Memória e compromisso social

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Publicada em 09/10/2018 às 07:09:00

 

* Raymundo Mello
(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)
 
"Que a Democracia assegure a todos nós liberdade de expressão e de viver."
(Raymundo de Paiva Mello, 1933-2017)
Nesta edição de hoje trago para os caros 
leitores um texto integralmente redi
gido por meu pai, o 'Memorialista Raymundo Mello', publicado aqui no 'Jornal do Dia' na edição de 29/12/2015, sob o título "Pra nunca mais!".
Já estaria ele, há 3 anos, "prevendo" as 'oscilações democráticas' pelas quais passa o Brasil hoje e, assim, procurando alertar quanto aos perigos que certas ideologias representam? Prefiro ressaltar o compromisso social intrínseco às suas memórias. Que cada leitor tire suas próprias conclusões.
Assim escreveu Raymundo Mello:
"Final dos anos 50, início dos anos 60 (do século passado), exercendo as minhas funções públicas na 'Delegacia Regional do IPASE', recebo a visita de 'Agonalto Pacheco', assessorado pelos então nossos colegas JMM e WOR - visita, aliás, estendida a vários outros companheiros que, como eu, recebíamos a todos os que nos procuravam com boa vontade, sempre prontos a tentar resolver, se possível, o que estivesse pendente na repartição e fosse do interesse de cada um.
Éramos um grupo pequeno de funcionários, 'servidores públicos federais' e, como tal, sempre disponíveis aos que nos procuravam. Modéstia à parte, tínhamos prazer em atender, em ver os interessados bem acolhidos, mesmo que os seus problemas, quando existentes, fugissem ao nosso alcance. Mas aí, quem sabia orientava, encaminhava, para que os segurados fossem atendidos. Bons tempos!
Mas aquela visita que nos fazia Agonalto e os nossos colegas citados, tinha outro objetivo - eles estavam ali em nome da ASPES, 'Associação de Servidores Públicos do Estado de Sergipe', à época presidida pela nossa colega ZSM, chefe da Seção de Contabilidade da nossa Delegacia. E esse foi um argumento usado para nos convencer a atendê-los, e alguns, eu inclusive, aceitamos nos associar à ASPES, apesar de não sermos funcionários do Estado de Sergipe (éramos federais, como já disse): o simples fato de nossa colega presidir a associação. A taxa mensal (Cr$ 5,00) era quase inexpressiva, mas a carteirinha de sócio nos assegurava descontos em entradas de alguns cinemas e em festas (bailes, muito comuns nos clubes sergipanos) e algumas lojas comerciais. Sabíamos que eram ofertas supérfluas, mas interessantes. O que a ASPES queria, realmente, e conseguiu, foi aumentar o seu quadro social.
E o convite a mim feito por Agonalto teve algo especial: eu era irmão de João Mello, o cantor, e no dizer dele, um grande 'Companheiro', um 'camarada' de primeira, querido, respeitado e fiel. Não entendi os argumentos, à época, mas assinei a matrícula e até usei em bilheterias de cinemas os descontos que nos eram assegurados. Mas depois, eu entendi, inclusive quando Agonalto, anistiado, voltou para Sergipe e aqui nos encontrávamos, ele defendendo o MDB, até que o PCB (ou do B, não sei) foi reestruturado.
