O preço da alternância

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Publicada em 06/11/2018 às 22:32:00

 

* Antonio Passos
Corria o ano de 2012 e as cidades brasileiras vivenciavam mais uma campanha eleitoral para prefeitos e vereadores. Em Aracaju, um grupo de jornalistas passou a organizar debates públicos, muitas vezes com a presença de candidatos, realizados em bares, para discutir propostas políticas e programas de governo.
Um desses debates ocorreu em um bar no Conjunto Inácio Barbosa e eu lá cheguei cedo. Ocupei uma pequena mesa, com duas cadeiras. Quando o ambiente já estava lotado, aproximou-se de mim um desconhecido e sereno cidadão e perguntou se poderia sentar-se, dividindo a mesa comigo. Concordei.
Hoje não lembro mais o nome daquele companheiro que dividiu a mesa e somou a conversa dele com a minha. Logo no início do papo, me chamou a atenção a competência e clareza do desconhecido ao analisar a cena política. E assim transcorreu todo o diálogo, me restando a impressão que muito aprendi naquela noite.
Um bom analista para mim, mostra-se, basicamente, por duas qualidades: clareza e consistência das argumentações. Pouco ou nada contribui para o entendimento alguém que se ofereça ao dialogo, mas, não se faça entender. Sofisticações de uma fala perdem o sentido se a tornarem distante para quem escuta.
Do mesmo modo, afirmações soltas, desacompanhadas de argumentações que as tornem convincentes, podem ser ditas com firmeza ou até gritadas, porém, restarão vazias para o bom entendimento do ouvinte. Clareza e consistência argumentativa não faltavam àquele meu desconhecido interlocutor.
Naquele ano, a disputa pela prefeitura de Aracaju começou com cinco candidaturas: Almeida Lima (PPS), João Alves Filho (DEM), Reynaldo Nunes (PV), Valadares Filho (PSB) e Vera Lúcia (PSTU). No último debate realizado por um canal de TV, o candidato Almeida Lima anunciou a desistência do pleito.
A minha vaidade, quase sempre, me induz a acreditar que alguém que considero um bom analista concordará comigo. Não foi o caso naquela noite e não tem sido em muitas outras ocasiões. Depois de muito papo, perguntei ao companheiro de mesa em qual candidato ele votaria e a resposta foi firme: João Alves Filho.
Argumentei que o candidato do DEM representava o que havia de mais pernicioso para a política na época: emergente de um contexto no qual o poder econômico, a intimidação e o autoritarismo sufocavam os processos eleitorais, governante de um tempo no qual eram muito frágeis as possibilidades de fiscalização sobre os governos…
Embora tenha concordado com as minhas afirmações, o desconhecido analista foi taxativo: votaria em João Alves Filho e pronto! E qual a argumentação dele para tal escolha? Simplesmente uma: afirmava que em qualquer situação, mesmo quando um governante é bem avaliado, a alternância é necessária.
A necessidade da alternância entre diferentes grupos partidários, no exercício governamental, foi apontado pelo meu companheiro de papo como o princípio mais importante e superior a qualquer outro para a saúde da democracia. Sem ter sido convencido, conclui que deveria manter aquela questão viva e avaliá-la no decorrer do tempo.
Pois bem, João Alves Filho foi eleito e fez uma administração municipal tão degradante para a sociedade e para as instituições públicas municipais o quanto eu esperava. Não por acaso, Edvaldo Nogueira, que antecedeu o prefeito do DEM, voltou a ser eleito em 2016 e reassumiu a administração da cidade de Aracaju.
Passado todo esse tempo eu volto à questão da alternância e pergunto: foi positivo para a sociedade aracajuana ter suportado a administração de João Alves Filho e todas as mazelas decorrentes? Em que medida a manutenção da continuidade em 2012 não teria sido melhor para a cidade? A questão é complexa e apresenta nuances.
Uma das variantes que precisa ser olhadas é o candidato que no pleito de 2012 representava, ao menos formalmente, a continuidade: Valadares Filho. Talvez tenha sido a própria estratégia do grupo de centro-esquerda a causa da derrota, afinal, a relação dos Valadares com a centro-esquerda nunca foi algo convincente.
Mas o fato é que em Aracaju, entre 2008 e 2018, experimentamos um bem contrastado exercício de alternância democrática com as administrações sucessivas de prefeitos do PCdoB, do DEM e agora, de novo, do PCdoB. Para o bem ou para o mal, o ideal do meu desconhecido amigo analista realizou-se.
