EQUIVOCOS DA NOSSA DETERIORADA REPÚBLICA

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Publicada em 27/10/2018 às 08:04:00

 

No século passado Sergipe passou, quase simultaneamente, por eventos comparáveis a duas revoluções econômicas. A primeira aconteceu  em 1963, quando, depois de alguns anos de  infrutíferas prospecções e poços perfurados sem sucesso, finalmente, em Carmópolis  ,  jorrou petróleo, e jorrou forte, com uma alta coluna de óleo negro subindo a mais de trinta metros de altura, indo além do topo da torre do aparato de perfuração.
Pela segunda vez surgia um campo de petróleo no Brasil fora da Bahia, que concentrava, até então, a primazia de ser primeiro e único estado produtor. E o campo de Sergipe, logo revelaram, era promissor.
Houve uma enorme euforia, o sentimento de que aquela maldição que faria do Brasil um espaço enorme e único no mundo, onde inexistiam jazidas de óleo. Países que nos rodeiam na latino-américa  tinham reservas de petróleo e gás já em exploração. A Venezuela, com as maiores reservas do mundo, a Bolívia começando a produzir, a Argentina, a Colômbia, o Perú, da mesma forma, e nós,  vitimas daquela maldição que os nacionalistas sempre denunciando a ingerência norte-americana atribuíam a uma conspiração do cartel das 3 Irmãs, as gigantescas corporações petroleiras globais. Um geólogo americano, que aqui ficou tão famoso e tão citado de forma deprimente, o mister Link, contratado pelo governo brasileiro, elaborara, na década dos anos cinquenta um relatório sobre a possibilidade da existência de jazidas economicamente viáveis de petróleo e gás no Brasil. Foi extremamente pessimista, quase fatalista, ao afirmar enfaticamente que eram quase  nulas as perspectivas de campos em terra, mas, fez a ressalva de que na plataforma marítima, existiriam fundamentadas esperanças.
O campo de Carmópolis revelava o erro do mister Link, e isso era mais um motivo para o clima de festa patriótica. Da Faculdade de Economia saíram alguns alunos acompanhando o professor Paulo Novais, e foram todos  ¨tomar banho de petróleo ¨em Carmópolis. O governador Seixas Dória, compulsoriamente fez o mesmo, porque, ao chegar ao local os petroleiros o homenagearam, e à sua comitiva, com um banho de óleo negro.
A madorrenta economia de Sergipe, onde ainda circulavam carros de bois transportando cana nos engenhos vetustos que ainda não haviam ¨apagado o fogo ¨, e passavam boiadas que vinham  do sul baiano, de Minas Gerais, e aqui encontravam o seu ¨pasto de invernada¨, antes de seguirem caminho até Alagoas e Pernambuco;  a industrialização se resumia às fábricas têxteis, quase obsoletas, e  fabriquetas  de óleos do algodão e de coco.
Em Aracaju acabara de ser inaugurado o único hotel considerado de boa qualidade, o Pálace ,  obra do governo do estado, uma das que marcaram a administração inovadora de Luiz Garcia   . Não existia turismo, e o hotel novo começava a ter seus leitos ocupados pelos técnicos brasileiros e estrangeiros da Petrobras, que aqui participavam dos trabalhos de prospecção e perfuração de poços.
Nesse panorama quase desolador, a chegada do petróleo indicava uma nova era, e ela realmente aconteceu. Quatro anos depois, com a transferência da região de Produção Nordeste da Petrobrás, de Maceió para Aracaju,  uma jogada de competência politica do governador Lourival Baptista, para aqui começaram a vir centenas de técnicos,  trabalhadores aos milhares, e iniciou-se o processo de rápido crescimento urbano e expansão da construção civil. Sergipe já  assinalava duas etapas: antes e depois do petróleo.
Em 1968 viria a segunda revolução econômica, e essa com um impacto ainda maior do que a primeira. No litoral, em frente a Aracaju, uma plataforma marítima começava a jorrar petróleo e gás, pela primeira vez no Brasil. Assim, confirmava-se a previsão do mister Link, em relação às potencialidades na plataforma marítima. Em breve, dezenas de poços estariam produzindo no litoral sergipano. À noite, da praia da Atalaia, a atração era ver a chama intensa saindo das plataformas que queimavam o gás. Logo seria instalados os oleodutos os gasodutos, o terminal de atracação dos petroleiros, o complexo de armazenamento junto à praia, a planta de gasolina natural, a FAFEN, fábrica de fertilizantes nitrogenados, e as dezenas de indústrias de fertilizantes; o terminal marítimo, o porto off-shore.
Aracaju ganhou um novo impulso de crescimento.
Agora, estamos às portas da terceira revolução econômica e  será em proporções bem maiores,  o marco definitivo para a industrialização e desenvolvimento econômico de Sergipe. Nessa quarta, 24, esteve em Aracaju um grupo de executivos da Exxon, a empresa americana que adquiriu a maior parcela de um dos campos,  no quase pré-sal sergipano. Ali, estão reservas avaliadas entre as mais extensas do mundo. Ficam a uns oitenta quilômetros do litoral,  quase em  frente a Aracaju.
Os executivos da Exxon  reuniram-se na Secretaria do Desenvolvimento com um grupo de técnicos  comandados pelo Secretario Jose Augusto Carvalho. Aos CEOs  da petroleira foram feitas exposições sobre a realidade sergipana, o kow-how que temos como área tradicional de produção petrolífera, a capacidade de Aracaju  e da Barra dos Coqueiros para servirem como base de operações, além da qualidade de vida de uma cidade de porte médio  que tem plenas condições para que aqui se instale o escritório central da Exxon  no nordeste. O governador Belivaldo orientou sua equipe para que trace uma estratégia visando oferecer aos executivos todos os requisitos que eles necessitarão para definir a escolha da sede.

