Palavra de ordem

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Publicada em 16/10/2018 às 08:21:00

 

* Raymundo Mello
(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)
 
Caros amigos leitores: hoje se completa 
um ciclo. Há 1 ano e meio venho "res
pondendo" por este artigo que meu pai, o 'Memorialista Raymundo Mello', publicou por mais de 25 anos nos mais diferentes meios de comunicação escrita, em Aracaju e em outros cantos do Brasil, e que aqui, no nosso 'Jornal do Dia', pela bondade do seu Editor Geral, jornalista Gilvan Manoel, tornou-se semanal, com implacável regularidade. 
A data não é precisa. No dia 11/04 do ano passado, inundado em emoção, consegui redigir o primeiro artigo desta série, pós "partida" dele para a casa do Pai (em 02/04). Título do artigo: "Memórias que ficaram" (edição n.º 4.124). Mas como o dia 11/10 passado - quando rigorosamente completaria 1 ano e meio - foi uma quinta-feira, preferi "comemorar" junto com vocês, generosos leitores que acompanham 'todas as terças' a publicação e que gastam o seu precioso tempo fazendo referências ao que aqui partilho nos programas radiofônicos de nossa cidade e manifestando suas opiniões através de telefonemas, e-mails e cartas que me dirigem, mantendo, assim, a tradição do vínculo articulista-leitor que sempre "alimentou" o gosto de meu pai pela publicação.
Para celebrar a data pedi a alguns amigos que, numa só palavra, me sugerissem o tema que gostariam de ver reflexionado nesta publicação comemorativa. Entre as sugestões, a palavra 'Paz' foi a que mais apareceu.
Então fui "garimpar" no acervo de meu pai alguma coisa sobre Paz. E eis que encontro, numa folha amarelecida pelo tempo, a mensagem do então 'Papa Paulo VI' por ocasião do 'XI Dia mundial da Paz', em 1.º/01/1978, no último ano do seu pontificado, que terminaria com a sua morte em 6 de agosto seguinte.
Uma feliz coincidência, já que 'Paulo VI foi canonizado no último domingo (14/10)' pelo Papa Francisco.
Não transcreverei o texto na íntegra. Poderão encontrá-lo no site do vaticano (w2.vatican.va). Recomendo a leitura. Apesar de escrita há 40 anos, é atualíssima. O inteligente papa parecia estar-nos dirigindo a mensagem hoje, no século XXI.
Registro, do texto, apenas as 'frases sublinhadas' por meu pai, transcrevendo-as em adaptação livre. Foi certamente o que mais lhe chamou a atenção. Que nos sejam igualmente úteis neste momento da história em que tanto estamos precisando refletir sobre a Paz...
Obrigado a todos pelo carinho!
Vamos ao texto:
"A Paz é possível! Não é um sonho puramente ideal, não é uma utopia atraente, porém infecunda e inacessível; é, sim, e deve ser, uma realidade. É uma fortaleza inteligente e viva.
Por isso, suplicamos a todos os homens de boa vontade, às pessoas responsáveis pela conduta coletiva da vida social, aos políticos, aos pensadores, aos publicistas, aos artistas, aos inspiradores da opinião pública, aos mestres das escolas, da arte e da oração, e depois, aos grandes ideadores e operadores do mercado mundial de armas, a todos, que retomem com generosa honestidade a reflexão sobre a Paz no mundo, hoje!
A consciência do mundo sente-se horrorizada pela hipótese de que a nossa Paz mais não seja do que uma trégua e de que uma incomensurável conflagração possa ser fulmineamente desencadeada. A violência não é fortaleza. Ela é, sim, a explosão de uma energia cega, que degrada o homem que a ela se entrega, rebaixando-o do plano racional para o nível passional.
E quanto ao aspecto da violência erigida em sistema "para ajustamento de contas", não recorre, ela, acaso, a formas sórdidas de ódio, de rancor e de inimizade que constituem um perigo para a convivência e que desclassificam a comunidade, na qual a mesma violência vai decompondo os próprios sentimentos de humanidade, que formam o tecido primário e indispensável de qualquer sociedade?
A violência é anti-social pelos próprios métodos que lhe permitem organizar-se com uma cumplicidade de grupo. É caso para recordar, talvez, a frase lapidar de Cristo contra o recurso ao uso impulsivo de uma espada vingadora: "Todos quantos se servirem de espada, à espada morrerão" (Mt 26,52). Recordemos, portanto: a violência não é fortaleza. Ela não exalta, mas rebaixa o homem que a ela faz recurso.
Entretanto, não podemos fechar os olhos perante a triste realidade da guerra parcial, quer pela razão de ela manter a sua feroz presença em zonas particulares, quer pelo motivo de, psicologicamente, ela não estar de fato excluída nas sombrias hipóteses da história contemporânea. O nosso amor à Paz tem de permanecer de sobreaviso.
