A América Grande

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\'BlaKkKlansman\' racializa o espírito do tempo
\'BlaKkKlansman\' racializa o espírito do tempo

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Publicada em 20/11/2018 às 06:30:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Spike Lee não é ho-
mem de meias pala-
vras, nem imagens edificantes. O recém lançado 'BlaKkKlansman', por exemplo, não economiza recursos para colocar o dedo na ferida da tensão racial desde sempre vigente nos Estados Unidos. A história real na qual o filme é baseado ocorreu em meados dos anos 1970. Nem por isso, o diretor poupa personagens odientos do tempo presente.
A história absurda de um policial negro infiltrado na Ku Klux Klan é contada em ritmo acelerado, próprio de um vídeo clipe. Ao invés de simples artifício, no entanto, o uso do intertexto visual obedece aqui aos propósitos da exegese. Os cortes, com a inserção de fragmentos de 'O nascimento de uma nação', de Griffith, além do clássico edulcorado 'E o vento levou', laureado com o Oscar, fazem alusão a um pecado original: o ódio é elemento essencial da cultura do Tio Sam.
Não surpreende, portanto, que os personagens de 'BlaKkKlansman' pronunciem frases inteiras roubadas aos discursos do presidente Donald Trump. A América Grande, epítome de uma sensibilidade branca, xenófoba e ufanista, é produto de pré-conceitos históricos, fraturas sociais e simplificações diversas. Apesar dos fundamentos francamente pobres, no entanto, a ladainha ainda hoje mobiliza populações inteiras, alimentada por interesses de muitos milhões.
'BlaKkKlansman' racializa uma discussão muito pertinente, encampada pelo cinema americano recente, retrato de uma classe média branca e empobrecida, muito pungente. 
'Projeto Califórnia', 'Docinho da América', e até o roliudiano 'Três anúncios para um crime', indicado ao Oscar, possuem méritos próprios. Todos eles, no entanto, apreendem um dado amargo no espírito do tempo. Fala-se aqui de personagens embrutecidos pelas circunstâncias, vivendo dos restos. 
Desprovido das ferramentas indispensáveis ao exercício de qualquer papel social, o extrato identificado como 'white trash' sobrevive um dia depois do outro, obrigado ao arreio reducionista do presente imediato, submetido à urgência da satisfação e da necessidade premente. O filme Spike Lee argumenta que tanta pobreza espiritual às vezes redunda num ódio de bicho.

Spike Lee não é ho- mem de meias pala- vras, nem imagens edificantes. O recém lançado 'BlaKkKlansman', por exemplo, não economiza recursos para colocar o dedo na ferida da tensão racial desde sempre vigente nos Estados Unidos. A história real na qual o filme é baseado ocorreu em meados dos anos 1970. Nem por isso, o diretor poupa personagens odientos do tempo presente.
A história absurda de um policial negro infiltrado na Ku Klux Klan é contada em ritmo acelerado, próprio de um vídeo clipe. Ao invés de simples artifício, no entanto, o uso do intertexto visual obedece aqui aos propósitos da exegese. Os cortes, com a inserção de fragmentos de 'O nascimento de uma nação', de Griffith, além do clássico edulcorado 'E o vento levou', laureado com o Oscar, fazem alusão a um pecado original: o ódio é elemento essencial da cultura do Tio Sam.
Não surpreende, portanto, que os personagens de 'BlaKkKlansman' pronunciem frases inteiras roubadas aos discursos do presidente Donald Trump. A América Grande, epítome de uma sensibilidade branca, xenófoba e ufanista, é produto de pré-conceitos históricos, fraturas sociais e simplificações diversas. Apesar dos fundamentos francamente pobres, no entanto, a ladainha ainda hoje mobiliza populações inteiras, alimentada por interesses de muitos milhões.
'BlaKkKlansman' racializa uma discussão muito pertinente, encampada pelo cinema americano recente, retrato de uma classe média branca e empobrecida, muito pungente. 
'Projeto Califórnia', 'Docinho da América', e até o roliudiano 'Três anúncios para um crime', indicado ao Oscar, possuem méritos próprios. Todos eles, no entanto, apreendem um dado amargo no espírito do tempo. Fala-se aqui de personagens embrutecidos pelas circunstâncias, vivendo dos restos. 
Desprovido das ferramentas indispensáveis ao exercício de qualquer papel social, o extrato identificado como 'white trash' sobrevive um dia depois do outro, obrigado ao arreio reducionista do presente imediato, submetido à urgência da satisfação e da necessidade premente. O filme Spike Lee argumenta que tanta pobreza espiritual às vezes redunda num ódio de bicho.