Agonalto ainda conviveu muito com meu irmão João Mello, que deixou nos arquivos do 'Videoteca Aperipê Memória' uma entrevista longa, em duas partes, onde Agonalto pôde dizer tudo o que devia e quis. É, na realidade, documento de um período que o Brasil não merecia, recomendado para estudantes e estudiosos.
Pois bem! A minha colega, senhora ZSM, Presidente da ASPES, por ser presidente da entidade, foi vítima da 'Revolução de 64', retirada da repartição em pleno expediente, sem mandato de prisão decretado, sem nada. Levou meses respondendo a processo, aqui em Aracaju e na Bahia. Não apuraram nada que pudesse atingi-la, mas sofreu a privação da liberdade enquanto as CGIs, por seus membros, assim quiseram. Depois de longos anos o seu processo foi concluído na Bahia, num tribunal militar. Ela, na parte final do processo me convidou a dar depoimento sobre seu trabalho, lá no citado tribunal militar. Não tive condições de atendê-la deslocando-me para Salvador, mas aceitei fazê-lo aqui em Aracaju. Parece que não serviu, pois nunca fui convocado.
Enquanto ela esteve detida por aqui, o seu salário era integralmente pago pela repartição e, como ela não se apresentava para receber o dito salário porque estava detida, o valor ficava pendente de pagamento e no prazo regulamentar era recolhido em 'Restos a pagar'. Juntaram-se alguns meses. Um certo dia foi autorizado que o Tesoureiro da Repartição fosse levar o dinheiro disponível dela, com os respectivos contracheques para ela assinar e receber os valores que lhe eram devidos. Aprontou-se tudo, dinheiro contado e recontado, envelopado mês-a-mês, e lá vou eu, carro da repartição e tudo, pasta recheada de dinheiro em espécie e 'memo de apresentação ao Comando do Batalhão', tudo mais formal que nunca.
E aí é que entra a parte delicada da história, para mim: fui fazer o pagamento acompanhado do Sargento Leite, em salão do primeiro andar do quartel, muitas janelas gradeadas e só uma porta funcionando, salão amplo e mobiliado, acho que com material de campanha, mas cada detido ou detida em ocupação individual. Alguns caminhando, lendo, escrevendo, conversando entre si. Uma elite de intelectuais. Em pé, diante da porta, Gervásio Careca, funcionário dos Correios, uma das figuras mais populares de Aracaju, vira-se para o meio da sala e grita bem forte: "Robério (Robério Garcia), olha, pegaram Mello!". Tremi nas bases! E aí, lá vem Robério, Zé Rosa, Luiz Rabelo Leite, Alberto Figueiredo e outros, braços abertos, me recepcionar. Mas todos compreenderam que eu ali estava por algum motivo especial. E o sargento, bem sério: "Ele não vai ficar hoje não. Estamos averiguando, quando a averiguação terminar, trazemos ele".
Virou-se para mim e perguntou: "Você é do grupo deles, é? Vermelhinho ou vermelhão?". E eu: "São todos meus amigos. Vamos quitar o salário de minha colega que eu quero ir embora". E o sargento: "Tá com medo?". Respondi-lhe: "Muito. Se fosse o senhor, não tinha não?".
Encerro (...) com a esperança de que a Democracia assegure a todos nós liberdade de expressão e de viver.
P.S. - JMM, WOR e ZSM são figuras reais, acredito que ainda vivas. Não quis nomeá-los sem autorização". 
* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br