Queremos considerar a causa da Paz espelhada na causa da própria vida humana. O nosso "sim" à Paz, estende-se a um "sim" à vida. A Paz deve afirmar-se não somente nos campos de batalha, mas também onde quer que se desenrole a existência do homem. Há, ou melhor, tem de haver também uma Paz que defenda esta existência, não apenas das ameaças das armas bélicas, mas uma Paz que, para além disso, proteja a vida enquanto tal, contra todo e qualquer perigo, contra todos os danos e contra todas as insídias.
Esperamos poder defender a vida humana naquelas singulares contingências em que a mesma vida pode vir a achar-se comprometida, por um positivo e iníquo propósito da vontade humana. A vida do homem, desde o seu primeiro acender-se para a existência, é sagrada. A lei do "não matarás" tutela este inefável prodígio da vida humana com transcendente soberania.
A Paz tem neste campo da vida que nasce o seu primeiro escudo de proteção; um escudo, aliás, munido de delicados resguardos, mas escudo de defesa e de amor.
Não podemos, por isso mesmo, senão desaprovar toda e qualquer ofensa contra a vida que nasce, e não podemos senão suplicar a todas as autoridades e a todas as entidades competentes que ajam para que ao aborto voluntário seja feita proibição. O seio materno e o berço da infância são as primeiras barreiras que não apenas defendem com a vida a Paz, mas também a constroem (cfr. Sl 126,3,ss). Quem escolhe, em oposição à guerra e à violência, a Paz, escolhe por isso mesmo a vida, escolhe o homem com as suas exigências profundas e essenciais.
Devo acrescentar ainda uma observação para todas as crianças e jovens, que, defronte à violência, são o setor mais vulnerável da sociedade, mas, ao mesmo tempo, a esperança de um amanhã melhor.
Não falamos em nosso nome somente, mas falamos sim em nome de Cristo, que é "o Príncipe de Paz" no mundo (cfr. Is 9,6) e que disse: "Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus" (Mt 5,9). Cremos que sem a orientação e sem a ajuda de Cristo, a Paz verdadeira, estável e universal não é possível. E cremos também que a Paz de Cristo não enfraquece os homens, não os torna gente medrosa e vítima das prepotências dos outros, mas antes os faz capazes de lutar pela justiça e de solucionar muitas questões com a generosidade, ou melhor, com o talento do amor.
Vós, crianças e jovens, com frequência sois levados a brigar uns com os outros. Lembrai-vos bem: é uma vaidade nociva o querer parecer fortes contra os outros irmãos e companheiros, com a rixa, com as pancadas, com a ira e com a vingança. Todos fazem assim, respondereis vós. E está mal, dizemo-vos; se quereis ser fortes, sede-o com a coragem, com o vosso porte digno; procurai saber dominar-vos; e procurai saber também perdoar e voltar rapidamente a ser amigos daqueles que vos ofenderam: assim estareis a ser verdadeiramente cristãos.
Não odieis ninguém. Não sejais orgulhosos em relação aos outros coetâneos e às pessoas de diversa condição social. Não ajais por interesse egoísta ou por despeito e nunca por vingança.
Nós pensamos que vós, crianças e jovens, tornando-vos grandes, deveis mudar a maneira de pensar e de agir do mundo de hoje, o qual está sempre pronto para se distinguir, para se separar dos outros e para os combater: não somos nós todos irmãos? Não somos todos membros da mesma família humana? E não estão todas as nações obrigadas a darem-se bem umas com as outras e a criarem a Paz?
Vós, crianças e jovens do tempo novo, deveis habituar-vos a amar a todos e a procurar dar à sociedade o aspecto de uma comunidade melhor, mais honesta e mais solidária. Quereis na verdade ser homens, e não lobos? Quereis na verdade ter o merecimento e a alegria de fazer bem, de ajudar quem tem precisão, de procurar realizar alguma boa obra, com o prêmio apenas da consciência? Pois bem, recordai-vos das palavras ditas por Jesus durante a última ceia, na noite antes da sua paixão. Ele disse assim: "Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros... E nisto precisamente todos reconhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros" (Jo 13,34-35). É este o sinal da nossa autenticidade, humana e cristã, querer-nos bem uns aos outros.
Crianças e jovens, nós vos saudamos e abençoamos a todos. Palavra de ordem: Não à violência; sim à Paz!".
* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br

