A Black Fraude não perdoa ninguém

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O professor João Costa sabia das coisas
O professor João Costa sabia das coisas

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Publicada em 24/11/2018 às 06:14:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Os donos da internet 
conhecem todos 
os nossos hábitos de consumo. Ao invés de me oferecerem um Iphone de última geração, por exemplo, atacam o meu correio eletrônico com a sugestão de um milhão de livros indispensáveis à satisfação das ignorâncias no escuro de minha cachola. O gerente ficou louco. A Black Fraude não perdoa ninguém.
O comércio varejista tem a expectativa de movimentar R$ 3,27 bilhões em vendas durante as promoções, este ano. Mas todo cuidado é pouco para não cair em cilada. Em 2017, foram realizadas 3,5 mil queixas no site Reclame Aqui, um canal onde os consumidores podem pesquisar a reputação de prestadores de serviços, lojas e empresas antes de colocar a mão no bolso. 
Esse risco eu não corro. Passei anos sem telefone celular, desde o dia de um acidente na BR 101. O rombo na minha cabeça, vertendo sangue, não intimidou os urubus de tocaia no acostamento da estrada. Foi-se o aparelho, um gatilho de ansiedades tecnológicas. Ficaram as urgências da vida real - a superfície áspera do mundo ferindo os nervos na palma das minhas mãos, dor e formigamento na ponta dos dedos.
Com quase 40 anos nas costas quebradas, começo a me conformar com uma curiosidade crônica. Um livro depois do outro. Devagar e sempre. Não comprarei as obras completas de Guimarães Rosa, um box luxuoso da Cia das Letras, antes de derrotar as 600 páginas de 'Moby Dick'. Muito menos pela metade do dobro do preço. 
O professor João Costa sabia das coisas. Lembro do conselho, oferecido com a voz grave e o ar professoral de um personagem sabedor dos próprios méritos. Aproveitem a juventude, ele dizia. Cultura se adquire na época das espinhas. Depois de adulto, não há tempo para o que mais importa. Depois dos 30, os livros são como ostras fechadas, não compartilham o seu segredo precioso com ninguém.
Torço para Johny estar errado. De todo modo, 'Moby Dick' é sim um livro para ser lido com um desejo de aventura que não combina nem com a calvície que me desola, nem com os cabelos brancos. 

Os donos da internet  conhecem todos  os nossos hábitos de consumo. Ao invés de me oferecerem um Iphone de última geração, por exemplo, atacam o meu correio eletrônico com a sugestão de um milhão de livros indispensáveis à satisfação das ignorâncias no escuro de minha cachola. O gerente ficou louco. A Black Fraude não perdoa ninguém.
O comércio varejista tem a expectativa de movimentar R$ 3,27 bilhões em vendas durante as promoções, este ano. Mas todo cuidado é pouco para não cair em cilada. Em 2017, foram realizadas 3,5 mil queixas no site Reclame Aqui, um canal onde os consumidores podem pesquisar a reputação de prestadores de serviços, lojas e empresas antes de colocar a mão no bolso. 
Esse risco eu não corro. Passei anos sem telefone celular, desde o dia de um acidente na BR 101. O rombo na minha cabeça, vertendo sangue, não intimidou os urubus de tocaia no acostamento da estrada. Foi-se o aparelho, um gatilho de ansiedades tecnológicas. Ficaram as urgências da vida real - a superfície áspera do mundo ferindo os nervos na palma das minhas mãos, dor e formigamento na ponta dos dedos.
Com quase 40 anos nas costas quebradas, começo a me conformar com uma curiosidade crônica. Um livro depois do outro. Devagar e sempre. Não comprarei as obras completas de Guimarães Rosa, um box luxuoso da Cia das Letras, antes de derrotar as 600 páginas de 'Moby Dick'. Muito menos pela metade do dobro do preço. 
O professor João Costa sabia das coisas. Lembro do conselho, oferecido com a voz grave e o ar professoral de um personagem sabedor dos próprios méritos. Aproveitem a juventude, ele dizia. Cultura se adquire na época das espinhas. Depois de adulto, não há tempo para o que mais importa. Depois dos 30, os livros são como ostras fechadas, não compartilham o seu segredo precioso com ninguém.
Torço para Johny estar errado. De todo modo, 'Moby Dick' é sim um livro para ser lido com um desejo de aventura que não combina nem com a calvície que me desola, nem com os cabelos brancos.