Aporofobia e a Aversão aos Pobres

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 31/10/2018 às 06:22:00

 

* Paulo Franklin
Cunhado pela filósofa espanhola Adela 
Cortina, o termo aporofobia é uma jun-
ção de duas palavras gregas: á-poros (sem recursos) mais phóbos (medo), significando, portanto, rejeição ou aversão aos pobres. Considerada a "palavra do ano de 2017", a expressão reflete com intensidade a crise moral em que a sociedade se encontra, ainda mais quando se pensa no tratamento dispensado aos pobres que residem em nosso meio.
Catedrática de Ética na Universidade de Valência, a filósofa Adela é autora do livro Aporofobia, El Rechazo al Pobre, em que afirma ser a pobreza o maior medo da sociedade atual: "os que incomodam são os pobres, os que não têm poder, os que parece que não podem nos ajudar a viver melhor e que trazem problemas".
O fenômeno da aporofobia está presente, por exemplo, no ódio que muitos sentem pelos imigrantes e/ou refugiados que, forçados a abandonar seus países para tentar a sorte no Brasil, se deparam com o preconceito que denuncia a falta de preparo de grande parte da nação brasileira para receber e acolher essa gente. Tal ódio, revestido de uma falsa ideia de que tais pessoas representam uma ameaça à identidade nacional, reflete o quanto ainda estamos carentes de hospitalidade.
Além disso, a aporofobia pode ser visualizada em diversas situações do dia-a-dia. Imaginemos um morador de rua que é impedido de usar o banheiro de um restaurante por ser pobre. Ou ainda um sem-teto que é perseguido e chutado por ocupar um espaço na rua que lhe abrigue da chuva e do frio. "Quando você tem um parente pobre, você é alguém para se esconder, porque todos nós gostamos de nos gabar de parentes bem situados", destaca a autora.
Como se esquecer do triste episódio ocorrido no dia 20 de abril de 1997 com o Índio Galdino, que fora queimado vivo por cinco jovens de classe média que passava pelo local onde o senhor de 44 anos dormia, vindo a óbito poucas horas depois? 
O Catecismo da Igreja Católica ressalta, em diversos dos seus parágrafos, que os pobres ocupam (ou deveriam ocupar) papel de extrema importância em nosso meio. Repare o que diz o parágrafo 2443: "Deus abençoa aqueles que ajudam os pobres e reprova aqueles que se afastam deles: "Dá ao que te pede e não voltes às costas ao que te pede emprestado" (Cf. Mt 5,42). "De graça recebeste e de graça dai" (Cf. Mt. 10,8) Jesus Cristo reconhecerá seus eleitos pelo que tiveram feito pelos pobres. Temos o sinal da presença de Cristo quando "os pobres são evangelizados". De fato, a opção preferencial pelos pobres é, como bem lembra o Documento de Aparecida (391), "uma das características que marcam o rosto da Igreja latino-americana e caribenha". 
Ora, se os pobres (de espírito e materialmente) são tão exaltados nos textos bíblicos, na Doutrina Social da Igreja Católica e também nos ensinamentos de outras denominações religiosas, como se explicar a rejeição que tais pessoas enfrentam na sociedade? 