* Raymundo Mello

(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)

Caros amigos leitores: hoje se completa  um ciclo. Há 1 ano e meio venho "res pondendo" por este artigo que meu pai, o 'Memorialista Raymundo Mello', publicou por mais de 25 anos nos mais diferentes meios de comunicação escrita, em Aracaju e em outros cantos do Brasil, e que aqui, no nosso 'Jornal do Dia', pela bondade do seu Editor Geral, jornalista Gilvan Manoel, tornou-se semanal, com implacável regularidade. 
A data não é precisa. No dia 11/04 do ano passado, inundado em emoção, consegui redigir o primeiro artigo desta série, pós "partida" dele para a casa do Pai (em 02/04). Título do artigo: "Memórias que ficaram" (edição n.º 4.124). Mas como o dia 11/10 passado - quando rigorosamente completaria 1 ano e meio - foi uma quinta-feira, preferi "comemorar" junto com vocês, generosos leitores que acompanham 'todas as terças' a publicação e que gastam o seu precioso tempo fazendo referências ao que aqui partilho nos programas radiofônicos de nossa cidade e manifestando suas opiniões através de telefonemas, e-mails e cartas que me dirigem, mantendo, assim, a tradição do vínculo articulista-leitor que sempre "alimentou" o gosto de meu pai pela publicação.
Para celebrar a data pedi a alguns amigos que, numa só palavra, me sugerissem o tema que gostariam de ver reflexionado nesta publicação comemorativa. Entre as sugestões, a palavra 'Paz' foi a que mais apareceu.
Então fui "garimpar" no acervo de meu pai alguma coisa sobre Paz. E eis que encontro, numa folha amarelecida pelo tempo, a mensagem do então 'Papa Paulo VI' por ocasião do 'XI Dia mundial da Paz', em 1.º/01/1978, no último ano do seu pontificado, que terminaria com a sua morte em 6 de agosto seguinte.
Uma feliz coincidência, já que 'Paulo VI foi canonizado no último domingo (14/10)' pelo Papa Francisco.
Não transcreverei o texto na íntegra. Poderão encontrá-lo no site do vaticano (w2.vatican.va). Recomendo a leitura. Apesar de escrita há 40 anos, é atualíssima. O inteligente papa parecia estar-nos dirigindo a mensagem hoje, no século XXI.
Registro, do texto, apenas as 'frases sublinhadas' por meu pai, transcrevendo-as em adaptação livre. Foi certamente o que mais lhe chamou a atenção. Que nos sejam igualmente úteis neste momento da história em que tanto estamos precisando refletir sobre a Paz...
Obrigado a todos pelo carinho!
Vamos ao texto:
"A Paz é possível! Não é um sonho puramente ideal, não é uma utopia atraente, porém infecunda e inacessível; é, sim, e deve ser, uma realidade. É uma fortaleza inteligente e viva.
Por isso, suplicamos a todos os homens de boa vontade, às pessoas responsáveis pela conduta coletiva da vida social, aos políticos, aos pensadores, aos publicistas, aos artistas, aos inspiradores da opinião pública, aos mestres das escolas, da arte e da oração, e depois, aos grandes ideadores e operadores do mercado mundial de armas, a todos, que retomem com generosa honestidade a reflexão sobre a Paz no mundo, hoje!
A consciência do mundo sente-se horrorizada pela hipótese de que a nossa Paz mais não seja do que uma trégua e de que uma incomensurável conflagração possa ser fulmineamente desencadeada. A violência não é fortaleza. Ela é, sim, a explosão de uma energia cega, que degrada o homem que a ela se entrega, rebaixando-o do plano racional para o nível passional.
E quanto ao aspecto da violência erigida em sistema "para ajustamento de contas", não recorre, ela, acaso, a formas sórdidas de ódio, de rancor e de inimizade que constituem um perigo para a convivência e que desclassificam a comunidade, na qual a mesma violência vai decompondo os próprios sentimentos de humanidade, que formam o tecido primário e indispensável de qualquer sociedade?
A violência é anti-social pelos próprios métodos que lhe permitem organizar-se com uma cumplicidade de grupo. É caso para recordar, talvez, a frase lapidar de Cristo contra o recurso ao uso impulsivo de uma espada vingadora: "Todos quantos se servirem de espada, à espada morrerão" (Mt 26,52). Recordemos, portanto: a violência não é fortaleza. Ela não exalta, mas rebaixa o homem que a ela faz recurso.
Entretanto, não podemos fechar os olhos perante a triste realidade da guerra parcial, quer pela razão de ela manter a sua feroz presença em zonas particulares, quer pelo motivo de, psicologicamente, ela não estar de fato excluída nas sombrias hipóteses da história contemporânea. O nosso amor à Paz tem de permanecer de sobreaviso.
