Brasil-República e a Igreja

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 15/11/2018 às 07:23:00

 

* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB
O alagoano Deodoro da Fonseca, que 
ostentava o título, mais simbólico 
que real, de Marechal, era o homem mais indicado e o homem menos indicado para se por à frente do movimento republicano, que tomara forças no Brasil, sobretudo após a Guerra do Paraguai, em 1870, com a criação do Partido Republicano. Naquela manhã de 15 de novembro de 1889, ele foi arrancado da cama, com febre, porque seus colegas de farda, entre os quais gozava de prestígio e simpatia, apesar de sua timidez, queriam porque queriam que ele se pusesse à frente do movimento republicano e proclamasse o novo sistema político do Brasil. Contando com a amizade do velho e sábio Imperador, que tanto sofreu com a traição do amigo, Deodoro, apesar de sua liderança entre os colegas de farda, não deveria pôr-se à frente do movimento que ia derrubar do poder o velho monarca.
No conhecido soneto sobre a República, referindo-se a Deodoro, o Imperador poeta se queixa: "Mas a dor cruel que o ânimo deplora / que fere o coração e quase o mata / é ver na mão cuspir à extrema hora / a mesma boca, aduladora e ingrata, / que tantos beijos nela deu outrora". Referia-se à cerimônia do "beija-mão", que acontecia em solenidades especiais no Palácio Imperial.
Nosso segundo Imperador, dois dias após a Proclamação da República, seguiu para Portugal, indo para o Porto, onde a Imperatriz morreu a 28 de dezembro daquele ano. Dom Pedro II seguiu sozinho para Paris, onde faleceu em 5 de dezembro de 1891, com 66 anos. Ele tinha estranha doença que lhe dava aspecto senil, superior à sua verdadeira idade. Possuindo vasta cultura, falava francês, inglês e alemão e, por incrível que pareça, julgava o sistema republicano mais adaptado àquele final do século 19.
A primeira Constituinte, a de 1824, contava com 22 padres e determinara: "A religião católica, apostólica, romana continua a ser a religião do Império. Todas as outras serão permitidas com seu culto doméstico em casa para isso destinada, sem forma alguma exterior de templo". Já a 1.ª Constituição republicana aboliu por completo esse privilégio, como também a chamada "Lei do Padroado", em força da qual os ministros sagrados, bispos e padres, eram mantidos pelo Governo Imperial, sendo também feita pelo Imperador a indicação para os vários cargos. Os bispos, indicados pelo Imperador, eram eleitos pelo Papa.
O regime imperial brasileiro entre 1873 e 1875 produzira dois mártires da independência da Igreja: Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, Bispo de Olinda, Capuchinho, e Dom Antônio de Macedo Costa, Bispo do Grão-Pará, que não se submeteram à intromissão imperial no governo de suas dioceses e excomungaram maçons dirigentes das Irmandades, poderosas na época e donas, no Recife, das melhores igrejas da diocese.
As relações entre a Igreja e o estado brasileiro ficaram definitivamente esclarecidas e fixadas no Acordo entre o Brasil e a Santa Sé, de 7 de outubro de 2009, obra do Núncio Apostólico no Brasil, à época, Dom Lorenzo Baldisseri. 
* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB é Arcebispo Emérito de Maceió
(foi Bispo Auxiliar de Aracaju - 1975 a 1980)
dedvaldo@salesianorecife.com.br 

* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB

O alagoano Deodoro da Fonseca, que  ostentava o título, mais simbólico  que real, de Marechal, era o homem mais indicado e o homem menos indicado para se por à frente do movimento republicano, que tomara forças no Brasil, sobretudo após a Guerra do Paraguai, em 1870, com a criação do Partido Republicano. Naquela manhã de 15 de novembro de 1889, ele foi arrancado da cama, com febre, porque seus colegas de farda, entre os quais gozava de prestígio e simpatia, apesar de sua timidez, queriam porque queriam que ele se pusesse à frente do movimento republicano e proclamasse o novo sistema político do Brasil. Contando com a amizade do velho e sábio Imperador, que tanto sofreu com a traição do amigo, Deodoro, apesar de sua liderança entre os colegas de farda, não deveria pôr-se à frente do movimento que ia derrubar do poder o velho monarca.
No conhecido soneto sobre a República, referindo-se a Deodoro, o Imperador poeta se queixa: "Mas a dor cruel que o ânimo deplora / que fere o coração e quase o mata / é ver na mão cuspir à extrema hora / a mesma boca, aduladora e ingrata, / que tantos beijos nela deu outrora". Referia-se à cerimônia do "beija-mão", que acontecia em solenidades especiais no Palácio Imperial.
Nosso segundo Imperador, dois dias após a Proclamação da República, seguiu para Portugal, indo para o Porto, onde a Imperatriz morreu a 28 de dezembro daquele ano. Dom Pedro II seguiu sozinho para Paris, onde faleceu em 5 de dezembro de 1891, com 66 anos. Ele tinha estranha doença que lhe dava aspecto senil, superior à sua verdadeira idade. Possuindo vasta cultura, falava francês, inglês e alemão e, por incrível que pareça, julgava o sistema republicano mais adaptado àquele final do século 19.
A primeira Constituinte, a de 1824, contava com 22 padres e determinara: "A religião católica, apostólica, romana continua a ser a religião do Império. Todas as outras serão permitidas com seu culto doméstico em casa para isso destinada, sem forma alguma exterior de templo". Já a 1.ª Constituição republicana aboliu por completo esse privilégio, como também a chamada "Lei do Padroado", em força da qual os ministros sagrados, bispos e padres, eram mantidos pelo Governo Imperial, sendo também feita pelo Imperador a indicação para os vários cargos. Os bispos, indicados pelo Imperador, eram eleitos pelo Papa.
O regime imperial brasileiro entre 1873 e 1875 produzira dois mártires da independência da Igreja: Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira, Bispo de Olinda, Capuchinho, e Dom Antônio de Macedo Costa, Bispo do Grão-Pará, que não se submeteram à intromissão imperial no governo de suas dioceses e excomungaram maçons dirigentes das Irmandades, poderosas na época e donas, no Recife, das melhores igrejas da diocese.
As relações entre a Igreja e o estado brasileiro ficaram definitivamente esclarecidas e fixadas no Acordo entre o Brasil e a Santa Sé, de 7 de outubro de 2009, obra do Núncio Apostólico no Brasil, à época, Dom Lorenzo Baldisseri. 

* Dom Edvaldo Gonçalves Amaral, SDB é Arcebispo Emérito de Maceió(foi Bispo Auxiliar de Aracaju - 1975 a 1980)dedvaldo@salesianorecife.com.br