O primeiro turno em três tempos

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Publicada em 19/10/2018 às 07:18:00

 

* Marcos Coimbra 
Três eventos marcaram a primeira fase da campanha presidencial. Na sequência, avalio cada um:
1. A facada - Em 6 de setembro, Jair Bolsonaro sofreu a facada durante evento de campanha e saiu gravemente ferido, ao que parece. A primeira reação de seu staff foi demonstrar receio de que o ferimento prejudicasse a imagem de força física cultivada pelo candidato.
Correram para afirmar que não havia sido nada, que o candidato era "forte como um cavalo", nas palavras de um dos filhos.
Era uma avaliação equivocada: em vez de debilitar a candidatura, fortaleceu-a. A ponto de ser correto dizer que o agressor mirou Bolsonaro e matou Geraldo Alckmin, que pretendia disputar com o primeiro o voto reacionário. Por motivos que algum dia entenderemos, o eleitorado de direita deixou de lado a vergonha de votar no ex-capitão e isolou-o como única opção.
Como bônus, a facada desobrigou Bolsonaro de se expor aos debates e lhe oferece um álibi para evitar alguns (todos?) no segundo turno.
2. Ascensão de Haddad - Uma semana depois da facada, Lula acabou impedido de ser candidato e indicou Fernando Haddad como titular e Manuela D'Ávila como vice. Haddad começou a crescer nas pesquisas na manhã seguinte, dali em diante e diariamente, como se esperava.
Pouco mais de uma semana havia se passado quando "um matemático da USP", a pedido de um ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso, calculou em 99,4% a chance de ele vencer a eleição, o que configura uma certeza estatística.
Tratava-se de uma conta sem pé nem cabeça, como os acontecimentos subsequentes mostraram, mas simbolizava a percepção do favoritismo de Haddad aos olhos de quem, provavelmente, não o desejava vitorioso.
Esse prognóstico pôs em campo todos os adversários de Lula e do PT, que arregaçaram as mangas para impedir que se concretizasse. O juiz Sergio Moro requentou as confissões de Antonio Palocci e o Ministério Público Federal entendeu ser uma boa hora para formalizar uma nova denúncia contra o ex-presidente.
O mercado financeiro sinalizou freneticamente que não queria o PT de volta, com o dólar em alta e a Bolsa em queda. A mídia antipetista correu a buscar velhas reportagens acusando Haddad de irregularidades há muito esclarecidas. Alckmin dirigiu suas baterias na propaganda eleitoral, inúteis para construir, mas válidas para destruir, contra ele.
Ninguém vai sem custos de candidato hipotético a favorito em dez dias. Nem bem fora apresentado à maioria do País, Haddad transformou-se em alvo de um vasto conjunto de interesses. Sua imagem, que começava a ser construída, sofreu.
No mínimo, os bem-educados referiam-se a ele como o "poste de Lula". Os mal-educados foram muito além.
O pior, no entanto, estava por vir.
3. O ciberataque - O ataque mais danoso contra Haddad partiu da campanha de Bolsonaro, de onde mais seria de esperar que viesse. Poucos acreditavam, no entanto, que ela tivesse a capacidade e a competência para desfechá-lo na intensidade com que ocorreu.
