Seca derruba produção de leite no Sertão

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Os pastos foram totalmente destruídos pela seca
Os pastos foram totalmente destruídos pela seca

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Publicada em 25/11/2018 às 06:48:00

 

Gabriel Damásio
A seca severa que vem 
afetando o Nordeste 
brasileiro nos últimos sete anos prejudicou a produção de leite na região do Alto Sertão sergipano, que tem uma das mais ativas cadeias fornecedoras do produto e de seus derivados (como queijo e iogurte) no Nordeste. A estimativa do setor é de que o volume fornecido pelos pecuaristas da região em 2018 tenha caído em cerca de 10% em relação aos anos anteriores. Em média, o rebanho leiteiro sergipano, calculado em cerca de 100 mil cabeças de gado, produz uma média de 800 mil litros de leite por dia, o que dá cerca de 292 milhões de litros por ano. 
O mau resultado, no entanto, se evidencia no escoamento da produção. Os produtores da região reclamam que as empresas beneficiadoras de leite do Estado, a exemplo da Sabe, da Betânia e da Natville, diminuíram a compra do leite fornecido por eles e têm preferido trazer o produto de estados do Centro-Sul do país, como São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Paraná, onde o volume médio supera a casa dos 3 bilhões de litros por ano. "Esses estados do Sul estão no pico da produção de leite, enquanto enfrentamos essa situação de seca. Por isso, ele tem ficado mais barato que o leite produzido aqui", explica o veterinário Marcos Franco, técnico da Empresa de Desenvolvimento Agrário de Sergipe (Emdagro) e produtor leiteiro. Em média, a diferença de preço cobrado entre as duas regiões está em torno de R$ 0,15 por quilo de leite (equivalente a 1,030 litro). 
Franco afirma que um dos fatores causadores disso foi a falta de chuvas na região sertaneja, o que diminuiu a produção de alimento para o gado e, com isso, aumentou o custo relacionado a outras alternativas buscadas pelos produtores para manter o rebanho. "No tempo do inverno, os criadores acumulam a silagem para alimentar o gado e, quando chove o suficiente, guarda-se essa silagem para o resto do ano. O problema foi que neste ano não teve inverno, não choveu o suficiente para produzir esse alimento. Por isso, os produtores estão tendo que comprar a silagem ou mesmo a água", afirma ele, ressalvando que essa prática é comum durante a seca em regiões sertanejas que não têm amplo aceso a rios, adutoras ou sistemas de irrigação.
A ração mais indicada para alimentar o rebanho produtor de leite é baseada principalmente no milho, cuja produção em Sergipe foi severamente castigada pela estiagem. Em agosto, a Federação da Agricultura de Sergipe (Faese) confirmou que mais de 75% da safra de milho prevista para este ano no Estado foi perdida pela falta de chuvas, resultando em um prejuízo de cerca de R$ 78 milhões e na frustração de outros R$ 204 milhões que deixaram de ser movimentados na economia do estado - incluindo o setor leiteiro. Em consequência disso, a Faese orientou os produtores a procurarem os bancos para renegociar as dívidas e acionar o seguro do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), a fim de garantir a compra da silagem para o gado.
Outro fator que influenciou na produção foi a diminuição do número de atravessadores, pessoas responsáveis por comprar e recolher o leite direto nas fazendas da região, onde os principais fornecedores são pequenos e médios agropecuaristas. São eles que revendem diariamente o leite recolhido para as empresas beneficiadoras. De acordo com o técnico da Emdagro, isso aconteceu também porque algumas indústrias aumentaram a capacidade de seus tanques de armazenamento de leite, acumulando mais o produto e diminuindo a demanda diária. Com isso, em determinadas regiões, o número de atravessadores recrutados pelas indústrias passou a ser de dois ou três, quando antes eram cinco.  
A queda de produção de leite é considerada normal em épocas de pouca chuva. "Todo ano ocorre isso quando chega o verão: a produção cai ou estabiliza", resumiu Franco. No entanto, a situação atual é particularmente mais séria por causa da seca prolongada, pois 21 municípios sergipanos já decretaram situação de emergência e estão recebendo assistência dos governos estadual e federal, com abastecimento de carros-pipa para consumo humano. A maioria deles está justamente no Alto Sertão sergipano. No entanto, segundo o veterinário, a meteorologia prevê um ligeiro aumento das chuvas na região nos próximos dias, por causa das chamadas "trovoadas de verão". Ele prevê que, caso isso aconteça, a situação pode ser amenizada, pois a chuva cria condições para a produção de pasto e outros alimentos para o gado. O cultivo da palma forrageira também é uma alternativa que vem sendo buscada pelos produtores rurais. 
ICMS - Em setembro deste ano, o governo estadual fez uma reunião com representantes das empresas beneficiadoras de leite, na qual foi discutido o aumento do investimento em ações de melhoria da produtividade do setor em Sergipe, através da reversão dos valores arrecadados com o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) cobrado no leite e derivados. A ideia é criar um Fundo de Apoio à Agricultura Familiar, voltado sobretudo para os pequenos e médios produtores. As empresas apoiaram o plano e se comprometeram a elaborar um plano de investimentos e apoio aos pecuaristas leiteiros.
"Nossos produtores de leite têm algumas particularidades: em sua maioria são pequenos produtores familiares e estão concentrados no Alto Sertão. Justamente eles que vêm sofrendo muito com os frequentes períodos de seca e precisam da ajuda do Estado. Trata-se, por outro lado, de um produto que tem uma importância econômica. Caso essa proposta seja concretizada, vai ajudar ao produtor e a toda economia de nosso semiárido", explicou, na ocasião, a secretária estadual de Agricultura, Rosilene Rodrigues, pontuando que as principais iniciativas de melhoria da produção de leite estão no melhoramento genético do rebanho, na segurança hídrica e alimentar e na sanidade dos animais. 

