Fake News contra a democracia

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Publicada em 16/10/2018 às 08:22:00

 

Imaginem vocês que, num quadro de violência generalizada e de atos criminosos explodindo em todas as regiões do país, o candidato, no afã de conquistar uma meia dúzia de infratores, protesta contra a apreensão de motos pelo poder público e - ainda mais patético - contra a cobrança para a necessária regularização dos veículos
* Luciano Correia
Embora até então não tenha publicado nada a respeito, comento sempre, em conversas, que o senador Valadares, derrotado na tentativa de reeleição, é um dos pioneiros no uso das fake news em Sergipe.  Ser pioneiro de tamanha desgraça é um demérito, evidentemente, além do que o uso e abuso dessa prática que ganhou nome em inglês, longe de quaisquer vínculos com a modernidade, é um antigo e péssimo costume, associado à fofoca, à mentira, à leviandade e à dissimulação. Ou seja, não há nenhum verniz de novidade num velho político que usa o Twitter para distorcer fatos objetivos ou criar narrativas falaciosas a partir dos próprios interesses. A política, mesmo ela, não é um oceano de subjetividade, no qual verdades e mentiras navegam ao sabor do dono da palavra.
A menção ao político aposentado pelo povo em 7 de outubro é porque hoje mesmo a campanha de seu filho, que funciona à sua imagem e semelhança, afirma que seu governo - se eleito fosse - não faria perseguição aos sertanejos do estado. A manchete, por si, já denuncia a primeira fraude: à qual perseguição se refere o jovem velho candidato do PSB ao governo? Alguém aí tem notícia de alguma perversidade praticada contra algum contingente da população, especificamente moradores da região do sertão? Para fazer tal afirmação, a fábrica de fake news mobilizada pelo inspirador do marketing pessebista teria que, pelo menos, dar conta de uma série de aberrações e injustiças cometidas. Mas não o faz, porque, como se sabe, rigorosamente, elas não existem.
Passando da manchete ao texto da não-notícia divulgada por esse espécie de (aí, sim) marketing do mal, chegamos na pior parte. Imaginem vocês que, num quadro de violência generalizada e de atos criminosos explodindo em todas as regiões do país, o candidato, no afã de conquistar uma meia dúzia de infratores, protesta contra a apreensão de motos pelo poder público e - ainda mais patético - contra a cobrança para a necessária regularização dos veículos. Definitivamente invertemos todas as lógicas, o errado no lugar do certo. Aquilo que os tempos atuais já não permitem, graças à eficácia dos poderes públicos e seus órgãos fiscalizadores, virou programa de campanha de um candidato que se define como "novidade" e "mudança". A novidade seria o desprezo público, anunciado em matéria jornalística, pela prevalência do império da lei?
Para comprovar as afirmações feitas aqui, mais um fato revelador da prática do embuste como forma de distorcer os fatos e auferir vantagens eleitorais. Me refiro à divulgação de um lamentável episódio vivido pelo candidato Belivaldo Chagas na TV Atalaia, quando foi instado de forma grosseira e desrespeitosa, ainda fora do ar, pelo apresentador do telejornal Balanço Geral.  Aqui, atentem bem, não se está discutindo o direito de exercer o jornalismo e a opinião. Muito pelo contrário, o que se verificou foi o abandono completo dos protocolos do jornalismo, ferramenta e conquista da sociedade justamente para promover o esclarecimento (herança do Iluminismo). Se alguém atentou contra o jornalismo e a liberdade de expressão neste caso foi o profissional encarregado de defendê-la, ao promover a espetacularização de uma notícia e a submissão do governador-candidato a uma abordagem inquisitória. Seja o entrevistado o governador ou o mais humilde dos cidadãos, merecem o respeito de quem entrevista, sem adjetivações.
Novamente, partidários do candidato Valadares Filho deixaram de lado quaisquer escrúpulos e, em nova forçação de barra, viralizaram nas redes trechos da gravação do episódio, buscando criar novo contexto para o que, a rigor, foi uma injustiça perpetrada contra Belivaldo - o próprio apresentador implora literalmente o perdão de seu interlocutor. Claro que há aí alguns mistérios não esclarecidos, como a gravação do áspero diálogo, mesmo durante o intervalo do programa e, o mais grave, seu vazamento. Mas essa já é outra história. Nos contentemos (mesmo?) , por ora, com a fabricação dos fake news e seus estragos na democracia.
* Luciano Correia é jornalista