Em importante artigo publicado pelo padre italiano Luciano Cantini e traduzido para o português por Moisés Sbardelotto, o sacerdote destaca que rapidamente mudaram a forma de se perceber e manifestar a pobreza. Antes, tinha-se antipatia pelos turistas que invadiam as grandes cidades. Hoje, o que assusta mesmo é a chegada dos pobres, que, sem voz nem vez, foram (e ainda são) por muito tempo mantidos longe dos olhos da sociedade. Por isso, ao "invadir" os espaços que antes eram ocupados apenas por quem detinha um estilo de vida rico, esses menos afortunados agora precisam vencer o preconceito e a rejeição.
Vê-se que tal fenômeno não é exclusivo dos países desenvolvidos. A eleição presidencial do Brasil deste ano, essencialmente a disputa do segundo turno, foi marcada por fortes manifestações de xenofobia contra os nordestinos. Usuários das redes sociais chegaram a sugerir que o Nordeste fosse separado das demais regiões do país, sob o pretexto de sermos um povo que não sabe escolher os seus representantes políticos. 
Na década de 80, ainda vigente o nefasto regime militar, o saudoso humorista Chico Anysio criou um dos seus mais emblemáticos personagens: o deputado Justo Veríssimo. De acordo com o antropólogo e cientista político David Rêgo, o personagem foi inspirado a partir de uma conversa entre o humorista e Alceu Valença, que mencionou conhecer um político de Pernambuco que tinha "horror a povo". Assim, nascia a frase mais dita pelo deputado caricaturado: "eu quero é que o pobre se exploda!".
Aqui está, talvez, a base da aversão que muitos sentem pelos pobres. O pobre é diferente. O pobre é uma voz inaudível da sociedade. O pobre ofusca as luzes das grandes construções. Ninguém quer ser pobre. Pobreza parece ter virado sinônimo de doença contagiosa que não desejamos nem para nosso pior inimigo. O resultado é uma sociedade que vive de aparências e a cultiva a todo custo. 
Um dos frutos do neoliberalismo é a falsa noção de que precisamos ter para sermos aceitos. Se não somos afortunados, fingimos ser. Enchemo-nos de dívidas para manter um status, mas não nos damos conta de que com isso perdemos a individualidade e o verdadeiro sentido do existir. Em uma sociedade de consumo, o que é humano parece ter sido relegado à segundo plano, afinal, quem é pobre não pode consumir e logo será descartado pelo sistema.
Infelizmente, o estigma da pobreza está presente também nas ideias preconceituosas daqueles que foram escolhidos para representar nossos interesses. "Só tem uma utilidade o pobre no nosso país: votar. Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso", afirmou o parlamentar que defendeu a esterilização de pobres como meio de combater a miséria e o crime.
É tempo, portanto, de vencermos o medo que, como lembra o Papa Francisco "endurece o coração e transforma-se em crueldade cega que se recusa a ver o sangue, a dor, o rosto do outro". Além disso, faz-se urgente perceber o outro como imagem e semelhança de Deus, pois só assim superaremos a falsa noção de que os pobres são um peso demasiado para se carregar. 
* Paulo Franklin, advogado e professor do Instituto Diocesano da Estância