Nem precisa incluir a corrupção quando se listam os equívocos, os erros clamorosos da ideia que fazemos de República.

Com o passar do tempo, o conceito de coisa pública, de servidor público, tornou-se desconectado  da sua essência . Diante do acúmulo de privilégios que aristocratizaram o poder supostamente  exercido em nome do povo, as instituições, os três poderes, a cada dia se foram distanciando da sociedade.

A corrupção é coisa antiga, multissecular, nos acompanha desde o tempo das caravelas. Nos últimos anos exacerbou-se, e minou devastadoramente  a credibilidade das instituições, e o descrédito recaiu mais  forte  sobre a classe política. Mas nenhum dos três poderes escapou da degringolada naquela escala que mede a confiança popular, afetando, quase nas mesmas proporções  o Executivo,  o Legislativo e o Judiciário.

Tanto sob o aspecto corporativo como no comportamento pessoal dos principais integrantes desses poderes, houve, em conjunto, um visível distanciamento dos reais sentimentos da maioria dos brasileiros.

Para a grande massa de assalariados, que vivem na margem sacrificada da sobrevivência,  com o nosso  esquálido salário mínimo, qualquer servidor público que receba acima dos dez mil reais é visto como um ¨marajá ¨.

Quando  os serviços públicos entram num continuado processo de deterioração, o Executivo paga o maior preço, mas o Legislativo e Judiciário também se esvaziam, a partir da ideia formada na cabeça do povo de que os parlamentos são inúteis, e a Justiça um aranzel lento, seletivo,  de misturados descasos e vastos privilégios. 

Quando o extremista, filho do outro que lhe transmitiu a cultura da intolerância,  afirma que um soldado e um cabo bastariam para fechar o Supremo Tribunal Federal, sem duvidas, cometeu um grave crime, uma incitação às forças armadas para que rasgassem a Constituição e demolissem a arquitetura mestra da democracia.  De forma grosseira, como é o estilo do clã, traduziu o sentimento que faz parte do dia a dia das indignações do povo. E o clã a que nos referimos, formado por pai e filhos que se fazem campeões de votos e impulsionam com as suas grosseiras marcas tantas candidaturas vitoriosas, é, exatamente, o produto desse caldo de cultura social nocivo, que se foi formando na mesma proporção em que as Instituições da República se desqualificavam.