* Raymundo Mello

(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)

 "Que a Democracia assegure a todos nós liberdade de expressão e de viver."(Raymundo de Paiva Mello, 1933-2017)
Nesta edição de hoje trago para os caros  leitores um texto integralmente redi gido por meu pai, o 'Memorialista Raymundo Mello', publicado aqui no 'Jornal do Dia' na edição de 29/12/2015, sob o título "Pra nunca mais!".
Já estaria ele, há 3 anos, "prevendo" as 'oscilações democráticas' pelas quais passa o Brasil hoje e, assim, procurando alertar quanto aos perigos que certas ideologias representam? Prefiro ressaltar o compromisso social intrínseco às suas memórias. Que cada leitor tire suas próprias conclusões.
Assim escreveu Raymundo Mello:
"Final dos anos 50, início dos anos 60 (do século passado), exercendo as minhas funções públicas na 'Delegacia Regional do IPASE', recebo a visita de 'Agonalto Pacheco', assessorado pelos então nossos colegas JMM e WOR - visita, aliás, estendida a vários outros companheiros que, como eu, recebíamos a todos os que nos procuravam com boa vontade, sempre prontos a tentar resolver, se possível, o que estivesse pendente na repartição e fosse do interesse de cada um.
Éramos um grupo pequeno de funcionários, 'servidores públicos federais' e, como tal, sempre disponíveis aos que nos procuravam. Modéstia à parte, tínhamos prazer em atender, em ver os interessados bem acolhidos, mesmo que os seus problemas, quando existentes, fugissem ao nosso alcance. Mas aí, quem sabia orientava, encaminhava, para que os segurados fossem atendidos. Bons tempos!
Mas aquela visita que nos fazia Agonalto e os nossos colegas citados, tinha outro objetivo - eles estavam ali em nome da ASPES, 'Associação de Servidores Públicos do Estado de Sergipe', à época presidida pela nossa colega ZSM, chefe da Seção de Contabilidade da nossa Delegacia. E esse foi um argumento usado para nos convencer a atendê-los, e alguns, eu inclusive, aceitamos nos associar à ASPES, apesar de não sermos funcionários do Estado de Sergipe (éramos federais, como já disse): o simples fato de nossa colega presidir a associação. A taxa mensal (Cr$ 5,00) era quase inexpressiva, mas a carteirinha de sócio nos assegurava descontos em entradas de alguns cinemas e em festas (bailes, muito comuns nos clubes sergipanos) e algumas lojas comerciais. Sabíamos que eram ofertas supérfluas, mas interessantes. O que a ASPES queria, realmente, e conseguiu, foi aumentar o seu quadro social.
E o convite a mim feito por Agonalto teve algo especial: eu era irmão de João Mello, o cantor, e no dizer dele, um grande 'Companheiro', um 'camarada' de primeira, querido, respeitado e fiel. Não entendi os argumentos, à época, mas assinei a matrícula e até usei em bilheterias de cinemas os descontos que nos eram assegurados. Mas depois, eu entendi, inclusive quando Agonalto, anistiado, voltou para Sergipe e aqui nos encontrávamos, ele defendendo o MDB, até que o PCB (ou do B, não sei) foi reestruturado.
Agonalto ainda conviveu muito com meu irmão João Mello, que deixou nos arquivos do 'Videoteca Aperipê Memória' uma entrevista longa, em duas partes, onde Agonalto pôde dizer tudo o que devia e quis. É, na realidade, documento de um período que o Brasil não merecia, recomendado para estudantes e estudiosos.
Pois bem! A minha colega, senhora ZSM, Presidente da ASPES, por ser presidente da entidade, foi vítima da 'Revolução de 64', retirada da repartição em pleno expediente, sem mandato de prisão decretado, sem nada. Levou meses respondendo a processo, aqui em Aracaju e na Bahia. Não apuraram nada que pudesse atingi-la, mas sofreu a privação da liberdade enquanto as CGIs, por seus membros, assim quiseram. Depois de longos anos o seu processo foi concluído na Bahia, num tribunal militar. Ela, na parte final do processo me convidou a dar depoimento sobre seu trabalho, lá no citado tribunal militar. Não tive condições de atendê-la deslocando-me para Salvador, mas aceitei fazê-lo aqui em Aracaju. Parece que não serviu, pois nunca fui convocado.
Enquanto ela esteve detida por aqui, o seu salário era integralmente pago pela repartição e, como ela não se apresentava para receber o dito salário porque estava detida, o valor ficava pendente de pagamento e no prazo regulamentar era recolhido em 'Restos a pagar'. Juntaram-se alguns meses. Um certo dia foi autorizado que o Tesoureiro da Repartição fosse levar o dinheiro disponível dela, com os respectivos contracheques para ela assinar e receber os valores que lhe eram devidos. Aprontou-se tudo, dinheiro contado e recontado, envelopado mês-a-mês, e lá vou eu, carro da repartição e tudo, pasta recheada de dinheiro em espécie e 'memo de apresentação ao Comando do Batalhão', tudo mais formal que nunca.
E aí é que entra a parte delicada da história, para mim: fui fazer o pagamento acompanhado do Sargento Leite, em salão do primeiro andar do quartel, muitas janelas gradeadas e só uma porta funcionando, salão amplo e mobiliado, acho que com material de campanha, mas cada detido ou detida em ocupação individual. Alguns caminhando, lendo, escrevendo, conversando entre si. Uma elite de intelectuais. Em pé, diante da porta, Gervásio Careca, funcionário dos Correios, uma das figuras mais populares de Aracaju, vira-se para o meio da sala e grita bem forte: "Robério (Robério Garcia), olha, pegaram Mello!". Tremi nas bases! E aí, lá vem Robério, Zé Rosa, Luiz Rabelo Leite, Alberto Figueiredo e outros, braços abertos, me recepcionar. Mas todos compreenderam que eu ali estava por algum motivo especial. E o sargento, bem sério: "Ele não vai ficar hoje não. Estamos averiguando, quando a averiguação terminar, trazemos ele".
Virou-se para mim e perguntou: "Você é do grupo deles, é? Vermelhinho ou vermelhão?". E eu: "São todos meus amigos. Vamos quitar o salário de minha colega que eu quero ir embora". E o sargento: "Tá com medo?". Respondi-lhe: "Muito. Se fosse o senhor, não tinha não?".
Encerro (...) com a esperança de que a Democracia assegure a todos nós liberdade de expressão e de viver.
P.S. - JMM, WOR e ZSM são figuras reais, acredito que ainda vivas. Não quis nomeá-los sem autorização". 

* Raymundo Mello é Memorialistaraymundopmello@yahoo.com.br