Na política, os contratados e os demitidos

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Publicada em 15/10/2018 às 10:30:00

 

*Rangel Alves da Costa
Assim como no procedimento empregatício de admissão e dispensa, na política também se verifica um procedimento semelhante: eleição para contratação e demissão, também para vínculo de experiência e de permanência. O último dia 07, após o término da apuração dos votos, muitos já foram definidos dentre as mais diversas situações. Ainda resta uma vaga, e esta disputada entre dois pleiteantes. Mas logo se saberá que tomará o caminho de casa.
Muitos destes, na ânsia de perpetuação no encastelamento do poder, negaram-se a aderir aos programas de demissão voluntária e foram atrás de novos vínculos. Contudo, com prontuários pouco recomendáveis, com ineficazes registros de rendimento, com fichas testemunhando arbitrariedades e omissões, além de já estarem totalmente alheios aos novos tempos de produtividade na política, acabaram sendo forçados a, envergonhados, abandonarem suas carreiras pelas portas do fundo.
Os novos tempos exigem o novo, como diria o porteiro do prédio. Mas os novos e encorajados, os novos cheios de ânimo e de ânsia por fazer, nem sempre possuem seu acesso garantido ao mercado da política. Muitas vezes, por causa da velha prática da poderosa mão que empurra ou da indicação a todo custo, alguns novos são como que jogados no exercício da vida política. Sem ao menos terem passado por contrato de experiência, vão logo assumindo funções como se já estivessem devidamente capacitados.
Neste último pleito eleitoral, o que se observou foi a sumária demissão de muita gente que até se achava dona de tudo. Achando-se donos do poder, concebendo-se como intocáveis e até invencíveis, ainda assim tiveram que amargar as escolhas implacáveis das urnas. Dando como certas as continuidades de vínculo político, geralmente subindo de uma hierarquia a outra ou almejando nova função, estes, como se diz, começaram a cair do cavalo logo no início da apuração. Onde foi que eu errei, o que eu fiz para ser assim tão negado nas urnas, foi exatamente isso que muito figurão silenciosamente se perguntou.
Perguntou a si mesmo por que quis, pois já sabia muito bem que o eleitor - aquele mesmo povo do setor de recursos humanos da política e que cuida do processo de admissão e demissão - já estava com sua sentença assinada, já estava com a carta de demissão debaixo do braço, e pronto para mostrá-lo com quantas moedas se dá um troco. Que não se brinque com o eleitor. Os exemplos estão ferindo e sangrando. E assim foi feito. Candidato escudado no poder, no dinheiro ou no prestígio do clã político, sendo simplesmente jogado à rua sem dó nem piedade.
Uma pena que a renovação na política não vem acompanhada da demissão imediata de todas as velhas raposas. Porém, se os novos quadros surgidos também se acostumarem ao nada fazer, ao envolvimento com falcatruas ou à ilusão que se tornaram imbatíveis, que o troco seja dado. Quem faz entrar pela porta da frente pode muito bem ensinar onde fica a porta dos fundos. E assim será necessário pelo fato de que os acreditados pelo eleitor devem sempre dar provas que mereceram suas escolhas. Não é se valendo no escudo do poder ou com as chaves da porteira do curral que os eleitos garantirão suas escolhas no próximo pleito.
Que garantam suas escolhas por terem dignificado a confiança que lhes foi dada, mas que também tenham a exata consciência da fragilidade do mandato eletivo. Quem é agora já não será nada amanhã. Quem já teve tudo, poderá amanhã esmolar uma cuia de votos e não conseguir um só grão. Os exemplos estão dados e bem dados. Já houve gestor que depois não foi eleito nem pra síndico. Já houve coronel dono do mundo que recebeu rasteira bem dada daqueles que acostumava manter sob a sola de suas botas. Bem feito. E assim deve ser.
Pelo Brasil inteiro houve uma renovação parlamentar sem igual. Novos nomes surgiram e antigos figurões da política tiveram que pegar a estrada. Perdeu poderoso no planalto, perdeu ex-ministro, perdeu ex-presidente, perderam muitos daqueles que jamais imaginaram serem tão fragorosamente alijados de mandatos. E estes, pelos infindáveis anos de corredores brasilienses e tão acostumados que estavam com os gabinetes, os mandos e as benesses de todos os tipos, agora se veem verdadeiramente no mato sem cachorro. Ou apenas com o passado para se contentar.
Em Sergipe não foi diferente. Arrastados por escudos paternos ou por grupos familiares poderosos, jovens foram eleitos e muito bem votados. Inexperientes na política, o que se espera é que a capacitação venha com o aprendizado e a humildade, e não pela arrogância espelhada no número de votos obtidos nem pelo painho que está ali ou acolá. Já outros, agora de lenços ainda às mãos e se sustentando em calmantes, que lancem o olhar à estrada do ontem, do passado, para saberem se realmente mereciam ser afastados do poder de forma tão humilhante.