Uma coisa, acredito, não se pode negar: no caso descrito, a alternância no direcionamento político foi resultado de uma escolha democrática. Assim, para que a chance da continuidade ou de alternância continue existindo, se faz necessária a garantia anterior da possibilidade democrática dessa escolha.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Corria o ano de 2012 e as cidades brasileiras vivenciavam mais uma campanha eleitoral para prefeitos e vereadores. Em Aracaju, um grupo de jornalistas passou a organizar debates públicos, muitas vezes com a presença de candidatos, realizados em bares, para discutir propostas políticas e programas de governo.
Um desses debates ocorreu em um bar no Conjunto Inácio Barbosa e eu lá cheguei cedo. Ocupei uma pequena mesa, com duas cadeiras. Quando o ambiente já estava lotado, aproximou-se de mim um desconhecido e sereno cidadão e perguntou se poderia sentar-se, dividindo a mesa comigo. Concordei.
Hoje não lembro mais o nome daquele companheiro que dividiu a mesa e somou a conversa dele com a minha. Logo no início do papo, me chamou a atenção a competência e clareza do desconhecido ao analisar a cena política. E assim transcorreu todo o diálogo, me restando a impressão que muito aprendi naquela noite.
Um bom analista para mim, mostra-se, basicamente, por duas qualidades: clareza e consistência das argumentações. Pouco ou nada contribui para o entendimento alguém que se ofereça ao dialogo, mas, não se faça entender. Sofisticações de uma fala perdem o sentido se a tornarem distante para quem escuta.
Do mesmo modo, afirmações soltas, desacompanhadas de argumentações que as tornem convincentes, podem ser ditas com firmeza ou até gritadas, porém, restarão vazias para o bom entendimento do ouvinte. Clareza e consistência argumentativa não faltavam àquele meu desconhecido interlocutor.
Naquele ano, a disputa pela prefeitura de Aracaju começou com cinco candidaturas: Almeida Lima (PPS), João Alves Filho (DEM), Reynaldo Nunes (PV), Valadares Filho (PSB) e Vera Lúcia (PSTU). No último debate realizado por um canal de TV, o candidato Almeida Lima anunciou a desistência do pleito.
A minha vaidade, quase sempre, me induz a acreditar que alguém que considero um bom analista concordará comigo. Não foi o caso naquela noite e não tem sido em muitas outras ocasiões. Depois de muito papo, perguntei ao companheiro de mesa em qual candidato ele votaria e a resposta foi firme: João Alves Filho.
Argumentei que o candidato do DEM representava o que havia de mais pernicioso para a política na época: emergente de um contexto no qual o poder econômico, a intimidação e o autoritarismo sufocavam os processos eleitorais, governante de um tempo no qual eram muito frágeis as possibilidades de fiscalização sobre os governos…
Embora tenha concordado com as minhas afirmações, o desconhecido analista foi taxativo: votaria em João Alves Filho e pronto! E qual a argumentação dele para tal escolha? Simplesmente uma: afirmava que em qualquer situação, mesmo quando um governante é bem avaliado, a alternância é necessária.
A necessidade da alternância entre diferentes grupos partidários, no exercício governamental, foi apontado pelo meu companheiro de papo como o princípio mais importante e superior a qualquer outro para a saúde da democracia. Sem ter sido convencido, conclui que deveria manter aquela questão viva e avaliá-la no decorrer do tempo.
Pois bem, João Alves Filho foi eleito e fez uma administração municipal tão degradante para a sociedade e para as instituições públicas municipais o quanto eu esperava. Não por acaso, Edvaldo Nogueira, que antecedeu o prefeito do DEM, voltou a ser eleito em 2016 e reassumiu a administração da cidade de Aracaju.
Passado todo esse tempo eu volto à questão da alternância e pergunto: foi positivo para a sociedade aracajuana ter suportado a administração de João Alves Filho e todas as mazelas decorrentes? Em que medida a manutenção da continuidade em 2012 não teria sido melhor para a cidade? A questão é complexa e apresenta nuances.
Uma das variantes que precisa ser olhadas é o candidato que no pleito de 2012 representava, ao menos formalmente, a continuidade: Valadares Filho. Talvez tenha sido a própria estratégia do grupo de centro-esquerda a causa da derrota, afinal, a relação dos Valadares com a centro-esquerda nunca foi algo convincente.
Mas o fato é que em Aracaju, entre 2008 e 2018, experimentamos um bem contrastado exercício de alternância democrática com as administrações sucessivas de prefeitos do PCdoB, do DEM e agora, de novo, do PCdoB. Para o bem ou para o mal, o ideal do meu desconhecido amigo analista realizou-se.
Uma coisa, acredito, não se pode negar: no caso descrito, a alternância no direcionamento político foi resultado de uma escolha democrática. Assim, para que a chance da continuidade ou de alternância continue existindo, se faz necessária a garantia anterior da possibilidade democrática dessa escolha.

* Antonio Passos é jornalista