Agora, surge o coronel reformado que, tudo indica, seria um desequilibrado mental.  Resolveu botar fogo no circo, e  incendiou mesmo, quando, depois dos insultos absurdos contra a ministra Rosa Weber, mudou o tom e se fixou em Gilmar Mendes, e o desafia, e o destrata, o classifica de canalha.

Quem neste país apostará um talo de fósforo na integridade moral de Gilmar?

Mas a instituição, o Supremo Tribunal terá, a qualquer custo, de ser preservada.

Por esse ralo de descrédito descem as instituições, que se tornam frágeis, e desabam diante da fúria insensata, e claramente afrontosa à democracia,  verberada por um oficial sem maior expressão, e com  potencial para gerar uma crise de  graves proporções.

Mas a crise já foi contida, e a ação partiu, em primeiro lugar do Exército, cujo comando  determinou um inquérito para apurar as responsabilidades do militar ensandecido, além de emitir uma nota em que afirma: ¨O referido militar  afronta diversas autoridades e deve assumir a responsabilidade pelas declarações que não representam o pensamento do Exército Brasileiro.¨

O Supremo reagiu, a sociedade reagiu, e a Policia Federal já abriu inquérito. 

Onde falta juízo é preciso que alguém o coloque.

Nenhuma instituição, seja civil, militar religiosa,  está vacinada contra o vírus de indivíduos sem caráter,  corruptos ou fanatizados.

Os remédios para essas anomalias estão previstos na  lei.

Grito, prepotência, ameaça, arrogância, messianismos, causam tumultos, e nada mais do que isso.

PEQUENOS FRASCOS, PERFUMES VENENOS

O professor emérito Luiz Pereira de Melo, não chegava a um metro e sessenta.  Juiz, Desembargador, presidente do Poder Judiciário, ele nunca abandonou as salas de aula. Ensinava pelo prazer de ensinar, pela satisfação imensa de formar gerações de futuros advogados, aos quais sempre vaticinava a esperança de que, alguns deles, alcançassem o porte de um Tobias Barreto, acrescentando ao nome do ilustre sergipano:  ¨aquele Himalaia da cultura nacional ¨. 

O professor Pereirinha, a forma carinhosa como os alunos o chamavam, gostava tanto da companhia dos livros que quase ocupava a sua casa modesta, espaço reduzido para o casal e a prole numerosa, cuidadosamente arrumando livros pelas salas, quartos, e até no banheiro. Bibliófilo compulsivo e leitor voraz, formou uma biblioteca calculada em vinte mil livros. Certa vez, numa roda de amigos, Paulo Costa, irreverente, brincalhão, quase perde a amizade do amigo, colega na Faculdade de Direito da Bahia, quando referiu-se às ¨vinte mil virgens de Pereirinha ¨.

O professor Luiz Pereira de Melo dedicava-se ao magistério com tal entusiasmo que, aposentado, e aproximando-se dos noventa anos, continuava nas salas de aula, e repetindo os  bordões que todos os seus alunos decoraram, e ao relembrá-los, depois, fazem uma afetuosa reverencia ao velho professor. Um deles era: ¨

 Os grandes perfumes estão contidos nos pequenos frascos¨.

Se aplicava a metáfora referindo-se a ele mesmo, certamente o fazia cm absoluta propriedade. Na sua estatura pequena, havia o melhor perfume de um caráter virtuoso.

O caráter é uma qualidade, uma condição, algo abstrato, todavia essencial na formação do ser humano. Sendo um conjunto de virtudes,  quando elas não existem em um individuo, logo se poderá afirmar que ele é um mau caráter.

 O caráter  pode caber ou faltar tanto em um Golias, como em um David . O caráter independe do espaço físico, do volume dos corpos, exatamente por ser a dimensão inconsútil da  própria essência do Ser. E o ser humano se revela pela alma, não pelos corpos, sejam de gigantes ou pigmeus. Em qualquer corpo há espaço para a alma.