*Rangel Alves da Costa é advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Assim como no procedimento empregatício de admissão e dispensa, na política também se verifica um procedimento semelhante: eleição para contratação e demissão, também para vínculo de experiência e de permanência. O último dia 07, após o término da apuração dos votos, muitos já foram definidos dentre as mais diversas situações. Ainda resta uma vaga, e esta disputada entre dois pleiteantes. Mas logo se saberá que tomará o caminho de casa.
Muitos destes, na ânsia de perpetuação no encastelamento do poder, negaram-se a aderir aos programas de demissão voluntária e foram atrás de novos vínculos. Contudo, com prontuários pouco recomendáveis, com ineficazes registros de rendimento, com fichas testemunhando arbitrariedades e omissões, além de já estarem totalmente alheios aos novos tempos de produtividade na política, acabaram sendo forçados a, envergonhados, abandonarem suas carreiras pelas portas do fundo.
Os novos tempos exigem o novo, como diria o porteiro do prédio. Mas os novos e encorajados, os novos cheios de ânimo e de ânsia por fazer, nem sempre possuem seu acesso garantido ao mercado da política. Muitas vezes, por causa da velha prática da poderosa mão que empurra ou da indicação a todo custo, alguns novos são como que jogados no exercício da vida política. Sem ao menos terem passado por contrato de experiência, vão logo assumindo funções como se já estivessem devidamente capacitados.
Neste último pleito eleitoral, o que se observou foi a sumária demissão de muita gente que até se achava dona de tudo. Achando-se donos do poder, concebendo-se como intocáveis e até invencíveis, ainda assim tiveram que amargar as escolhas implacáveis das urnas. Dando como certas as continuidades de vínculo político, geralmente subindo de uma hierarquia a outra ou almejando nova função, estes, como se diz, começaram a cair do cavalo logo no início da apuração. Onde foi que eu errei, o que eu fiz para ser assim tão negado nas urnas, foi exatamente isso que muito figurão silenciosamente se perguntou.
Perguntou a si mesmo por que quis, pois já sabia muito bem que o eleitor - aquele mesmo povo do setor de recursos humanos da política e que cuida do processo de admissão e demissão - já estava com sua sentença assinada, já estava com a carta de demissão debaixo do braço, e pronto para mostrá-lo com quantas moedas se dá um troco. Que não se brinque com o eleitor. Os exemplos estão ferindo e sangrando. E assim foi feito. Candidato escudado no poder, no dinheiro ou no prestígio do clã político, sendo simplesmente jogado à rua sem dó nem piedade.
Uma pena que a renovação na política não vem acompanhada da demissão imediata de todas as velhas raposas. Porém, se os novos quadros surgidos também se acostumarem ao nada fazer, ao envolvimento com falcatruas ou à ilusão que se tornaram imbatíveis, que o troco seja dado. Quem faz entrar pela porta da frente pode muito bem ensinar onde fica a porta dos fundos. E assim será necessário pelo fato de que os acreditados pelo eleitor devem sempre dar provas que mereceram suas escolhas. Não é se valendo no escudo do poder ou com as chaves da porteira do curral que os eleitos garantirão suas escolhas no próximo pleito.
Que garantam suas escolhas por terem dignificado a confiança que lhes foi dada, mas que também tenham a exata consciência da fragilidade do mandato eletivo. Quem é agora já não será nada amanhã. Quem já teve tudo, poderá amanhã esmolar uma cuia de votos e não conseguir um só grão. Os exemplos estão dados e bem dados. Já houve gestor que depois não foi eleito nem pra síndico. Já houve coronel dono do mundo que recebeu rasteira bem dada daqueles que acostumava manter sob a sola de suas botas. Bem feito. E assim deve ser.
Pelo Brasil inteiro houve uma renovação parlamentar sem igual. Novos nomes surgiram e antigos figurões da política tiveram que pegar a estrada. Perdeu poderoso no planalto, perdeu ex-ministro, perdeu ex-presidente, perderam muitos daqueles que jamais imaginaram serem tão fragorosamente alijados de mandatos. E estes, pelos infindáveis anos de corredores brasilienses e tão acostumados que estavam com os gabinetes, os mandos e as benesses de todos os tipos, agora se veem verdadeiramente no mato sem cachorro. Ou apenas com o passado para se contentar.
Em Sergipe não foi diferente. Arrastados por escudos paternos ou por grupos familiares poderosos, jovens foram eleitos e muito bem votados. Inexperientes na política, o que se espera é que a capacitação venha com o aprendizado e a humildade, e não pela arrogância espelhada no número de votos obtidos nem pelo painho que está ali ou acolá. Já outros, agora de lenços ainda às mãos e se sustentando em calmantes, que lancem o olhar à estrada do ontem, do passado, para saberem se realmente mereciam ser afastados do poder de forma tão humilhante.

*Rangel Alves da Costa é advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com