Menos Médicos

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Publicada em 21/11/2018 às 06:07:00

 

*Guilherme Boulos 
Antes mesmo de chegar ao governo, 
Bolsonaro já causou o primeiro inci-
dente internacional. O governo cubano emitiu nessa quarta-feira uma nota em que anunciou a retirada dos médicos que atuam no Brasil por conta das "referências diretas, depreciativas e ameaçadoras" feitas por Jair Bolsonaro em relação aos médicos e ao programa.
Enquanto era candidato, Bolsonaro disse que "expulsaria" os médicos cubanos do Brasil utilizando o Revalida, prova de revalidação de diplomas de fora do país. Atacou a qualidade dos profissionais, dizendo não haver "o mínimo de comprovação de que eles realmente saibam o exercício da profissão". Fez um vídeo para estudantes de uma faculdade de medicina particular anunciando que com uma canetada enviaria em 2019 "14 mil médicos de volta pra Cuba". Foi além, disse que o destino possível deles seria "ocupando a prisão americana de Guantanamo". Agora, como presidente eleito, repetiu as agressões. Conseguiu com isso criar um problema que afetará o atendimento básico à saúde de milhões de brasileiros.
É importante dizer que o Brasil não foi o primeiro país a receber médicos cubanos. Em 2016, um relatório mostrou que eles atuavam em 62 nações da América Latina, África, Ásia, Oriente Médio e países europeus como Rússia e Portugal. Definitivamente não dá pra chamar um terço do planeta de comunista.
Quando chegou a primeira leva de profissionais de Cuba, havia grupos de médicos organizados no aeroporto para recebê-los com xingamentos e vaias. Uma jornalista chegou a postar nas redes sociais que as cubanas tinham cara de "empregadas domésticas" e questionou se eram mesmo médicas. Desde o início, o racismo e o preconceito seculares da elite brasileira tiveram como alvo quem chegava da ilha caribenha para cuidar da nossa população.
Ao contrário da maior parte das entidades médicas, a população brasileira apoiou maciçamente o programa. Uma pesquisa da UFMG entrevistou usuários do SUS em 699 municípios do Brasil. Mais de 80% dos entrevistados disseram que a qualidade do atendimento médico era melhor ou muito melhor após a chegada do Mais Médicos e que as consultas passaram a resolver melhor os seus problemas de saúde. 6 a cada 10 deles destacou como vantagem do programa a presença constante do médico e o cumprimento da carga horária.
Há dezenas de estudos avaliando os efeitos da iniciativa na saúde do país. Mesmo com a barreira do idioma, os pacientes mencionavam a importância das visitas domiciliares, do tempo da consulta e da preocupação dos profissionais com a população que atendiam. Ou seja, as acusações de Bolsonaro em relação às qualidade do trabalho dos médicos cubanos não encontra qualquer respaldo na realidade.
Além disso, milhares de municípios com menos de 20 mil pessoas possuem hoje apenas profissionais do Mais Médicos. A maior parte das aldeias indígenas é coberta por eles. O Ministério da Saúde de Cuba afirma que, durante os 5 anos de participação, cerca de 20 mil profissionais do país atenderam 113 milhões de pacientes em mais de 3600 municípios. Com a decisão, 8600 equipes correm o risco de ficar sem médicos. Isso representa um quinto da saúde da família no Brasil.
Na prática, os grandes prejudicados com o fim do convênio são os brasileiros que dependem do SUS. Os que vivem na periferia das grandes cidades e em áreas de difícil acesso, sofrendo há décadas sem assistência médica.
Por outro lado, quem vibrou com a notícia foi boa parte dos conselhos e entidades médicas, que tentaram inviabilizar o programa desde o início. O Mais Médicos acabou diminuindo o poder de barganha da categoria com os municípios. Mesmo oferecendo salários muito acima da média, dificilmente conseguiam fazer os profissionais sequer cumprir a carga horária. Muito menos fixar médicos nos territórios, especialmente quando se tratavam de regiões distantes ou periféricas.
Independente da iniciativa do governo de lançar editais emergenciais para preencher as vagas que se abrirão, a situação dificilmente vai se normalizar. A regulação da formação e da oferta de vagas médicas na saúde pública é um gargalo histórico. Além do subfinanciamento e da estrutura precária, o SUS sempre foi espremido pela força do corporativismo. Assim como nos outros países, o Brasil fez o convênio com Cuba justamente para enfrentar esse nó.
O mundo assiste estarrecido às declarações diárias de Bolsonaro e sua equipe. Potências econômicas como a China, uma série de países árabes e até a insuspeita Noruega já manifestaram incômodo com a movimentação do Brasil no cenário geopolítico. Quando ameaçou a receita de grandes produtores e de operadores do mercado financeiro, o novo governo voltou atrás. Agora, afetou milhões de pessoas, parte inclusive dos que votaram nele ansiando por mudança. O que Bolsonaro terá a dizer a elas quando descobrirem quem foi o responsável pelo posto de saúde de sua casa não ter mais médico?
* Guilherme Castro é um ativista político, político e escritor brasileiro, foi candidato a presidente da República pelo PSOL. É membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)