Excesso de ambição, vaidade excessiva, egocentrismos, mentira e irresponsabilidade, são falhas morais que deterioram e deformam o caráter, ou denunciam a sua ausência, e fazem a alma pequena. 

Valadares Filho, ou Valadarizinho, como de forma carinhosa poderá ser chamado, terá um porte físico ainda menor do que o do nosso reverenciado professor Pereirinha.

Mas a comparação entre os dois ficará agora restrita aquilo que se poderá medir com a trena, em centímetros.

O caráter não se circunscreve aos sistemas métricos, ele se revela na sua grandeza, pequenez ou ausência, nos atos que o cidadão pratica ao longo da vida.

Nesta campanha eleitoral que agora chega ao fim, o candidato Valadares Filho revelou uma deplorável ausência de caráter. Talvez a ambição extrema, a ansiedade patológica pela conquista do poder o tenha deformado, o que é lamentável, tratando-se  de um jovem nascido em lar honrado, e onde o caráter seria objeto de culto.

Essa peça  final de sua propaganda de candidato que surgiu na TV, é  algo que somente poderia ter nascido de uma mente onde o caráter fosse uma condição acessória, ou desprezível.

Nas aéreas que exibem a ¨fazenda de Belivaldo¨, são vistas boiadas  imensas de gado Nelore de alta qualidade genética. Ao lado, em letrinhas  quase milimétricas, há o esclarecimento que ninguém consegue ler: ¨imagens meramente ilustrativas¨. Claro, a explicação em letrinhas minúsculas  ninguém leu, mas ficou na cabeça de todos a ideia de que aquela era a  ¨fabulosa propriedade rural de Belivaldo,¨ a quem  Valadarizinho, carente de argumentos concretos, pretende pintar como desonesto .

 A fraude, a farsa, a mentira, a simulação,   não encontram clima onde  possam prosperar, quando existe o caráter. O caráter, quando é sem jaça, como antigamente se dizia, as repelem, e as afastam com nojo.

Assim, a metáfora do saudoso e lembrado professor Pereirinha, poderia, diante do caso em foco, sofrer uma deprimente adaptação : ¨Os pequenos perfumes, ou venenos, estão contidos nos pequenos frascos.¨

UMA ESCOLA ARACAJUANA E UMA MENININHA NEGRA

A escola é de elite, oferece ensino de excelência, e por isso cobra o preço compatível com nível que alcançou. Numa das turmas onde estudam crianças com média de idade de oito anos, há uma criança negra.

Como é tacitamente reconhecido, sem recorrer à constatações cientificas, apenas com as observações empíricas do nosso dia a dia, somos um país etnicamente   perfeito, porque aqui reunimos todas as raças, e a característica maior é a predominância da raça negra. 

Se etnicamente conseguimos formar aquele ¨melting pot¨,  a caracterização anglo-saxônica para o caldeirão de raças, estamos, todavia, muito distantes da perfeição social que seria a igualdade de todas as cores de pele que formam o nosso universo humano.

Desgraçadamente, na onda de intolerâncias politico-ideológicas que envenenam o nosso cenário social, espalha-se a contaminação criminosa de uma aberração: o racismo.

Velhas e maléficas tendências que tanto mal causaram ao mundo, estão sendo revisitadas, sob o pretexto de um ¨conservadorismo ¨  que é, na verdade, uma forma, digamos assim, conveniente, de ocultar a profunda aversão que uma considerável parte da sociedade brasileira ainda alimenta em relação a tudo o que possa significar liberdade, igualdade, fraternidade, aquela consigna  com a qual a Revolução Francesa no  final do século dezoito desafiou o absolutismo,  e os privilégios de uma casta entendida como superior, posto que protegida por um suposto ¨direito divino¨,   do qual a massa enorme dos famintos começava a desconfiar.