Queremos considerar a causa da Paz espelhada na causa da própria vida humana. O nosso "sim" à Paz, estende-se a um "sim" à vida. A Paz deve afirmar-se não somente nos campos de batalha, mas também onde quer que se desenrole a existência do homem. Há, ou melhor, tem de haver também uma Paz que defenda esta existência, não apenas das ameaças das armas bélicas, mas uma Paz que, para além disso, proteja a vida enquanto tal, contra todo e qualquer perigo, contra todos os danos e contra todas as insídias.
Esperamos poder defender a vida humana naquelas singulares contingências em que a mesma vida pode vir a achar-se comprometida, por um positivo e iníquo propósito da vontade humana. A vida do homem, desde o seu primeiro acender-se para a existência, é sagrada. A lei do "não matarás" tutela este inefável prodígio da vida humana com transcendente soberania.
A Paz tem neste campo da vida que nasce o seu primeiro escudo de proteção; um escudo, aliás, munido de delicados resguardos, mas escudo de defesa e de amor.
Não podemos, por isso mesmo, senão desaprovar toda e qualquer ofensa contra a vida que nasce, e não podemos senão suplicar a todas as autoridades e a todas as entidades competentes que ajam para que ao aborto voluntário seja feita proibição. O seio materno e o berço da infância são as primeiras barreiras que não apenas defendem com a vida a Paz, mas também a constroem (cfr. Sl 126,3,ss). Quem escolhe, em oposição à guerra e à violência, a Paz, escolhe por isso mesmo a vida, escolhe o homem com as suas exigências profundas e essenciais.
Devo acrescentar ainda uma observação para todas as crianças e jovens, que, defronte à violência, são o setor mais vulnerável da sociedade, mas, ao mesmo tempo, a esperança de um amanhã melhor.
Não falamos em nosso nome somente, mas falamos sim em nome de Cristo, que é "o Príncipe de Paz" no mundo (cfr. Is 9,6) e que disse: "Bem-aventurados os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus" (Mt 5,9). Cremos que sem a orientação e sem a ajuda de Cristo, a Paz verdadeira, estável e universal não é possível. E cremos também que a Paz de Cristo não enfraquece os homens, não os torna gente medrosa e vítima das prepotências dos outros, mas antes os faz capazes de lutar pela justiça e de solucionar muitas questões com a generosidade, ou melhor, com o talento do amor.
Vós, crianças e jovens, com frequência sois levados a brigar uns com os outros. Lembrai-vos bem: é uma vaidade nociva o querer parecer fortes contra os outros irmãos e companheiros, com a rixa, com as pancadas, com a ira e com a vingança. Todos fazem assim, respondereis vós. E está mal, dizemo-vos; se quereis ser fortes, sede-o com a coragem, com o vosso porte digno; procurai saber dominar-vos; e procurai saber também perdoar e voltar rapidamente a ser amigos daqueles que vos ofenderam: assim estareis a ser verdadeiramente cristãos.
Não odieis ninguém. Não sejais orgulhosos em relação aos outros coetâneos e às pessoas de diversa condição social. Não ajais por interesse egoísta ou por despeito e nunca por vingança.
Nós pensamos que vós, crianças e jovens, tornando-vos grandes, deveis mudar a maneira de pensar e de agir do mundo de hoje, o qual está sempre pronto para se distinguir, para se separar dos outros e para os combater: não somos nós todos irmãos? Não somos todos membros da mesma família humana? E não estão todas as nações obrigadas a darem-se bem umas com as outras e a criarem a Paz?
Vós, crianças e jovens do tempo novo, deveis habituar-vos a amar a todos e a procurar dar à sociedade o aspecto de uma comunidade melhor, mais honesta e mais solidária. Quereis na verdade ser homens, e não lobos? Quereis na verdade ter o merecimento e a alegria de fazer bem, de ajudar quem tem precisão, de procurar realizar alguma boa obra, com o prêmio apenas da consciência? Pois bem, recordai-vos das palavras ditas por Jesus durante a última ceia, na noite antes da sua paixão. Ele disse assim: "Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros... E nisto precisamente todos reconhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros" (Jo 13,34-35). É este o sinal da nossa autenticidade, humana e cristã, querer-nos bem uns aos outros.
Crianças e jovens, nós vos saudamos e abençoamos a todos. Palavra de ordem: Não à violência; sim à Paz!".

* Raymundo Mello é Memorialistaraymundopmello@yahoo.com.br