A UFS homenageia Paulo Freire

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Publicada em 08/11/2018 às 05:06:00

 

* José Paulino da Silva 
Nesta quinta feira, dia oito do corrente, a partir das 14 horas no auditório da Reitoria da UFS terei a honra de participar de uma mesa redonda, junto com o professor Romeo Venâncio e a professora Dilma Maria sobre o professor Paulo Freire. Na quarta feira, o homenageado recebeu o título de Doutor Honoris Causa,  título que é concedido a alguém por méritos de sua vida e de sua obra em defesa de causas socioculturais, educacionais científica/acadêmicas.  Este honroso título, até 1996, ele recebera de trinta e seis universidades de diferentes países do mundo. Paulo Freire nasceu em Recife PE (1921) e teve sua vida integralmente dedicada à causa da educação. Sua vasta obra é uma referência para a história da educação dos povos da América Latina, da África, Europa e Oceania. Infelizmente, em 1964, com o golpe  que a ditadura militar impôs à vida do povo brasileiro, Paulo Freire foi proibido de permanecer no Brasil . Sua obra e seu nome  não podiam ser citados nas escolas, nas universidades e em qualquer meio de comunicação. Estas homenagens que a UFS presta a Paulo Freire , (em memória,) é simbólica e chega em um momento decisivo. 
O Jornal Zero Hora de Porto Alegre, em sua edição de domingo (04/11/2018) publicou que "o expurgo da obra de Paulo Freire" será uma das medidas, que estão sendo apresentadas para que Bolsonaro implemente após assumir a presidência do Brasil em 1º de janeiro de 2019.Esperamos que a consciência cidadã e a organização dos brasileiros não permitam a volta do   passado de triste memória.
Qual o traço marcante da obra deste brasileiro que foi cotado para Prêmio Nobel da Paz e  considerado um dos maiores educadores do século vinte? 
Ele parte do princípio  de que  educação além de ser elaboração do saber é também um  ato político. Ou seja, a educação não é neutra. O educador deve se posicionar a favor de que e de quem trabalha. Numa sociedade de classes como a nossa, onde existe um grupo dominante, constituído pelos mais ricos, e uma imensa quantidade de pessoas pobres, analfabetas, a favor de que deve estar o professor? Neste tipo de sociedade de oprimidos e opressores, Freire ensina que a educação consiste essencialmente em despertar a consciência crítica do oprimido. Ou seja, para que o oprimido se sinta capaz de buscar sua libertação, ele precisa, antes de tudo, ter consciência das causas que o levaram a ser pobre e oprimido. Educar é humanizar e não adestrar o educando. Neste sentido 'alfabetizar' é ensinar a 'ler o mundo', e não soletrar letras. Não é soletrando ti-jo-lo,  pa-re-de  que o adulto aprende a ler. Mas, adquirindo  consciência, de que, com  tijolo  se constrói casa. Casa que ele, o pobre não tem. E por que não tem?... A 'problematização' para o pensamento de Freire, "é ação de refletir continuamente sobre o que se disse, buscando o porque das coisas, o para que delas."
Mas o que torna Paulo Freire ser temido por aqueles que são opressores? 
Um dos primeiros livros escritos por Paulo Freire se chama "Pedagogia do Oprimido" hoje traduzido para mais de 27 países. Neste livro, ele analisa o fato histórico de que nos quinhentos anos de "colonização" da América Latina e em especial do Brasil , os colonizadores portugueses e espanhóis, foram impondo uma "cultura do silêncio" aos povos colonizados. Grande parte  da população brasileira  não tem até hoje, acesso à escola, tolhendo-se-lhe seu acesso ao conhecimento elaborado pela humanidade e transmitido pela escrita. É negado aos pobres analfabetos dizer a sua palavra. O método de alfabetização freiriano consiste em partir do vivido, do conhecimento prévio da realidade, da cultura do  educando e, no diálogo educador - educando que reflete sobre a realidade, instaura-se o processo de conscientização a partir dos problemas  levantados. Esta metodologia onde o diálogo entre alfabetizador e alfabetizandos favorece e possibilita a "desocultação da realidade', consegue a motivação para que, em aproximadamente quarenta horas, um adulto  se alfabetize ampliando sobretudo sua visão do mundo.
No pensamento de Freire o educando é um sujeito cuja cultura e conhecimentos já adquiridos devem ser respeitados. Não é alguém passivo no qual se possa depositar conteúdos mas sim um agente transformador  da realidade.
Freire era uma pessoa simples, entretanto dotado de uma grande inteligência. Tive a honra de conhecê-lo pessoalmente. Quando fiz o doutorado em Educação na UNICAMP, por duas vezes ele foi almoçar em nossa casa.
A liberdade de difundir seu pensamento e adotar sua metodologia foi uma conquista muito grande dos educadores brasileiros. Querer, por um ato autoritário, "expurgar, banir, proibir" sua obra nas escolas e nas universidades além de um retrocesso, é uma agressão imperdoável ao povo brasileiro.
Liberdade se conquista no cotidiano palmo a palmo. e resistência se constrói com ações inteligentes.
* José Paulino da Silva é professor emérito da UFS