Passam os séculos e as trevas de tudo o que nos faz desumanos ainda persistem, e em certas circunstancias, como as que agora vivemos, se tornam ainda mais densas, porque sentimentos recalcados descobrem que seria o momento exato para se revelarem.

Essas trevas invadem as escolas, até as universidades, onde jovens aderem a uma sebosa ideia de supremacia branca.

 Tais inconcebíveis  visões, são as   mesmas que levaram um sociopata   senhor da Alemanha, e quase do mundo,  a promover a ¨limpeza étnica ¨,  o holocausto, que levou às câmaras de gás seis milhões de judeus, ciganos, eslavos, dissidentes políticos, homossexuais, as ¨raças inferiores¨,  que teriam de desaparecer para que prevalecessem  os alemães ¨puros ¨, brancos, loiros , de olhos azuis, crânios dolicocéfalos, a raça ariana, que seria a única senhora do mundo.

Voltemos então à escola aracajuana onde, numa sala estuda a criança negra, cercada de coleguinhas, todos brancos. Não haveria nada de estranho nisso, apenas, uma violação benfazeja daquele estigma social que condena negros, pardos, mulatos, os pobres, a ficarem confinados nas escolas públicas das periferias, onde, note-se, a presença de brancos é minoritária .

Dai, a estranheza de meninos  brancos em relação à proximidade da negra. E essa estranheza não nasce nos cérebros limpos das crianças,  ainda não contaminados  pela barbárie que lhes é inculcada  pelos pais brancos, intolerantes,   saudosos da Casa Grande, tendo ao lado, subjugada, humilhada, a Senzala,  gueto onde se confinavam os negros, os ¨ sub-humanos¨, que deveriam servir como burros de carga aos seus senhores.

Século vinte e um, a ciência desvenda o cosmos, a  física quântica com todas as suas conquistas, a neurociência, nos prometem um mundo que nenhum futurologista ousou decifrar com precisão, sociedades quase perfeitas, se desenham com liberdade , democracia, igualdade, na Europa dos países sociais- democratas, e aqui, numa sala de uma escola de elite, uma criança negra é discriminada, ofendida, chamada de ¨preta de cabelo de arame¨, e uma  criança loira, que dela é a melhor amiga, e a  defende, é recriminada por outra, sob a alegação de que uma branca não pode ser amiga de uma negra, muito menos  defende-la,  e mostrar-se solidária, num gesto de civilidade que deveria ser característica inseparável da espécie humana.

A direção da escola, cuidadosa no trato com tão delicado problema, levou, às crianças envolvidas no triste acontecimento o auxilio de psicólogos. Eles ficaram espantados com o grau de deterioração na sociabilidade, no senso de igualdade social, naquelas crianças   devastadas em seu estado de inocência pela narrativa do ódio, do processo de animalização que vivem, nascido nos seus lares, onde, certamente, os pais se consideram integrantes de sólidas, respeitáveis e honradas famílias ¨cristãs¨.

O DELEGADO SENADOR É INGRATO AOS ELEITORES

O delegado Alessandro, um quase desconhecido, não foi eleito senador na onda de um fenômeno  que traduzisse quebra dos paradigmas que norteiam a nossa politica tradicional, ou a ¨Velha Política ¨ , como ele definiu o cenário do que  chamou   o ¨outro lado¨, aquele, do qual guardava uma providencial distancia.

Contraditoriamente, a eleição do delegado que fazia uma clivagem bem nítida entre ele próprio e os demais grupamentos políticos de Sergipe, foi o resultado da soma de votos que o ¨outro lado¨ a ele conduziu. 

