O AMEAÇADO TRABALHO DO ENGENHEIRO AGRÔNOMO

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Publicada em 27/10/2018 às 08:29:00

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo e Zander Navarro 
A profissão do engenheiro agrônomo foi regulamentada no Governo Getúlio Vargas em outubro de1933. O "Dia do Engenheiro Agrônomo", celebrado no mesmo dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, simbologia de um país cristão. Para alguns, "Deus é brasileiro", e "aqui plantando tudo dá". Realidades que impõem ao exercício desse profissional, múltiplas tarefas e afazeres sacerdotais. Passados os louvores, vamos as ameaças.
No período, inúmeras mudanças aconteceram na sociabilidade rural e urbana. Algumas jamais imaginadas, nem mesmo pelos qualificados planejadores e futurologistas. Destaque às contradições entre o rural e o urbano; o industrial e o agrário; o local e o global; afora as inovações lastreadas na biotecnologia, clonagem, robótica, transgenia, nanotecnologia e pluriatividade da agricultura, entre outras. Um novo mundo rural emergiu e consolidou. Na regulamentação, cabia ao engenheiro agrônomo, entre outras, a "administração de colônias agrícolas", atribuição inexistente na atualidade.
A agricultura brasileira, avançou além dos cenários previamente formulados. O Brasil passou de importador para exportador de alimentos. A pauta comercial da agricultura alcançou cento e cinquenta países dos vários continentes. A insegurança alimentar rejeitou a "teoria malthusiana", e ajoelhou perante a persistente e vergonhosa desigualdade. A sociedade rural, simbolizada no "Jeca Tatu", transformou-se numa sociedade urbana e estratificada, onde 85% dos brasileiros vivem e trabalham nas cidades, uma realidade oposta aos anos sessenta. Um outro modo de produção foi adotado pelo crescente empreendedorismo dos produtores rurais, avanços da ciência, fomento e políticas públicas. A cada novo ano, recordes de safras são obtidos. Em 1975, a colheita de grãos foi de 45 milhões de toneladas, expandiu para 58 milhões em 1990, e recentemente, alcançou 217 milhões de toneladas de grãos. Os agricultores familiares são apoiados por políticas públicas específicas para o fortalecimento da produção e agregação de valor aos seus produtos. A soja, um cultivo originalmente da região temperada, foi adaptada ao Nordeste, com expressivo valor da produção.
A terra improdutiva, antes um fator de produção poupado como uma reserva de valor, perdeu esse sentido, para ser moradia de agricultores marginalizados do progresso, ou dos combatidos latifúndios improdutivos. A mão-de-obra desqualificada, foi substituída por sofisticados equipamentos. Uma agricultura intensiva em capital foi estabelecida. A obra que relatou o "Cativeiro da Terra", "[como] a matriz estrutural e histórica da sociedade que somos hoje [...]" do mestre José de Souza Martins, pioneira nos estudos da sociologia rural brasileira, foi transfigurada no arrojado agronegócio, pelas inovações tecnológicas, com ganhos na produção e produtividade. Isso não é pouco, é muito; não é simples, é complexo; não é linear, é dialético.
 Nessa perspectiva, pelo menos, duas contradições ameaçam a eficácia do trabalho técnico do tradicional engenheiro agrônomo. Primeiro, a "complexidade" do atual modo de produção agrícola. A economia agropecuária está vivendo uma revolução tecnológica, a exemplo da ampla e complexa matriz de conhecimentos. Nenhum curso de Engenharia Agronômica será capaz de formar um profissional com tantas habilidades. O futuro deverá fragmentar ainda mais essa profissão. Segundo: a "totalidade". A exigida compreensão do "todo" e as suas determinações. A ação profissional concentrada nas "partes" será inócua e insuficiente. Ela não produzirá os resultados esperados. Na atualidade, existe um sombreamento dos papéis do engenheiro agrônomo, com os profissionais da engenharia de biossistemas, da engenharia agrícola, da engenharia ambiental, da engenharia civil, da arquitetura, da meteorologia, da economia, da administração, e da sociologia, entre outros. Uma impossibilidade de competências, incompatíveis com o currículo tradicional em "práxis" do engenheiro agrônomo. Quantos engenheiros agrônomos estão sendo formados para lidar com esses dois desafios?
A Embrapa Tabuleiros Costeiros, entre nós, delineou um território estratégico denominado SEALBA, para o cultivo de grãos e substituição de monocultivos, nos Estados de Sergipe, Alagoas e Bahia.  A sua metodologia, ainda não foi incorporada pelas estruturas estatais. Iniciativas exclusivas do setor produtivo. Justificativas e dilemas corporativos, afastam os olhares técnicos dos engenheiros agrônomos, sobre a introdução da soja nesse território, um cultivo global, que exige o acompanhamento especializado dos movimentos na "totalidade", e da "produção ao consumo", além do viés estreito das "partes", contaminadas por um pensar reducionista. Premissas postas à formação de um novo profissional, numa estabelecida, global, e desafiante economia agropecuária. 
* Manoel Moacir Costa Macêdo e Zander Navarro - Engenheiros Agrônomos

A profissão do engenheiro agrônomo foi regulamentada no Governo Getúlio Vargas em outubro de1933. O "Dia do Engenheiro Agrônomo", celebrado no mesmo dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, simbologia de um país cristão. Para alguns, "Deus é brasileiro", e "aqui plantando tudo dá". Realidades que impõem ao exercício desse profissional, múltiplas tarefas e afazeres sacerdotais. Passados os louvores, vamos as ameaças.
No período, inúmeras mudanças aconteceram na sociabilidade rural e urbana. Algumas jamais imaginadas, nem mesmo pelos qualificados planejadores e futurologistas. Destaque às contradições entre o rural e o urbano; o industrial e o agrário; o local e o global; afora as inovações lastreadas na biotecnologia, clonagem, robótica, transgenia, nanotecnologia e pluriatividade da agricultura, entre outras. Um novo mundo rural emergiu e consolidou. Na regulamentação, cabia ao engenheiro agrônomo, entre outras, a "administração de colônias agrícolas", atribuição inexistente na atualidade.
A agricultura brasileira, avançou além dos cenários previamente formulados. O Brasil passou de importador para exportador de alimentos. A pauta comercial da agricultura alcançou cento e cinquenta países dos vários continentes. A insegurança alimentar rejeitou a "teoria malthusiana", e ajoelhou perante a persistente e vergonhosa desigualdade. A sociedade rural, simbolizada no "Jeca Tatu", transformou-se numa sociedade urbana e estratificada, onde 85% dos brasileiros vivem e trabalham nas cidades, uma realidade oposta aos anos sessenta. Um outro modo de produção foi adotado pelo crescente empreendedorismo dos produtores rurais, avanços da ciência, fomento e políticas públicas. A cada novo ano, recordes de safras são obtidos. Em 1975, a colheita de grãos foi de 45 milhões de toneladas, expandiu para 58 milhões em 1990, e recentemente, alcançou 217 milhões de toneladas de grãos. Os agricultores familiares são apoiados por políticas públicas específicas para o fortalecimento da produção e agregação de valor aos seus produtos. A soja, um cultivo originalmente da região temperada, foi adaptada ao Nordeste, com expressivo valor da produção.
A terra improdutiva, antes um fator de produção poupado como uma reserva de valor, perdeu esse sentido, para ser moradia de agricultores marginalizados do progresso, ou dos combatidos latifúndios improdutivos. A mão-de-obra desqualificada, foi substituída por sofisticados equipamentos. Uma agricultura intensiva em capital foi estabelecida. A obra que relatou o "Cativeiro da Terra", "[como] a matriz estrutural e histórica da sociedade que somos hoje [...]" do mestre José de Souza Martins, pioneira nos estudos da sociologia rural brasileira, foi transfigurada no arrojado agronegócio, pelas inovações tecnológicas, com ganhos na produção e produtividade. Isso não é pouco, é muito; não é simples, é complexo; não é linear, é dialético.
 Nessa perspectiva, pelo menos, duas contradições ameaçam a eficácia do trabalho técnico do tradicional engenheiro agrônomo. Primeiro, a "complexidade" do atual modo de produção agrícola. A economia agropecuária está vivendo uma revolução tecnológica, a exemplo da ampla e complexa matriz de conhecimentos. Nenhum curso de Engenharia Agronômica será capaz de formar um profissional com tantas habilidades. O futuro deverá fragmentar ainda mais essa profissão. Segundo: a "totalidade". A exigida compreensão do "todo" e as suas determinações. A ação profissional concentrada nas "partes" será inócua e insuficiente. Ela não produzirá os resultados esperados. Na atualidade, existe um sombreamento dos papéis do engenheiro agrônomo, com os profissionais da engenharia de biossistemas, da engenharia agrícola, da engenharia ambiental, da engenharia civil, da arquitetura, da meteorologia, da economia, da administração, e da sociologia, entre outros. Uma impossibilidade de competências, incompatíveis com o currículo tradicional em "práxis" do engenheiro agrônomo. Quantos engenheiros agrônomos estão sendo formados para lidar com esses dois desafios?
A Embrapa Tabuleiros Costeiros, entre nós, delineou um território estratégico denominado SEALBA, para o cultivo de grãos e substituição de monocultivos, nos Estados de Sergipe, Alagoas e Bahia.  A sua metodologia, ainda não foi incorporada pelas estruturas estatais. Iniciativas exclusivas do setor produtivo. Justificativas e dilemas corporativos, afastam os olhares técnicos dos engenheiros agrônomos, sobre a introdução da soja nesse território, um cultivo global, que exige o acompanhamento especializado dos movimentos na "totalidade", e da "produção ao consumo", além do viés estreito das "partes", contaminadas por um pensar reducionista. Premissas postas à formação de um novo profissional, numa estabelecida, global, e desafiante economia agropecuária. 

* Manoel Moacir Costa Macêdo e Zander Navarro - Engenheiros Agrônomos