Menos médicos

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 21/11/2018 às 06:05:00

 

* Antonio Passos
Não tive a oportunidade de ser atendido por um médico ou médica cubanos. Mas, vi várias notícias de brasileiros que só passaram a ter assistência médica após a implantação do programa Mais Médicos, criado em 2013 na gestão da presidenta Dilma Rousseff.
O governo que começará, formalmente, em 1º de janeiro de 2019 abomina tudo que suponha divergir do capitalismo. Não por acaso, a cor vermelha e qualquer reflexão teórica ou ação política que remeta ao socialismo têm sido alvo de ataques dos novos dirigentes.
No contexto previamente anunciado e já em vias de implantação, não era mesmo de se esperar que a medicina cubana permanecesse prestando serviços ao Brasil. O desmonte deverá ser rápido e os cubanos vão poder comemorar os 60 anos da revolução em casa.
O Ministério da Saúde anunciou que pretende lançar um edital, já nos próximos dias, para que a assistência prestada pelos cubanos continue sendo ofertada, agora por médicos brasileiros. Torço para que dê certo, porém, creio que haverá pedras nesse caminho.
A sociedade cubana é imensamente diferenciada da brasileira - digo isso pelo que pude observar quando lá estive, há um ano. Na ilha cultiva-se uma mentalidade na qual, nitidamente, as necessidades coletivas e sociais prevalecem sobre os interesses individuais.
Os profissionais formados em Cuba demonstram compartilhar o entendimento de que qualquer conquista, inclusive as educacionais, resultam de um esforço social. Assim, o emprego da força de trabalho tem sempre um sentido de retribuição, de gratidão social.
O país caribenho planeja e executa suas ações para o atendimento das demandas sociais. Se há carência de médicos, forma-se mais médicos. Se a necessidade maior é de engenheiros, o esforço é direcionado para a formação de engenheiros e assim por diante.
Uma vez formados, os profissionais assumem o compromisso de retribuição social do investimento que neles foi feito. Por isso, chegando ao Brasil, foram destinados para lugares os mais rejeitados, para onde ninguém queria ir e lá foram com disposição.
Já a nossa cultura, totalmente aberta aos valores consumistas, reforça a mentalidade de que o objetivo maior de qualquer formação profissional é a prosperidade do indivíduo formado. Dessa primeira ênfase, muitos descambam para a gana pelo enriquecimento.
Conexo ao descrito no parágrafo anterior, a cultura consumista também parece criar uma atração irresistível pela vida nas metrópoles. Com isso, de modo geral, busca-se formação para fazer sucesso, para brilhar, para desfrutar as "benesses" dos centros de poder.
Mergulhados nessa mentalidade, os profissionais das atividades mais prestigiadas, amiúde, não querem deslocar-se para trabalhar em regiões mais pobres, mais periféricas e mais carentes dos serviços públicos. Essa tem sido uma característica da nossa realidade.
Essa é uma das pedras que eu vejo no caminho da substituição das médicas e médicos cubanos por colegas brasileiros, no contexto do Programa Mais Médicos. Como disse acima, torço para que o governo supere as dificuldades, embora não acredite que será fácil.

* Antonio Passos

Não tive a oportunidade de ser atendido por um médico ou médica cubanos. Mas, vi várias notícias de brasileiros que só passaram a ter assistência médica após a implantação do programa Mais Médicos, criado em 2013 na gestão da presidenta Dilma Rousseff.
O governo que começará, formalmente, em 1º de janeiro de 2019 abomina tudo que suponha divergir do capitalismo. Não por acaso, a cor vermelha e qualquer reflexão teórica ou ação política que remeta ao socialismo têm sido alvo de ataques dos novos dirigentes.
No contexto previamente anunciado e já em vias de implantação, não era mesmo de se esperar que a medicina cubana permanecesse prestando serviços ao Brasil. O desmonte deverá ser rápido e os cubanos vão poder comemorar os 60 anos da revolução em casa.
O Ministério da Saúde anunciou que pretende lançar um edital, já nos próximos dias, para que a assistência prestada pelos cubanos continue sendo ofertada, agora por médicos brasileiros. Torço para que dê certo, porém, creio que haverá pedras nesse caminho.
A sociedade cubana é imensamente diferenciada da brasileira - digo isso pelo que pude observar quando lá estive, há um ano. Na ilha cultiva-se uma mentalidade na qual, nitidamente, as necessidades coletivas e sociais prevalecem sobre os interesses individuais.
Os profissionais formados em Cuba demonstram compartilhar o entendimento de que qualquer conquista, inclusive as educacionais, resultam de um esforço social. Assim, o emprego da força de trabalho tem sempre um sentido de retribuição, de gratidão social.
O país caribenho planeja e executa suas ações para o atendimento das demandas sociais. Se há carência de médicos, forma-se mais médicos. Se a necessidade maior é de engenheiros, o esforço é direcionado para a formação de engenheiros e assim por diante.
Uma vez formados, os profissionais assumem o compromisso de retribuição social do investimento que neles foi feito. Por isso, chegando ao Brasil, foram destinados para lugares os mais rejeitados, para onde ninguém queria ir e lá foram com disposição.Já a nossa cultura, totalmente aberta aos valores consumistas, reforça a mentalidade de que o objetivo maior de qualquer formação profissional é a prosperidade do indivíduo formado. Dessa primeira ênfase, muitos descambam para a gana pelo enriquecimento.
Conexo ao descrito no parágrafo anterior, a cultura consumista também parece criar uma atração irresistível pela vida nas metrópoles. Com isso, de modo geral, busca-se formação para fazer sucesso, para brilhar, para desfrutar as "benesses" dos centros de poder.
Mergulhados nessa mentalidade, os profissionais das atividades mais prestigiadas, amiúde, não querem deslocar-se para trabalhar em regiões mais pobres, mais periféricas e mais carentes dos serviços públicos. Essa tem sido uma característica da nossa realidade.
Essa é uma das pedras que eu vejo no caminho da substituição das médicas e médicos cubanos por colegas brasileiros, no contexto do Programa Mais Médicos. Como disse acima, torço para que o governo supere as dificuldades, embora não acredite que será fácil.