Há, sem duvidas, a soma de votos considerável ,  partida daqueles eleitores sem opções  que lhes agradassem entre os outros candidato ao Senado, e viram, no jovem delegado uma cara nova, entre as tão recorrentes faces tradicionais da política sergipana. Em reforço  a Alessandro, nesse clima em que se considera  que a corrupção  é o resultado da tolerância ou conivência existente entre os políticos,  surgia o policial que participara de um grupo exatamente voltado para a identificação do processo de lavagem de dinheiro. Esse grupo, criado  pelo atual delegado e Secretario da Segurança, João Eloy, existia, e continua trabalhando no mesmo ritmo, sem as presenças tanto do delegado Alessandro, como da delegada Daniela Garcia, agora transformada em tábua de salvação na qual se agarra o candidato Valadares

Para  combater a corrupção são dispensáveis tanto a luz dos holofotes das Tvs, como o sensacionalismo em rádios e jornais, mas, para iniciar uma carreira politica com sucesso a curto prazo, ser armado cavaleiro,  com cota de malha e lança, pronto a abater corruptos, é a melhor forma de marketing em nossos tão inusitados tempos.

Mas, essa circunstancia especialíssima não resultaria em votos suficientes para o sucesso de uma candidatura majoritária.

O que ocorreu em favor do delegado e em desfavor dos demais concorrentes, foi o fato de que todos os dois nos diversos partidos,  desentenderam-se, brigaram entre eles mesmos, e como o eleitor queria votar em dois candidatos, onde havia liderança politica com capacidade de orientar e comandar eleitores, eles foram induzidos à segunda opção, exatamente em Alessandro, que, no entender dos candidatos, teria uma boa votação, mas, sem chegar a ameaçá-los. Esse processo conduziu mais de cem mil votos para Alessandro. Os outros  votos que seriam muitos,  mas sem potencial para elegê-lo, partiram daqueles que, de fato, o tinham como opção preferencial, e queriam ter novas alternativas, sem as marcas da ¨velha política. ¨ Alessandro  chegou a incluir em duras criticas, tanto Valadares pai como Valadares Filho, acusando-os de adotarem as práticas mais reprováveis do jogo politico.

Quando o senador eleito  se atrela agora ao carro de Valadares Filho, chegando como um providencial reforço  de campanha, os seus eleitores que nele enxergaram  o novo, distante da ¨velha política ¨,  acabam por ficar decepcionados, e diante deles a ¨novidade ¨se desfaz.

Esses eleitores, numerosos, já se consideram traídos, ou se sentem magoados, porque o delegado eleito senador não teria demonstrado coerência,  e muito menos uma afinidade, após as eleições, com os sentimentos que para ele moveram os votos, e, pior ainda, teria sido ingrato.