Imaginem vocês que, num quadro de violência generalizada e de atos criminosos explodindo em todas as regiões do país, o candidato, no afã de conquistar uma meia dúzia de infratores, protesta contra a apreensão de motos pelo poder público e - ainda mais patético - contra a cobrança para a necessária regularização dos veículos

* Luciano Correia

Embora até então não tenha publicado nada a respeito, comento sempre, em conversas, que o senador Valadares, derrotado na tentativa de reeleição, é um dos pioneiros no uso das fake news em Sergipe.  Ser pioneiro de tamanha desgraça é um demérito, evidentemente, além do que o uso e abuso dessa prática que ganhou nome em inglês, longe de quaisquer vínculos com a modernidade, é um antigo e péssimo costume, associado à fofoca, à mentira, à leviandade e à dissimulação. Ou seja, não há nenhum verniz de novidade num velho político que usa o Twitter para distorcer fatos objetivos ou criar narrativas falaciosas a partir dos próprios interesses. A política, mesmo ela, não é um oceano de subjetividade, no qual verdades e mentiras navegam ao sabor do dono da palavra.
A menção ao político aposentado pelo povo em 7 de outubro é porque hoje mesmo a campanha de seu filho, que funciona à sua imagem e semelhança, afirma que seu governo - se eleito fosse - não faria perseguição aos sertanejos do estado. A manchete, por si, já denuncia a primeira fraude: à qual perseguição se refere o jovem velho candidato do PSB ao governo? Alguém aí tem notícia de alguma perversidade praticada contra algum contingente da população, especificamente moradores da região do sertão? Para fazer tal afirmação, a fábrica de fake news mobilizada pelo inspirador do marketing pessebista teria que, pelo menos, dar conta de uma série de aberrações e injustiças cometidas. Mas não o faz, porque, como se sabe, rigorosamente, elas não existem.
Passando da manchete ao texto da não-notícia divulgada por esse espécie de (aí, sim) marketing do mal, chegamos na pior parte. Imaginem vocês que, num quadro de violência generalizada e de atos criminosos explodindo em todas as regiões do país, o candidato, no afã de conquistar uma meia dúzia de infratores, protesta contra a apreensão de motos pelo poder público e - ainda mais patético - contra a cobrança para a necessária regularização dos veículos. Definitivamente invertemos todas as lógicas, o errado no lugar do certo. Aquilo que os tempos atuais já não permitem, graças à eficácia dos poderes públicos e seus órgãos fiscalizadores, virou programa de campanha de um candidato que se define como "novidade" e "mudança". A novidade seria o desprezo público, anunciado em matéria jornalística, pela prevalência do império da lei?
Para comprovar as afirmações feitas aqui, mais um fato revelador da prática do embuste como forma de distorcer os fatos e auferir vantagens eleitorais. Me refiro à divulgação de um lamentável episódio vivido pelo candidato Belivaldo Chagas na TV Atalaia, quando foi instado de forma grosseira e desrespeitosa, ainda fora do ar, pelo apresentador do telejornal Balanço Geral.  Aqui, atentem bem, não se está discutindo o direito de exercer o jornalismo e a opinião. Muito pelo contrário, o que se verificou foi o abandono completo dos protocolos do jornalismo, ferramenta e conquista da sociedade justamente para promover o esclarecimento (herança do Iluminismo). Se alguém atentou contra o jornalismo e a liberdade de expressão neste caso foi o profissional encarregado de defendê-la, ao promover a espetacularização de uma notícia e a submissão do governador-candidato a uma abordagem inquisitória. Seja o entrevistado o governador ou o mais humilde dos cidadãos, merecem o respeito de quem entrevista, sem adjetivações.
Novamente, partidários do candidato Valadares Filho deixaram de lado quaisquer escrúpulos e, em nova forçação de barra, viralizaram nas redes trechos da gravação do episódio, buscando criar novo contexto para o que, a rigor, foi uma injustiça perpetrada contra Belivaldo - o próprio apresentador implora literalmente o perdão de seu interlocutor. Claro que há aí alguns mistérios não esclarecidos, como a gravação do áspero diálogo, mesmo durante o intervalo do programa e, o mais grave, seu vazamento. Mas essa já é outra história. Nos contentemos (mesmo?) , por ora, com a fabricação dos fake news e seus estragos na democracia.

* Luciano Correia é jornalista