Bolsonaro e o financismo

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Publicada em 26/10/2018 às 07:11:00

 

* Paulo Kliass 
De nada adiantou o alerta de setores do sistema financeiro internacional a respeito dos riscos envolvidos na aventura irresponsável que se articulou em torno da candidatura de Jair Bolsonaro. A insuspeita revista The Economist chegou a pautar uma matéria de capa em sua edição semanal de 20 de setembro. O órgão, que tão bem representa os interesses do conservadorismo do establishment capitalista, não hesitou em qualificar o ex-capitão do Exército e deputado federal como a mais recente ameaça na América Latina.
A maior parte da imprensa internacional tampouco foi complacente com as proposições de natureza fascistizante envolvidas na campanha presidencial em nossas terras. Os países europeus conhecem bem a fundo as tentativas de retomar o discurso xenófobo e autoritário que caracteriza a extrema direita atualmente em cada um dos seus espaços nacionais. A busca pela naturalização de propostas neo-nazistas ou assemelhadas não encontra eco nos setores democráticos do Velho Continente. A preservação das conquistas posteriores ao horror provocado pela dominação hitlerista é um marco do qual mesmo os grupos conservadores não aceitam abrir mão.
Por mais chocante que possa parecer a um observador estrangeiro, o mesmo comportamento não é observado quando se trata de avaliar a prática e a retórica de nossas elites tupiniquins. A fronteira mais do que evidente entre barbárie e civilização é solene e irresponsavelmente deixada de lado no debate presidencial. Tendo em vista o fracasso eleitoral dos postulantes que mais bem representavam seus interesses no primeiro turno, a maior parte das classes dominantes passou a flertar abertamente com a candidatura defensora de temas como a tortura, a pena de morte, a homofobia, a violência contra índios e negros, o porte generalizado de armas de fogo e flexibilização de penas contra estupro, entre tantas outras aberrações. Uma loucura!
Depois de terem ficado órfãos das candidaturas consideradas mais "civilizadas" da direita - como Alckmin, Meirelles e Amoedo, entre outros - os dirigentes do capital passaram a identificar em Bolsonaro a oportunidade de derrotar eleitoralmente o legado deixado pelo Partido dos Trabalhadores desde 2003. Ocorre que tal estratégia pode provocar um desastre de proporções inimagináveis para a sociedade e a economia brasileiras. Lançando mão de um contorcionismo retórico sem proporções, terminam por justificar o peteleco no corpo dançando à beira do precipício, com o surrado argumento de que é preciso acabar com a corrupção e com o intervencionismo do setor público na economia.