Não foi a primeira vez que a turma em torno de Bolsonaro executou um ataque desse tipo. Quem não se lembra da reta final da eleição de 2010, quando o mesmo amálgama de radicais de direita, pastores neopentecostais ultraconservadores e capitalistas freneticamente antipetistas resolveram interferir na eleição pela internet, derrubando a votação de Dilma, inflando aquela de Marina Silva e levando a eleição para o segundo turno?
Aquilo que, há oito anos, foi chamado de "onda", tornou-se um tsunami logo depois de Haddad assumir o favoritismo, com a sociedade mais conectada, com mais de 80% dos eleitores dispondo de smartphones e mais know-how para lançar esses ataques. Que o diga Donald Trump, eleito dessa maneira.
Os estrategistas e financiadores de Bolsonaro encontraram um pretexto para atacar Haddad e o aproveitaram ao máximo.
No sábado anterior à eleição, as manifestações do #EleNão foram reinventadas e apresentadas, com outra roupagem, à opinião pública, especialmente às parcelas menos informadas e interessadas por política.
Foi mais fácil fazê-lo porque esses eleitores mal sabiam que haviam acontecido, pois as emissoras de televisão, a começar pela TV Globo, preferiram quase ignorá-las.
Esse silêncio e a ausência de imagens reais do que efetivamente aconteceu foram o ponto de partida da campanha de Bolsonaro para desfechar seu golpe. Mas o relevante não foi inventar um #EleNão que não existiu, e sim fazer chegar a milhões, cuidadosamente identificados, a falsa versão das manifestações.
A estratégia adotada foi utilizar o WhatsApp para massificar conteúdos inexistentes e imagens falsificadas, para "demonstrar" que as manifestantes, Haddad e Manuela são "todos iguais": depravados, obscenos, inimigos da família, da religião etc.
Criaram uma confusão na cabeça de muitos, misturando o kit gay de Haddad, com "suspeitas" de que, em seu governo, as crianças seriam obrigadas a ver pornografia e teriam aulas de homossexualidade.
Conhecemos mal o que foi feito: quem pensou a estratégia, quem a operacionalizou, quem a pagou. Mas é certo que existiu e foi, muito provavelmente, o fator mais importante para a queda de Haddad e a subida de Bolsonaro na reta final.
Há avaliações de que foram dezenas de milhões de mensagens distribuídas em todo o País, dirigidas especialmente a mulheres evangélicas e católicas tradicionais. Quem sabia o número de seus telefones?
O poder de destruição de ciberataques foi visto na última eleição americana, a ponto de mudar o resultado. Mas a experiência brasileira vai além, pois se baseia no WhatsApp, mais rápido e que deixa menos rastros que o Facebook usado por Trump.
A pergunta que o País tem de se fazer é se aceitará passivamente que estratégias eleitorais desse tipo sejam utilizadas. Se o antipetismo de uns chega a isso. Se seremos como os americanos, que ainda investigam o que aconteceu, enquanto Trump completa seu segundo ano como presidente.
O fato é que há novas armas nas eleições modernas, quando existem candidatos dispostos e com recursos abundantes para comprá-las. As novas guerras eleitorais não são mais travadas entre bons candidatos, com boas propostas e boa comunicação oficial. As batalhas sujas na internet são cada vez mais decisivas.
* Marcos Coimbra , sociólogo, é diretor do instituto Vox Populi

