeiro escalão da República.
Mas se a guerra suja do poder parece perdida, no campo da cultura os progressistas ganham de lavada. De outro modo, a música de Bia Ferreira jamais seria veiculada em rede nacional de televisão, como ocorro hoje à noite, justamente em programa da vênus platinada.
Eu mesmo não conheço outro trabalho capaz de equacionar engajamento e valor musical de maneira tão feliz. 'Cota não é esmola', o maior hit da moça, capaz de impressionar gente como Caetano Veloso; 'Não precisa ser Amélia', de um feminismo cheio de melanina; 'Boto fé', um sopro de otimismo e boa vontade, comunicam um discurso de gênero e racial radical, muito autêntico, derivado da experiência, sem abrir mão do suingue. Aqui, o ritmo é didático, o balanço do corpo faz a cabeça de homem branco, privilegiado, pegar no tranco, areja o pensamento e ajuda a pensar. 
Bia Ferreira se diz sergipana, já andou pela orla de Atalaia, abordando as pessoas com um violão velho e o chapéu estendido. Certa vez, dei a sorte de ser surpreendido enquanto engolia um pedaço de tapioca. Mesmo assim, no susto, entoando repertório alheio, à cata de alguns trocados, ela conseguia impressionar com a força da voz sempre bem colocada. A moça canta como ninguém.
O primeiro turno das eleições presidenciais, concluído domingo, deixou um gosto amargo de derrota nos brasileiros avessos à polarização política. O clima é de rebordosa. Mas enquanto gente como Bia Ferreira tiver espaço para mandar o seu recado - Música de Mulher Preta, em sua própria definição -, apesar de todos os pesares, estaremos todos bem.