Uma margarida na sua fossa

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Entre a alienação e o escapismo
Entre a alienação e o escapismo

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Publicada em 30/10/2018 às 10:44:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
A esquerda tupini-
quim compareceu 
às urnas portando livros. Armada de muita literatura e alguma filosofia, mal se deu conta de morar no Brasil, um país povoado por 12 milhões de analfabetos de pai e mãe. A metáfora tem, sim, a sua beleza. Tratou de apontar uma alternativa civilizada à beligerância da candidatura Bolsonaro. Resposta tão sutil às paixões mais temerárias, no entanto, jamais seria compreendida pela maioria. Bala de festim pode até fazer barulho, mas no fim das contas não fere a pele de seu ninguém.
Atenho-me aos fatos, sem a pretensão petulante de apontar eventuais responsabilidades. Eu mesmo fui votar com as 800 páginas dos contos reunidos de Caio Fernando Abreu embaixo do braço. Julguei apropriado. Aos 38, ainda hoje me equilibro entre a alienação e o escapismo.
"Bote uma margarida na sua fossa", o autor aconselha, em determinada passagem, o tom imperativo, com boa dose de ironia publicitária. Um santo remédio. Hoje, justamente quando os amigos provam o gosto amargo da ressaca eleitoral, eu passo a instrução adiante. Botem uma margarida na sua fossa, engulam o choro. O faz de conta progressista, a terra encantada, repleta de universidades, bibliotecas de portas abertas, o lugar de todas as oportunidades, sempre foi história da carochinha. "Em se plantando tudo dá". A justiça social da história recente nunca passou de uma obra de ficção.
A bolha estourou, finalmente. Agora, a quebrada não é só o argumento espacial de uma sensibilidade essencialmente elitista, a busca por visibilidade, um vídeo clipe do Kondzilla no Multishow. Há muito alarme, mas também há medo genuíno nas ruas.
Os pretos e os pobres já não são assim tão diferentes dos maconheiros, os viados e as feministas do bairro 13 de julho. 
Sempre lembrarei dos últimos anos com um misto de ressentimento e resignação, quando o dissenso foi engolido pela política partidária e a subserviência foi tomada por valor artístico. Entre todos os marcos temporais de minhas ilusões perdidas sobressai o lirismo exangue do último domingo. Para combater o fascismo, os valentes saíram de casa com um livro.

A esquerda tupini- quim compareceu  às urnas portando livros. Armada de muita literatura e alguma filosofia, mal se deu conta de morar no Brasil, um país povoado por 12 milhões de analfabetos de pai e mãe. A metáfora tem, sim, a sua beleza. Tratou de apontar uma alternativa civilizada à beligerância da candidatura Bolsonaro. Resposta tão sutil às paixões mais temerárias, no entanto, jamais seria compreendida pela maioria. Bala de festim pode até fazer barulho, mas no fim das contas não fere a pele de seu ninguém.
Atenho-me aos fatos, sem a pretensão petulante de apontar eventuais responsabilidades. Eu mesmo fui votar com as 800 páginas dos contos reunidos de Caio Fernando Abreu embaixo do braço. Julguei apropriado. Aos 38, ainda hoje me equilibro entre a alienação e o escapismo.
"Bote uma margarida na sua fossa", o autor aconselha, em determinada passagem, o tom imperativo, com boa dose de ironia publicitária. Um santo remédio. Hoje, justamente quando os amigos provam o gosto amargo da ressaca eleitoral, eu passo a instrução adiante. Botem uma margarida na sua fossa, engulam o choro. O faz de conta progressista, a terra encantada, repleta de universidades, bibliotecas de portas abertas, o lugar de todas as oportunidades, sempre foi história da carochinha. "Em se plantando tudo dá". A justiça social da história recente nunca passou de uma obra de ficção.
A bolha estourou, finalmente. Agora, a quebrada não é só o argumento espacial de uma sensibilidade essencialmente elitista, a busca por visibilidade, um vídeo clipe do Kondzilla no Multishow. Há muito alarme, mas também há medo genuíno nas ruas.
Os pretos e os pobres já não são assim tão diferentes dos maconheiros, os viados e as feministas do bairro 13 de julho. 
Sempre lembrarei dos últimos anos com um misto de ressentimento e resignação, quando o dissenso foi engolido pela política partidária e a subserviência foi tomada por valor artístico. Entre todos os marcos temporais de minhas ilusões perdidas sobressai o lirismo exangue do último domingo. Para combater o fascismo, os valentes saíram de casa com um livro.