*Guilherme Boulos 

Antes mesmo de chegar ao governo,  Bolsonaro já causou o primeiro inci- dente internacional. O governo cubano emitiu nessa quarta-feira uma nota em que anunciou a retirada dos médicos que atuam no Brasil por conta das "referências diretas, depreciativas e ameaçadoras" feitas por Jair Bolsonaro em relação aos médicos e ao programa.
Enquanto era candidato, Bolsonaro disse que "expulsaria" os médicos cubanos do Brasil utilizando o Revalida, prova de revalidação de diplomas de fora do país. Atacou a qualidade dos profissionais, dizendo não haver "o mínimo de comprovação de que eles realmente saibam o exercício da profissão". Fez um vídeo para estudantes de uma faculdade de medicina particular anunciando que com uma canetada enviaria em 2019 "14 mil médicos de volta pra Cuba". Foi além, disse que o destino possível deles seria "ocupando a prisão americana de Guantanamo". Agora, como presidente eleito, repetiu as agressões. Conseguiu com isso criar um problema que afetará o atendimento básico à saúde de milhões de brasileiros.
É importante dizer que o Brasil não foi o primeiro país a receber médicos cubanos. Em 2016, um relatório mostrou que eles atuavam em 62 nações da América Latina, África, Ásia, Oriente Médio e países europeus como Rússia e Portugal. Definitivamente não dá pra chamar um terço do planeta de comunista.
Quando chegou a primeira leva de profissionais de Cuba, havia grupos de médicos organizados no aeroporto para recebê-los com xingamentos e vaias. Uma jornalista chegou a postar nas redes sociais que as cubanas tinham cara de "empregadas domésticas" e questionou se eram mesmo médicas. Desde o início, o racismo e o preconceito seculares da elite brasileira tiveram como alvo quem chegava da ilha caribenha para cuidar da nossa população.
Ao contrário da maior parte das entidades médicas, a população brasileira apoiou maciçamente o programa. Uma pesquisa da UFMG entrevistou usuários do SUS em 699 municípios do Brasil. Mais de 80% dos entrevistados disseram que a qualidade do atendimento médico era melhor ou muito melhor após a chegada do Mais Médicos e que as consultas passaram a resolver melhor os seus problemas de saúde. 6 a cada 10 deles destacou como vantagem do programa a presença constante do médico e o cumprimento da carga horária.
Há dezenas de estudos avaliando os efeitos da iniciativa na saúde do país. Mesmo com a barreira do idioma, os pacientes mencionavam a importância das visitas domiciliares, do tempo da consulta e da preocupação dos profissionais com a população que atendiam. Ou seja, as acusações de Bolsonaro em relação às qualidade do trabalho dos médicos cubanos não encontra qualquer respaldo na realidade.
Além disso, milhares de municípios com menos de 20 mil pessoas possuem hoje apenas profissionais do Mais Médicos. A maior parte das aldeias indígenas é coberta por eles. O Ministério da Saúde de Cuba afirma que, durante os 5 anos de participação, cerca de 20 mil profissionais do país atenderam 113 milhões de pacientes em mais de 3600 municípios. Com a decisão, 8600 equipes correm o risco de ficar sem médicos. Isso representa um quinto da saúde da família no Brasil.
Na prática, os grandes prejudicados com o fim do convênio são os brasileiros que dependem do SUS. Os que vivem na periferia das grandes cidades e em áreas de difícil acesso, sofrendo há décadas sem assistência médica.
Por outro lado, quem vibrou com a notícia foi boa parte dos conselhos e entidades médicas, que tentaram inviabilizar o programa desde o início. O Mais Médicos acabou diminuindo o poder de barganha da categoria com os municípios. Mesmo oferecendo salários muito acima da média, dificilmente conseguiam fazer os profissionais sequer cumprir a carga horária. Muito menos fixar médicos nos territórios, especialmente quando se tratavam de regiões distantes ou periféricas.
Independente da iniciativa do governo de lançar editais emergenciais para preencher as vagas que se abrirão, a situação dificilmente vai se normalizar. A regulação da formação e da oferta de vagas médicas na saúde pública é um gargalo histórico. Além do subfinanciamento e da estrutura precária, o SUS sempre foi espremido pela força do corporativismo. Assim como nos outros países, o Brasil fez o convênio com Cuba justamente para enfrentar esse nó.
O mundo assiste estarrecido às declarações diárias de Bolsonaro e sua equipe. Potências econômicas como a China, uma série de países árabes e até a insuspeita Noruega já manifestaram incômodo com a movimentação do Brasil no cenário geopolítico. Quando ameaçou a receita de grandes produtores e de operadores do mercado financeiro, o novo governo voltou atrás. Agora, afetou milhões de pessoas, parte inclusive dos que votaram nele ansiando por mudança. O que Bolsonaro terá a dizer a elas quando descobrirem quem foi o responsável pelo posto de saúde de sua casa não ter mais médico?

* Guilherme Castro é um ativista político, político e escritor brasileiro, foi candidato a presidente da República pelo PSOL. É membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST)