O coração do Big Bang

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Uma existência brilhante
Uma existência brilhante

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Publicada em 31/10/2018 às 05:54:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Em mil anos não so-
brará mais ninguém. 
O palpite é de Stephen Hawking, resignado à esperança de um dia, talvez, espiar o coração do Big Bang. Pouco importará, então, as nove sinfonias de Beethoven, o penico de Duchamp, os versos sem rima de Carlos Drummond de Andrade. No fim das contas, o desfrute é a única serventia da experiência - Sejam as 400 e tantas páginas de um romancista russo ou o doce da fruta arrancada ao galho.
O El País publicou ontem um capítulo do livro póstumo de Hawking, 'Breves Respostas para Grandes Questões', inédito. Ele é taxativo: "Não há tempo para esperar que a evolução darwiniana nos faça mais inteligentes e afáveis". Aparentemente, o físico não botava um pingo de fé na humanidade.
Hawking, uma inteligência privilegiada, recomenda o brilho das estrelas,  ocupado com as leis do universo, ondas gravitacionais, abstrações de física teórica. Eu, pobre coitado, examino a unha encravada no dedão do pé esquerdo, impressionado. Cada um com a sua perspectiva. A minha, muito limitada.
Então temos os dias contados. O sabidão do Hawking confirmou o meu vislumbre de anos atrás, quando uma van tombou na BR 101 e arrastou a minha cabeça dura contra o asfalto. Até aquele trecho sinistro de uma rodovia perfeitamente pavimentada, tudo afirmava uma convicção absurda na eternidade dos meus 30 e poucos anos. Chuva fina e motorista inábil fincaram uma cruz sobre a minha religião na beira da estrada. 
Hawking é só cérebro, uma existência brilhante. Eu sou todo nervos, um fio desencapado. Nenhum de nós estará aqui quando a luz apagar, sem mais nem menos. Antes disso, ele dançou com os astros, fazendo cálculos impossíveis para o comum das gentes, entrevado numa cadeira de rodas. Até o fim, eu contarei o troco do pão e terei adotado todos os gatos abandonados na porta de minha casa. Feliz da vida. Bem pago.

Em mil anos não so- brará mais ninguém.  O palpite é de Stephen Hawking, resignado à esperança de um dia, talvez, espiar o coração do Big Bang. Pouco importará, então, as nove sinfonias de Beethoven, o penico de Duchamp, os versos sem rima de Carlos Drummond de Andrade. No fim das contas, o desfrute é a única serventia da experiência - Sejam as 400 e tantas páginas de um romancista russo ou o doce da fruta arrancada ao galho.
O El País publicou ontem um capítulo do livro póstumo de Hawking, 'Breves Respostas para Grandes Questões', inédito. Ele é taxativo: "Não há tempo para esperar que a evolução darwiniana nos faça mais inteligentes e afáveis". Aparentemente, o físico não botava um pingo de fé na humanidade.
Hawking, uma inteligência privilegiada, recomenda o brilho das estrelas,  ocupado com as leis do universo, ondas gravitacionais, abstrações de física teórica. Eu, pobre coitado, examino a unha encravada no dedão do pé esquerdo, impressionado. Cada um com a sua perspectiva. A minha, muito limitada.
Então temos os dias contados. O sabidão do Hawking confirmou o meu vislumbre de anos atrás, quando uma van tombou na BR 101 e arrastou a minha cabeça dura contra o asfalto. Até aquele trecho sinistro de uma rodovia perfeitamente pavimentada, tudo afirmava uma convicção absurda na eternidade dos meus 30 e poucos anos. Chuva fina e motorista inábil fincaram uma cruz sobre a minha religião na beira da estrada. 
Hawking é só cérebro, uma existência brilhante. Eu sou todo nervos, um fio desencapado. Nenhum de nós estará aqui quando a luz apagar, sem mais nem menos. Antes disso, ele dançou com os astros, fazendo cálculos impossíveis para o comum das gentes, entrevado numa cadeira de rodas. Até o fim, eu contarei o troco do pão e terei adotado todos os gatos abandonados na porta de minha casa. Feliz da vida. Bem pago.