O Clube dos Vencidos

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Baudelaire: Sapatos furados e a fortuna dos próprios caminhos.
Baudelaire: Sapatos furados e a fortuna dos próprios caminhos.

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Publicada em 16/10/2018 às 07:41:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Há quinze anos, mais 
ou menos, o tempo 
era o nosso melhor amigo. Formávamos um grupo de estudantes com pouco dinheiro nos bolsos e nenhuma responsabilidade sobre as próprias costas. Reunimo-nos, a maioria, último fim de semana, sob o pretexto de um aniversário, acompanhados de mulheres e filhos. Nunca fizemos maior justiça ao Clube dos Vencidos.
Antes, a vida era simples. Livros, cervejas, partidas de xadrez, discussões inúteis e muita música nos ouvidos. Crescidos nos anos de Democracia, sem outra sombra de golpe, além das aulas enfadonhas de Moral e Cívica, jamais tivemos noção do perigo. Agora, não bastassem os primeiros fios de cabelos brancos, o medo é sentimento razoável, ninguém sabe nada do futuro.
O Clube dos Vencidos foi fundado, por assim dizer, em um impulso de ironia derrotista. Embriagados de juventude e fé na vida, nós resolvemos entregar a partida de mãos beijadas, por vontade de fazer graça, desertores de todas as lutas. O sucesso era objetivo vulgar. Os sapatos furados de Baudelaire, o nosso pastor, convidavam à poeira e a lama de outros caminhos.
Hoje, contra todas as previsões, sobrevivemos quase todos, contando mortos e feridos. Há, inclusive, quem tenha vencido na vida. Um dos amigos que pareciam mais perdidos, por exemplo, encontrou Deus depois de sofrer uma overdose. Evangélico, cortou os laços com os derrotados, deve ter jogado os discos de Raul Seixas no lixo. 
Sobreviver foi o nosso maior castigo. E não me refiro aqui ao romantismo superado pelas obrigações de adultos. Atenho-me, isso sim, ao horizonte fechado à vista. Jamais estivemos assim atentos e espantados com questões tão graves, de ordem política. Aproveitamos a negligência autorizada por um breve período de normalidade democrática sem a menor previdência, como crianças. Agora, homens feitos, tememos o dia de amanhã, com pânico do escuro.

Há quinze anos, mais  ou menos, o tempo  era o nosso melhor amigo. Formávamos um grupo de estudantes com pouco dinheiro nos bolsos e nenhuma responsabilidade sobre as próprias costas. Reunimo-nos, a maioria, último fim de semana, sob o pretexto de um aniversário, acompanhados de mulheres e filhos. Nunca fizemos maior justiça ao Clube dos Vencidos.
Antes, a vida era simples. Livros, cervejas, partidas de xadrez, discussões inúteis e muita música nos ouvidos. Crescidos nos anos de Democracia, sem outra sombra de golpe, além das aulas enfadonhas de Moral e Cívica, jamais tivemos noção do perigo. Agora, não bastassem os primeiros fios de cabelos brancos, o medo é sentimento razoável, ninguém sabe nada do futuro.
O Clube dos Vencidos foi fundado, por assim dizer, em um impulso de ironia derrotista. Embriagados de juventude e fé na vida, nós resolvemos entregar a partida de mãos beijadas, por vontade de fazer graça, desertores de todas as lutas. O sucesso era objetivo vulgar. Os sapatos furados de Baudelaire, o nosso pastor, convidavam à poeira e a lama de outros caminhos.
Hoje, contra todas as previsões, sobrevivemos quase todos, contando mortos e feridos. Há, inclusive, quem tenha vencido na vida. Um dos amigos que pareciam mais perdidos, por exemplo, encontrou Deus depois de sofrer uma overdose. Evangélico, cortou os laços com os derrotados, deve ter jogado os discos de Raul Seixas no lixo. 
Sobreviver foi o nosso maior castigo. E não me refiro aqui ao romantismo superado pelas obrigações de adultos. Atenho-me, isso sim, ao horizonte fechado à vista. Jamais estivemos assim atentos e espantados com questões tão graves, de ordem política. Aproveitamos a negligência autorizada por um breve período de normalidade democrática sem a menor previdência, como crianças. Agora, homens feitos, tememos o dia de amanhã, com pânico do escuro.