A seca severa que vem  afetando o Nordeste  brasileiro nos últimos sete anos prejudicou a produção de leite na região do Alto Sertão sergipano, que tem uma das mais ativas cadeias fornecedoras do produto e de seus derivados (como queijo e iogurte) no Nordeste. A estimativa do setor é de que o volume fornecido pelos pecuaristas da região em 2018 tenha caído em cerca de 10% em relação aos anos anteriores. Em média, o rebanho leiteiro sergipano, calculado em cerca de 100 mil cabeças de gado, produz uma média de 800 mil litros de leite por dia, o que dá cerca de 292 milhões de litros por ano. 
O mau resultado, no entanto, se evidencia no escoamento da produção. Os produtores da região reclamam que as empresas beneficiadoras de leite do Estado, a exemplo da Sabe, da Betânia e da Natville, diminuíram a compra do leite fornecido por eles e têm preferido trazer o produto de estados do Centro-Sul do país, como São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Paraná, onde o volume médio supera a casa dos 3 bilhões de litros por ano. "Esses estados do Sul estão no pico da produção de leite, enquanto enfrentamos essa situação de seca. Por isso, ele tem ficado mais barato que o leite produzido aqui", explica o veterinário Marcos Franco, técnico da Empresa de Desenvolvimento Agrário de Sergipe (Emdagro) e produtor leiteiro. Em média, a diferença de preço cobrado entre as duas regiões está em torno de R$ 0,15 por quilo de leite (equivalente a 1,030 litro). 
Franco afirma que um dos fatores causadores disso foi a falta de chuvas na região sertaneja, o que diminuiu a produção de alimento para o gado e, com isso, aumentou o custo relacionado a outras alternativas buscadas pelos produtores para manter o rebanho. "No tempo do inverno, os criadores acumulam a silagem para alimentar o gado e, quando chove o suficiente, guarda-se essa silagem para o resto do ano. O problema foi que neste ano não teve inverno, não choveu o suficiente para produzir esse alimento. Por isso, os produtores estão tendo que comprar a silagem ou mesmo a água", afirma ele, ressalvando que essa prática é comum durante a seca em regiões sertanejas que não têm amplo aceso a rios, adutoras ou sistemas de irrigação.
A ração mais indicada para alimentar o rebanho produtor de leite é baseada principalmente no milho, cuja produção em Sergipe foi severamente castigada pela estiagem. Em agosto, a Federação da Agricultura de Sergipe (Faese) confirmou que mais de 75% da safra de milho prevista para este ano no Estado foi perdida pela falta de chuvas, resultando em um prejuízo de cerca de R$ 78 milhões e na frustração de outros R$ 204 milhões que deixaram de ser movimentados na economia do estado - incluindo o setor leiteiro. Em consequência disso, a Faese orientou os produtores a procurarem os bancos para renegociar as dívidas e acionar o seguro do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), a fim de garantir a compra da silagem para o gado.
Outro fator que influenciou na produção foi a diminuição do número de atravessadores, pessoas responsáveis por comprar e recolher o leite direto nas fazendas da região, onde os principais fornecedores são pequenos e médios agropecuaristas. São eles que revendem diariamente o leite recolhido para as empresas beneficiadoras. De acordo com o técnico da Emdagro, isso aconteceu também porque algumas indústrias aumentaram a capacidade de seus tanques de armazenamento de leite, acumulando mais o produto e diminuindo a demanda diária. Com isso, em determinadas regiões, o número de atravessadores recrutados pelas indústrias passou a ser de dois ou três, quando antes eram cinco.  
A queda de produção de leite é considerada normal em épocas de pouca chuva. "Todo ano ocorre isso quando chega o verão: a produção cai ou estabiliza", resumiu Franco. No entanto, a situação atual é particularmente mais séria por causa da seca prolongada, pois 21 municípios sergipanos já decretaram situação de emergência e estão recebendo assistência dos governos estadual e federal, com abastecimento de carros-pipa para consumo humano. A maioria deles está justamente no Alto Sertão sergipano. No entanto, segundo o veterinário, a meteorologia prevê um ligeiro aumento das chuvas na região nos próximos dias, por causa das chamadas "trovoadas de verão". Ele prevê que, caso isso aconteça, a situação pode ser amenizada, pois a chuva cria condições para a produção de pasto e outros alimentos para o gado. O cultivo da palma forrageira também é uma alternativa que vem sendo buscada pelos produtores rurais. 

ICMS - Em setembro deste ano, o governo estadual fez uma reunião com representantes das empresas beneficiadoras de leite, na qual foi discutido o aumento do investimento em ações de melhoria da produtividade do setor em Sergipe, através da reversão dos valores arrecadados com o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) cobrado no leite e derivados. A ideia é criar um Fundo de Apoio à Agricultura Familiar, voltado sobretudo para os pequenos e médios produtores. As empresas apoiaram o plano e se comprometeram a elaborar um plano de investimentos e apoio aos pecuaristas leiteiros.
"Nossos produtores de leite têm algumas particularidades: em sua maioria são pequenos produtores familiares e estão concentrados no Alto Sertão. Justamente eles que vêm sofrendo muito com os frequentes períodos de seca e precisam da ajuda do Estado. Trata-se, por outro lado, de um produto que tem uma importância econômica. Caso essa proposta seja concretizada, vai ajudar ao produtor e a toda economia de nosso semiárido", explicou, na ocasião, a secretária estadual de Agricultura, Rosilene Rodrigues, pontuando que as principais iniciativas de melhoria da produção de leite estão no melhoramento genético do rebanho, na segurança hídrica e alimentar e na sanidade dos animais.