Um domingo em Paquetá

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto
\"A ILHA DE PAQUETÁ É UMA JÓIA RARA EM TODA A GUANABARA\"
\"A ILHA DE PAQUETÁ É UMA JÓIA RARA EM TODA A GUANABARA\"

Clique nas imagens para ampliar

Publicada em 06/11/2012 às 22:13:00

Nunca me senti tão infeliz como agora, aqui no meu Rio de Janeiro, trabalhando, estudando, paquerando, enfim, fazendo tudo o que eu gosto, incluindo-se aí os meus encontros em dias de folga, com Ana Maria, no seu apartamento no Leblon, muito aconchegante e confortável. Estávamos muito envolvidos, mas fizemos um acordo tácito e irrevogável: viveríamos um relacionamento aberto, sem cobranças e sem grandes envolvimentos afetivos. Sim, porque sexo é bom de qualquer jeito. Claro que com amor é bom demais, mas sem amor também vale a pena. É muito prazeroso. Não confio em ninguém que diz só fazer sexo com amor. Os bichos transam por instinto, a Natureza os fez assim. Por que então com o bicho-homem teria de ser diferente?

Nos momentos em que estou com Ana Maria gozo de uma felicidade plena. Ela é Natureza para mim, pura Natureza, melhor dizendo. Uma garota ao mesmo tempo simples e maliciosa, ingênua e devassa, inocente e descaradamente livre. Pode-se imaginar, sem saber muito a esse respeito, que o seu aprendizado da vida certamente não obedeceu ao modelo das infâncias afetuosamente protegidas (aí temos algo em comum), das adolescências cuidadosamente acompanhadas.

Ana Maria, ainda na sua cidade de nascença e muito mais no Rio de Janeiro, à sombra dos braços do Cristo Redentor, conseguira desenvolver melhor seus reflexos do que a reflexão; e apenas adivinho de longe, que o instinto deve progressivamente ceder lugar à razão. Ao invés de ser hábil em disfarçar o fundo de sua alma, oscila frequentemente entre a louca gargalhada e as incontroláveis lágrimas. Ela precisaria de muita animação para vencer a melancolia. E divertia-se muito comigo, não apenas na cama, mas nas nossas incursões ao cinema ou ao teatro. Curtia muito, assim como eu, as comédias musicais da Atlântida e espetáculos protagonizados por Tônia Carrero e Paulo Autran, seus grandes ídolos no teatro.

Assim é que nunca ousei atribuir todas as aflições de Ana Maria à inquietação dos seus olhos ou do seu pálido rosto infantil (era a cara da atriz Jane Powell, do filme "Sete Noivas Para Sete Irmãos"), já que em todo o seu ser ela conservava o frescor da infância, onde se resguardava sempre.

Num domingo de folga, resolvemos passar o dia na Ilha de Paquetá, "uma jóia rara em toda a Guanabara", como cantava Dick Farney. "É um lugar paradisíaco, amor, você precisa conhecer", ela me dizia eufórica.
Realmente, passamos um dia maravilhoso, com banhos nas diversas praias da ilha, passeios de charrete e hospedagem numa pousada que tinha como principal atração uma gastronomia à base de peixe e crustáceos diversos. Uma delícia, assim pra gente comer rezando!
Ao retornar ao Rio de Janeiro, desfrutando da profusão de cores de um pôr-do-sol cinematográfico, eu lhe disse:

- Se porventura, Aninha, a angústia ainda a visitar, lembre-se desse dia maravilhoso, pra não correr o risco de nela afundar como num abismo.
- Já não tenho mais tempo para isso, meu querido; - ela respondeu-me sem vacilar e com um beijo que me pareceu durar uma eternidade.

Compreendi que naquela noite, mesmo com frio ou com chuva, eu ficaria contente. Eu acreditava ver em meus olhos a mulher pela qual se chora. E loucamente desejava que de manhã, o sol me dissesse: "Vem comigo, eu te levo". Mas logo ele surgiu me deixando ligado por uma cadeia, todo esfarrapado, um sofrido coração agora solitário depois de um domingo muito especial. Afinal, era hora de cair na real: enfrentar o trem da Central rumo a mais um dia de luta pela subsistência. Uma luta que só me fazia bem. (Extraído do meu livro de memórias inédito, "Um Estanciano Arteiro no Rio de Janeiro).