* Marcos Coimbra 

Três eventos marcaram a primeira fase da campanha presidencial. Na sequência, avalio cada um:
1. A facada - Em 6 de setembro, Jair Bolsonaro sofreu a facada durante evento de campanha e saiu gravemente ferido, ao que parece. A primeira reação de seu staff foi demonstrar receio de que o ferimento prejudicasse a imagem de força física cultivada pelo candidato.
Correram para afirmar que não havia sido nada, que o candidato era "forte como um cavalo", nas palavras de um dos filhos.
Era uma avaliação equivocada: em vez de debilitar a candidatura, fortaleceu-a. A ponto de ser correto dizer que o agressor mirou Bolsonaro e matou Geraldo Alckmin, que pretendia disputar com o primeiro o voto reacionário. Por motivos que algum dia entenderemos, o eleitorado de direita deixou de lado a vergonha de votar no ex-capitão e isolou-o como única opção.
Como bônus, a facada desobrigou Bolsonaro de se expor aos debates e lhe oferece um álibi para evitar alguns (todos?) no segundo turno.
2. Ascensão de Haddad - Uma semana depois da facada, Lula acabou impedido de ser candidato e indicou Fernando Haddad como titular e Manuela D'Ávila como vice. Haddad começou a crescer nas pesquisas na manhã seguinte, dali em diante e diariamente, como se esperava.
Pouco mais de uma semana havia se passado quando "um matemático da USP", a pedido de um ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso, calculou em 99,4% a chance de ele vencer a eleição, o que configura uma certeza estatística.
Tratava-se de uma conta sem pé nem cabeça, como os acontecimentos subsequentes mostraram, mas simbolizava a percepção do favoritismo de Haddad aos olhos de quem, provavelmente, não o desejava vitorioso.
Esse prognóstico pôs em campo todos os adversários de Lula e do PT, que arregaçaram as mangas para impedir que se concretizasse. O juiz Sergio Moro requentou as confissões de Antonio Palocci e o Ministério Público Federal entendeu ser uma boa hora para formalizar uma nova denúncia contra o ex-presidente.
O mercado financeiro sinalizou freneticamente que não queria o PT de volta, com o dólar em alta e a Bolsa em queda. A mídia antipetista correu a buscar velhas reportagens acusando Haddad de irregularidades há muito esclarecidas. Alckmin dirigiu suas baterias na propaganda eleitoral, inúteis para construir, mas válidas para destruir, contra ele.
Ninguém vai sem custos de candidato hipotético a favorito em dez dias. Nem bem fora apresentado à maioria do País, Haddad transformou-se em alvo de um vasto conjunto de interesses. Sua imagem, que começava a ser construída, sofreu.
No mínimo, os bem-educados referiam-se a ele como o "poste de Lula". Os mal-educados foram muito além.
O pior, no entanto, estava por vir.
3. O ciberataque - O ataque mais danoso contra Haddad partiu da campanha de Bolsonaro, de onde mais seria de esperar que viesse. Poucos acreditavam, no entanto, que ela tivesse a capacidade e a competência para desfechá-lo na intensidade com que ocorreu.
Não foi a primeira vez que a turma em torno de Bolsonaro executou um ataque desse tipo. Quem não se lembra da reta final da eleição de 2010, quando o mesmo amálgama de radicais de direita, pastores neopentecostais ultraconservadores e capitalistas freneticamente antipetistas resolveram interferir na eleição pela internet, derrubando a votação de Dilma, inflando aquela de Marina Silva e levando a eleição para o segundo turno?
Aquilo que, há oito anos, foi chamado de "onda", tornou-se um tsunami logo depois de Haddad assumir o favoritismo, com a sociedade mais conectada, com mais de 80% dos eleitores dispondo de smartphones e mais know-how para lançar esses ataques. Que o diga Donald Trump, eleito dessa maneira.
Os estrategistas e financiadores de Bolsonaro encontraram um pretexto para atacar Haddad e o aproveitaram ao máximo.
No sábado anterior à eleição, as manifestações do #EleNão foram reinventadas e apresentadas, com outra roupagem, à opinião pública, especialmente às parcelas menos informadas e interessadas por política.
Foi mais fácil fazê-lo porque esses eleitores mal sabiam que haviam acontecido, pois as emissoras de televisão, a começar pela TV Globo, preferiram quase ignorá-las.
Esse silêncio e a ausência de imagens reais do que efetivamente aconteceu foram o ponto de partida da campanha de Bolsonaro para desfechar seu golpe. Mas o relevante não foi inventar um #EleNão que não existiu, e sim fazer chegar a milhões, cuidadosamente identificados, a falsa versão das manifestações.
A estratégia adotada foi utilizar o WhatsApp para massificar conteúdos inexistentes e imagens falsificadas, para "demonstrar" que as manifestantes, Haddad e Manuela são "todos iguais": depravados, obscenos, inimigos da família, da religião etc.
Criaram uma confusão na cabeça de muitos, misturando o kit gay de Haddad, com "suspeitas" de que, em seu governo, as crianças seriam obrigadas a ver pornografia e teriam aulas de homossexualidade.
Conhecemos mal o que foi feito: quem pensou a estratégia, quem a operacionalizou, quem a pagou. Mas é certo que existiu e foi, muito provavelmente, o fator mais importante para a queda de Haddad e a subida de Bolsonaro na reta final.
Há avaliações de que foram dezenas de milhões de mensagens distribuídas em todo o País, dirigidas especialmente a mulheres evangélicas e católicas tradicionais. Quem sabia o número de seus telefones?
O poder de destruição de ciberataques foi visto na última eleição americana, a ponto de mudar o resultado. Mas a experiência brasileira vai além, pois se baseia no WhatsApp, mais rápido e que deixa menos rastros que o Facebook usado por Trump.
A pergunta que o País tem de se fazer é se aceitará passivamente que estratégias eleitorais desse tipo sejam utilizadas. Se o antipetismo de uns chega a isso. Se seremos como os americanos, que ainda investigam o que aconteceu, enquanto Trump completa seu segundo ano como presidente.
O fato é que há novas armas nas eleições modernas, quando existem candidatos dispostos e com recursos abundantes para comprá-las. As novas guerras eleitorais não são mais travadas entre bons candidatos, com boas propostas e boa comunicação oficial. As batalhas sujas na internet são cada vez mais decisivas.

* Marcos Coimbra , sociólogo, é diretor do instituto Vox Populi