* Paulo Franklin

Cunhado pela filósofa espanhola Adela  Cortina, o termo aporofobia é uma jun- ção de duas palavras gregas: á-poros (sem recursos) mais phóbos (medo), significando, portanto, rejeição ou aversão aos pobres. Considerada a "palavra do ano de 2017", a expressão reflete com intensidade a crise moral em que a sociedade se encontra, ainda mais quando se pensa no tratamento dispensado aos pobres que residem em nosso meio.
Catedrática de Ética na Universidade de Valência, a filósofa Adela é autora do livro Aporofobia, El Rechazo al Pobre, em que afirma ser a pobreza o maior medo da sociedade atual: "os que incomodam são os pobres, os que não têm poder, os que parece que não podem nos ajudar a viver melhor e que trazem problemas".
O fenômeno da aporofobia está presente, por exemplo, no ódio que muitos sentem pelos imigrantes e/ou refugiados que, forçados a abandonar seus países para tentar a sorte no Brasil, se deparam com o preconceito que denuncia a falta de preparo de grande parte da nação brasileira para receber e acolher essa gente. Tal ódio, revestido de uma falsa ideia de que tais pessoas representam uma ameaça à identidade nacional, reflete o quanto ainda estamos carentes de hospitalidade.
Além disso, a aporofobia pode ser visualizada em diversas situações do dia-a-dia. Imaginemos um morador de rua que é impedido de usar o banheiro de um restaurante por ser pobre. Ou ainda um sem-teto que é perseguido e chutado por ocupar um espaço na rua que lhe abrigue da chuva e do frio. "Quando você tem um parente pobre, você é alguém para se esconder, porque todos nós gostamos de nos gabar de parentes bem situados", destaca a autora.
Como se esquecer do triste episódio ocorrido no dia 20 de abril de 1997 com o Índio Galdino, que fora queimado vivo por cinco jovens de classe média que passava pelo local onde o senhor de 44 anos dormia, vindo a óbito poucas horas depois? 
O Catecismo da Igreja Católica ressalta, em diversos dos seus parágrafos, que os pobres ocupam (ou deveriam ocupar) papel de extrema importância em nosso meio. Repare o que diz o parágrafo 2443: "Deus abençoa aqueles que ajudam os pobres e reprova aqueles que se afastam deles: "Dá ao que te pede e não voltes às costas ao que te pede emprestado" (Cf. Mt 5,42). "De graça recebeste e de graça dai" (Cf. Mt. 10,8) Jesus Cristo reconhecerá seus eleitos pelo que tiveram feito pelos pobres. Temos o sinal da presença de Cristo quando "os pobres são evangelizados". De fato, a opção preferencial pelos pobres é, como bem lembra o Documento de Aparecida (391), "uma das características que marcam o rosto da Igreja latino-americana e caribenha". 
Ora, se os pobres (de espírito e materialmente) são tão exaltados nos textos bíblicos, na Doutrina Social da Igreja Católica e também nos ensinamentos de outras denominações religiosas, como se explicar a rejeição que tais pessoas enfrentam na sociedade? 
Em importante artigo publicado pelo padre italiano Luciano Cantini e traduzido para o português por Moisés Sbardelotto, o sacerdote destaca que rapidamente mudaram a forma de se perceber e manifestar a pobreza. Antes, tinha-se antipatia pelos turistas que invadiam as grandes cidades. Hoje, o que assusta mesmo é a chegada dos pobres, que, sem voz nem vez, foram (e ainda são) por muito tempo mantidos longe dos olhos da sociedade. Por isso, ao "invadir" os espaços que antes eram ocupados apenas por quem detinha um estilo de vida rico, esses menos afortunados agora precisam vencer o preconceito e a rejeição.
Vê-se que tal fenômeno não é exclusivo dos países desenvolvidos. A eleição presidencial do Brasil deste ano, essencialmente a disputa do segundo turno, foi marcada por fortes manifestações de xenofobia contra os nordestinos. Usuários das redes sociais chegaram a sugerir que o Nordeste fosse separado das demais regiões do país, sob o pretexto de sermos um povo que não sabe escolher os seus representantes políticos. 
Na década de 80, ainda vigente o nefasto regime militar, o saudoso humorista Chico Anysio criou um dos seus mais emblemáticos personagens: o deputado Justo Veríssimo. De acordo com o antropólogo e cientista político David Rêgo, o personagem foi inspirado a partir de uma conversa entre o humorista e Alceu Valença, que mencionou conhecer um político de Pernambuco que tinha "horror a povo". Assim, nascia a frase mais dita pelo deputado caricaturado: "eu quero é que o pobre se exploda!".
Aqui está, talvez, a base da aversão que muitos sentem pelos pobres. O pobre é diferente. O pobre é uma voz inaudível da sociedade. O pobre ofusca as luzes das grandes construções. Ninguém quer ser pobre. Pobreza parece ter virado sinônimo de doença contagiosa que não desejamos nem para nosso pior inimigo. O resultado é uma sociedade que vive de aparências e a cultiva a todo custo. 
Um dos frutos do neoliberalismo é a falsa noção de que precisamos ter para sermos aceitos. Se não somos afortunados, fingimos ser. Enchemo-nos de dívidas para manter um status, mas não nos damos conta de que com isso perdemos a individualidade e o verdadeiro sentido do existir. Em uma sociedade de consumo, o que é humano parece ter sido relegado à segundo plano, afinal, quem é pobre não pode consumir e logo será descartado pelo sistema.
Infelizmente, o estigma da pobreza está presente também nas ideias preconceituosas daqueles que foram escolhidos para representar nossos interesses. "Só tem uma utilidade o pobre no nosso país: votar. Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso", afirmou o parlamentar que defendeu a esterilização de pobres como meio de combater a miséria e o crime.
É tempo, portanto, de vencermos o medo que, como lembra o Papa Francisco "endurece o coração e transforma-se em crueldade cega que se recusa a ver o sangue, a dor, o rosto do outro". Além disso, faz-se urgente perceber o outro como imagem e semelhança de Deus, pois só assim superaremos a falsa noção de que os pobres são um peso demasiado para se carregar. 

* Paulo Franklin, advogado e professor do Instituto Diocesano da Estância