A TERCEIRA REVOLUÇÃO NA ECONOMIA SERGIPANA

No século passado Sergipe passou, quase simultaneamente, por eventos comparáveis a duas revoluções econômicas. A primeira aconteceu  em 1963, quando, depois de alguns anos de  infrutíferas prospecções e poços perfurados sem sucesso, finalmente, em Carmópolis  ,  jorrou petróleo, e jorrou forte, com uma alta coluna de óleo negro subindo a mais de trinta metros de altura, indo além do topo da torre do aparato de perfuração.
Pela segunda vez surgia um campo de petróleo no Brasil fora da Bahia, que concentrava, até então, a primazia de ser primeiro e único estado produtor. E o campo de Sergipe, logo revelaram, era promissor.
Houve uma enorme euforia, o sentimento de que aquela maldição que faria do Brasil um espaço enorme e único no mundo, onde inexistiam jazidas de óleo. Países que nos rodeiam na latino-américa  tinham reservas de petróleo e gás já em exploração. A Venezuela, com as maiores reservas do mundo, a Bolívia começando a produzir, a Argentina, a Colômbia, o Perú, da mesma forma, e nós,  vitimas daquela maldição que os nacionalistas sempre denunciando a ingerência norte-americana atribuíam a uma conspiração do cartel das 3 Irmãs, as gigantescas corporações petroleiras globais. Um geólogo americano, que aqui ficou tão famoso e tão citado de forma deprimente, o mister Link, contratado pelo governo brasileiro, elaborara, na década dos anos cinquenta um relatório sobre a possibilidade da existência de jazidas economicamente viáveis de petróleo e gás no Brasil. Foi extremamente pessimista, quase fatalista, ao afirmar enfaticamente que eram quase  nulas as perspectivas de campos em terra, mas, fez a ressalva de que na plataforma marítima, existiriam fundamentadas esperanças.
O campo de Carmópolis revelava o erro do mister Link, e isso era mais um motivo para o clima de festa patriótica. Da Faculdade de Economia saíram alguns alunos acompanhando o professor Paulo Novais, e foram todos  ¨tomar banho de petróleo ¨em Carmópolis. O governador Seixas Dória, compulsoriamente fez o mesmo, porque, ao chegar ao local os petroleiros o homenagearam, e à sua comitiva, com um banho de óleo negro.
A madorrenta economia de Sergipe, onde ainda circulavam carros de bois transportando cana nos engenhos vetustos que ainda não haviam ¨apagado o fogo ¨, e passavam boiadas que vinham  do sul baiano, de Minas Gerais, e aqui encontravam o seu ¨pasto de invernada¨, antes de seguirem caminho até Alagoas e Pernambuco;  a industrialização se resumia às fábricas têxteis, quase obsoletas, e  fabriquetas  de óleos do algodão e de coco.
Em Aracaju acabara de ser inaugurado o único hotel considerado de boa qualidade, o Pálace ,  obra do governo do estado, uma das que marcaram a administração inovadora de Luiz Garcia   . Não existia turismo, e o hotel novo começava a ter seus leitos ocupados pelos técnicos brasileiros e estrangeiros da Petrobras, que aqui participavam dos trabalhos de prospecção e perfuração de poços.
Nesse panorama quase desolador, a chegada do petróleo indicava uma nova era, e ela realmente aconteceu. Quatro anos depois, com a transferência da região de Produção Nordeste da Petrobrás, de Maceió para Aracaju,  uma jogada de competência politica do governador Lourival Baptista, para aqui começaram a vir centenas de técnicos,  trabalhadores aos milhares, e iniciou-se o processo de rápido crescimento urbano e expansão da construção civil. Sergipe já  assinalava duas etapas: antes e depois do petróleo.
Em 1968 viria a segunda revolução econômica, e essa com um impacto ainda maior do que a primeira. No litoral, em frente a Aracaju, uma plataforma marítima começava a jorrar petróleo e gás, pela primeira vez no Brasil. Assim, confirmava-se a previsão do mister Link, em relação às potencialidades na plataforma marítima. Em breve, dezenas de poços estariam produzindo no litoral sergipano. À noite, da praia da Atalaia, a atração era ver a chama intensa saindo das plataformas que queimavam o gás. Logo seria instalados os oleodutos os gasodutos, o terminal de atracação dos petroleiros, o complexo de armazenamento junto à praia, a planta de gasolina natural, a FAFEN, fábrica de fertilizantes nitrogenados, e as dezenas de indústrias de fertilizantes; o terminal marítimo, o porto off-shore.
Aracaju ganhou um novo impulso de crescimento.
Agora, estamos às portas da terceira revolução econômica e  será em proporções bem maiores,  o marco definitivo para a industrialização e desenvolvimento econômico de Sergipe. Nessa quarta, 24, esteve em Aracaju um grupo de executivos da Exxon, a empresa americana que adquiriu a maior parcela de um dos campos,  no quase pré-sal sergipano. Ali, estão reservas avaliadas entre as mais extensas do mundo. Ficam a uns oitenta quilômetros do litoral,  quase em  frente a Aracaju.
Os executivos da Exxon  reuniram-se na Secretaria do Desenvolvimento com um grupo de técnicos  comandados pelo Secretario Jose Augusto Carvalho. Aos CEOs  da petroleira foram feitas exposições sobre a realidade sergipana, o kow-how que temos como área tradicional de produção petrolífera, a capacidade de Aracaju  e da Barra dos Coqueiros para servirem como base de operações, além da qualidade de vida de uma cidade de porte médio  que tem plenas condições para que aqui se instale o escritório central da Exxon  no nordeste. O governador Belivaldo orientou sua equipe para que trace uma estratégia visando oferecer aos executivos todos os requisitos que eles necessitarão para definir a escolha da sede.