* José Paulino da Silva 

Nesta quinta feira, dia oito do corrente, a partir das 14 horas no auditório da Reitoria da UFS terei a honra de participar de uma mesa redonda, junto com o professor Romeo Venâncio e a professora Dilma Maria sobre o professor Paulo Freire. Na quarta feira, o homenageado recebeu o título de Doutor Honoris Causa,  título que é concedido a alguém por méritos de sua vida e de sua obra em defesa de causas socioculturais, educacionais científica/acadêmicas.  Este honroso título, até 1996, ele recebera de trinta e seis universidades de diferentes países do mundo. Paulo Freire nasceu em Recife PE (1921) e teve sua vida integralmente dedicada à causa da educação. Sua vasta obra é uma referência para a história da educação dos povos da América Latina, da África, Europa e Oceania. Infelizmente, em 1964, com o golpe  que a ditadura militar impôs à vida do povo brasileiro, Paulo Freire foi proibido de permanecer no Brasil . Sua obra e seu nome  não podiam ser citados nas escolas, nas universidades e em qualquer meio de comunicação. Estas homenagens que a UFS presta a Paulo Freire , (em memória,) é simbólica e chega em um momento decisivo. 
O Jornal Zero Hora de Porto Alegre, em sua edição de domingo (04/11/2018) publicou que "o expurgo da obra de Paulo Freire" será uma das medidas, que estão sendo apresentadas para que Bolsonaro implemente após assumir a presidência do Brasil em 1º de janeiro de 2019.Esperamos que a consciência cidadã e a organização dos brasileiros não permitam a volta do   passado de triste memória.
Qual o traço marcante da obra deste brasileiro que foi cotado para Prêmio Nobel da Paz e  considerado um dos maiores educadores do século vinte? 
Ele parte do princípio  de que  educação além de ser elaboração do saber é também um  ato político. Ou seja, a educação não é neutra. O educador deve se posicionar a favor de que e de quem trabalha. Numa sociedade de classes como a nossa, onde existe um grupo dominante, constituído pelos mais ricos, e uma imensa quantidade de pessoas pobres, analfabetas, a favor de que deve estar o professor? Neste tipo de sociedade de oprimidos e opressores, Freire ensina que a educação consiste essencialmente em despertar a consciência crítica do oprimido. Ou seja, para que o oprimido se sinta capaz de buscar sua libertação, ele precisa, antes de tudo, ter consciência das causas que o levaram a ser pobre e oprimido. Educar é humanizar e não adestrar o educando. Neste sentido 'alfabetizar' é ensinar a 'ler o mundo', e não soletrar letras. Não é soletrando ti-jo-lo,  pa-re-de  que o adulto aprende a ler. Mas, adquirindo  consciência, de que, com  tijolo  se constrói casa. Casa que ele, o pobre não tem. E por que não tem?... A 'problematização' para o pensamento de Freire, "é ação de refletir continuamente sobre o que se disse, buscando o porque das coisas, o para que delas."
Mas o que torna Paulo Freire ser temido por aqueles que são opressores? 
Um dos primeiros livros escritos por Paulo Freire se chama "Pedagogia do Oprimido" hoje traduzido para mais de 27 países. Neste livro, ele analisa o fato histórico de que nos quinhentos anos de "colonização" da América Latina e em especial do Brasil , os colonizadores portugueses e espanhóis, foram impondo uma "cultura do silêncio" aos povos colonizados. Grande parte  da população brasileira  não tem até hoje, acesso à escola, tolhendo-se-lhe seu acesso ao conhecimento elaborado pela humanidade e transmitido pela escrita. É negado aos pobres analfabetos dizer a sua palavra. O método de alfabetização freiriano consiste em partir do vivido, do conhecimento prévio da realidade, da cultura do  educando e, no diálogo educador - educando que reflete sobre a realidade, instaura-se o processo de conscientização a partir dos problemas  levantados. Esta metodologia onde o diálogo entre alfabetizador e alfabetizandos favorece e possibilita a "desocultação da realidade', consegue a motivação para que, em aproximadamente quarenta horas, um adulto  se alfabetize ampliando sobretudo sua visão do mundo.
No pensamento de Freire o educando é um sujeito cuja cultura e conhecimentos já adquiridos devem ser respeitados. Não é alguém passivo no qual se possa depositar conteúdos mas sim um agente transformador  da realidade.
Freire era uma pessoa simples, entretanto dotado de uma grande inteligência. Tive a honra de conhecê-lo pessoalmente. Quando fiz o doutorado em Educação na UNICAMP, por duas vezes ele foi almoçar em nossa casa.
A liberdade de difundir seu pensamento e adotar sua metodologia foi uma conquista muito grande dos educadores brasileiros. Querer, por um ato autoritário, "expurgar, banir, proibir" sua obra nas escolas e nas universidades além de um retrocesso, é uma agressão imperdoável ao povo brasileiro.
Liberdade se conquista no cotidiano palmo a palmo. e resistência se constrói com ações inteligentes.

* José Paulino da Silva é professor emérito da UFS