A especulação com a taxa de câmbio no mercado financeiro é um dos instrumentos utilizados para criar esse clima de pré catástrofe. Assim, nos meses que antecederam a definição das regras e das condições do pleito, os gigantescos operadores do financismo deitaram e rolaram com a cotação do real em relação ao dólar. Depois de evidenciados os estragos provocados pela estratégia do austericidio, eles perceberam o canto de carochinha em que se haviam metido com a balela do "primeiro a gente tira a Dilma e depois tudo se acerta com Temer, Meirelles e Goldfajn". O governo saiu muito pior do que entrou, com a popularidade rastejante, disputando com a margem de erro das pesquisas. Assustados e sem rumo consensuado entre si, o primeiro passo foi convencer o sistema judicial a não autorizar a candidatura de Lula.
Mas mesmo assim as incertezas continuaram. Com isso, a taxa de câmbio veio em uma escalada altista de R$ 3,25 a R$ 4,00, no período de janeiro até setembro. Na sequência, ela subiu ainda mais e permaneceu por 2 meses acima da fatídica taxa de R$ 4,00. Essa chantagem só foi arrefecida quando Bolsonaro passou para o segundo turno à frente de Haddad. Tudo se passa como se o financismo se sentisse mais tranquilo com a vitória do candidato do PSL. E desde então a cotação do dólar passa a apresentar uma trajetória inexplicável de queda. À medida que as pesquisas tendem a confirmar o favoritismo do capitão, os especuladores do mercado se sentem mais aliviados.
Engana-se quem imagina que a elite de nossa oligarquia financeira guarda alguma preocupação em manter as aparências de um requinte civilizatório. Circulam pelas revistas de gente famosa apenas pelo fato de fingirem uma certa admiração pela cultura europeia, pela gastronomia francesa, pelos escritores italianos, pelo torneio de tênis em Wimbledon ou pelos cruzeiros no Mediterrâneo. Pura mentira, mera aparência. A aproximação com os ambientes que envolvem a campanha de Bolsonaro não se cercou nem mesmo por um mínimo de sutileza, naquela tentativa de preservar as aparências de uma jogada política que pode comprometer tragicamente o futuro de nosso país.
A presença de Paulo Guedes no comando da economia foi o mote que faltava para que os dramas de consciência fossem atenuados. Encontraram no representante mais autêntico do liberalismo extremado um argumento para embarcarem na canoa da tentação autoritária e da intolerância institucionalizada no interior do aparelho de Estado. Pouco importa que junto ao pacote de "privatização e reforma da previdência" venha a senha compulsória para embarcar o Brasil em uma verdadeira noite de horror.
O financismo está sendo cúmplice ativo de um crime de lesa humanidade. Ainda faltam poucos dias para uma virada necessária. A sociedade civil organizada se manifesta e divulga seus receios. Lideranças e entidades se movimentam. Torçamos todos para que posicionamentos tardios - mas significativos - como Eymael e Marina sejam efetivos no convencimento do eleitorado a votar Haddad no dia 28.
A sociedade brasileira não costuma ser muito pródiga em fazer ajustes de contas com seu passado. Esse, aliás, é um dos motivos elos quais Bolsonaro pode seguir se orgulhando de idolatrar assassinos torturadores, como Brilhante Ustra. No entanto, esse apoio da elite financeira ao candidato da barbárie certamente vai ter seu preço. A História dirá.
 
* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal

* Paulo Kliass 

De nada adiantou o alerta de setores do sistema financeiro internacional a respeito dos riscos envolvidos na aventura irresponsável que se articulou em torno da candidatura de Jair Bolsonaro. A insuspeita revista The Economist chegou a pautar uma matéria de capa em sua edição semanal de 20 de setembro. O órgão, que tão bem representa os interesses do conservadorismo do establishment capitalista, não hesitou em qualificar o ex-capitão do Exército e deputado federal como a mais recente ameaça na América Latina.
A maior parte da imprensa internacional tampouco foi complacente com as proposições de natureza fascistizante envolvidas na campanha presidencial em nossas terras. Os países europeus conhecem bem a fundo as tentativas de retomar o discurso xenófobo e autoritário que caracteriza a extrema direita atualmente em cada um dos seus espaços nacionais. A busca pela naturalização de propostas neo-nazistas ou assemelhadas não encontra eco nos setores democráticos do Velho Continente. A preservação das conquistas posteriores ao horror provocado pela dominação hitlerista é um marco do qual mesmo os grupos conservadores não aceitam abrir mão.
Por mais chocante que possa parecer a um observador estrangeiro, o mesmo comportamento não é observado quando se trata de avaliar a prática e a retórica de nossas elites tupiniquins. A fronteira mais do que evidente entre barbárie e civilização é solene e irresponsavelmente deixada de lado no debate presidencial. Tendo em vista o fracasso eleitoral dos postulantes que mais bem representavam seus interesses no primeiro turno, a maior parte das classes dominantes passou a flertar abertamente com a candidatura defensora de temas como a tortura, a pena de morte, a homofobia, a violência contra índios e negros, o porte generalizado de armas de fogo e flexibilização de penas contra estupro, entre tantas outras aberrações. Uma loucura!
Depois de terem ficado órfãos das candidaturas consideradas mais "civilizadas" da direita - como Alckmin, Meirelles e Amoedo, entre outros - os dirigentes do capital passaram a identificar em Bolsonaro a oportunidade de derrotar eleitoralmente o legado deixado pelo Partido dos Trabalhadores desde 2003. Ocorre que tal estratégia pode provocar um desastre de proporções inimagináveis para a sociedade e a economia brasileiras. Lançando mão de um contorcionismo retórico sem proporções, terminam por justificar o peteleco no corpo dançando à beira do precipício, com o surrado argumento de que é preciso acabar com a corrupção e com o intervencionismo do setor público na economia.
A especulação com a taxa de câmbio no mercado financeiro é um dos instrumentos utilizados para criar esse clima de pré catástrofe. Assim, nos meses que antecederam a definição das regras e das condições do pleito, os gigantescos operadores do financismo deitaram e rolaram com a cotação do real em relação ao dólar. Depois de evidenciados os estragos provocados pela estratégia do austericidio, eles perceberam o canto de carochinha em que se haviam metido com a balela do "primeiro a gente tira a Dilma e depois tudo se acerta com Temer, Meirelles e Goldfajn". O governo saiu muito pior do que entrou, com a popularidade rastejante, disputando com a margem de erro das pesquisas. Assustados e sem rumo consensuado entre si, o primeiro passo foi convencer o sistema judicial a não autorizar a candidatura de Lula.
Mas mesmo assim as incertezas continuaram. Com isso, a taxa de câmbio veio em uma escalada altista de R$ 3,25 a R$ 4,00, no período de janeiro até setembro. Na sequência, ela subiu ainda mais e permaneceu por 2 meses acima da fatídica taxa de R$ 4,00. Essa chantagem só foi arrefecida quando Bolsonaro passou para o segundo turno à frente de Haddad. Tudo se passa como se o financismo se sentisse mais tranquilo com a vitória do candidato do PSL. E desde então a cotação do dólar passa a apresentar uma trajetória inexplicável de queda. À medida que as pesquisas tendem a confirmar o favoritismo do capitão, os especuladores do mercado se sentem mais aliviados.
Engana-se quem imagina que a elite de nossa oligarquia financeira guarda alguma preocupação em manter as aparências de um requinte civilizatório. Circulam pelas revistas de gente famosa apenas pelo fato de fingirem uma certa admiração pela cultura europeia, pela gastronomia francesa, pelos escritores italianos, pelo torneio de tênis em Wimbledon ou pelos cruzeiros no Mediterrâneo. Pura mentira, mera aparência. A aproximação com os ambientes que envolvem a campanha de Bolsonaro não se cercou nem mesmo por um mínimo de sutileza, naquela tentativa de preservar as aparências de uma jogada política que pode comprometer tragicamente o futuro de nosso país.
A presença de Paulo Guedes no comando da economia foi o mote que faltava para que os dramas de consciência fossem atenuados. Encontraram no representante mais autêntico do liberalismo extremado um argumento para embarcarem na canoa da tentação autoritária e da intolerância institucionalizada no interior do aparelho de Estado. Pouco importa que junto ao pacote de "privatização e reforma da previdência" venha a senha compulsória para embarcar o Brasil em uma verdadeira noite de horror.
O financismo está sendo cúmplice ativo de um crime de lesa humanidade. Ainda faltam poucos dias para uma virada necessária. A sociedade civil organizada se manifesta e divulga seus receios. Lideranças e entidades se movimentam. Torçamos todos para que posicionamentos tardios - mas significativos - como Eymael e Marina sejam efetivos no convencimento do eleitorado a votar Haddad no dia 28.
A sociedade brasileira não costuma ser muito pródiga em fazer ajustes de contas com seu passado. Esse, aliás, é um dos motivos elos quais Bolsonaro pode seguir se orgulhando de idolatrar assassinos torturadores, como Brilhante Ustra. No entanto, esse apoio da elite financeira ao candidato da barbárie certamente vai ter seu preço. A História dirá. 
* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal