Viver no mato

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Publicada em 25/11/2018 às 07:04:00

 

*Rangel Alves da Costa
Ainda tem gente que não desgarra de seu pedaço de chão de jeito nenhum, ainda que a cidade chame a todo instante. Ama sua terra, ama seu pedacinho de chão, seu cercado e seu jeito simples de viver e sobreviver.
Gente que nasceu e cresceu e ainda vive e convive com a mesma feição sertaneja de antigamente. Nada parece mudar. O tempo passa, tudo voa, muito se renova, mas o viver sertanejo permanece desde o beiral da estrada de chão à cancela adiante.
Da cancela adiante a porta e a janela, o batente largo, o silêncio das horas. Parece não haver morador. Mas há. Logo sobe um cheiro vindo da cozinha, o som de uma panela, uma voz qualquer. Oi de casa! Oi de fora, eis a resposta.
Assim cheguei à casa de um já envelhecido sertanejo, um dos maiores caçadores já nascidos naqueles carrascais sertanejos, pessoa de valor e nobreza reconhecidos por todos. Um homem e seu mundo, ou aquele que a distância matuta à dureza violenta do asfalto.
Moradia de Seu João de Laura, no Riacho Largo de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo. Agora pergunto: Há cena mais singela e cativante que esta?  Um fogão de lenha sobre um estrado de barro batido. Cinzas espalhadas pelo que restou da lenha preparando comida. 
Um vasilhame enegrecido de tempo e cinzas em cima do beiral da boca. Pedaços de telhas quebradas com a serventia de encobrir os restos da madeira e do carvão. Uma lona velha, de um azulado empoeirado, estendida ao lado para proteger da ventania e da chuva, como se ali a chuvarada até se esquecesse de chegar.
E, bem juntinho ao fogão adormecido, em cima da leveza das cinzas mortas, um galo sem pressa de nada. Sonolento, descompromissado com qualquer cantar. Apenas ali, apenas aí. Mais adiante uma meia-cerca de madeira velha, pedaços de paus levantados e arvoredos emoldurando a vida. Restos, tocos, troncos, pedaços espalhados ali e acolá.
Dos braços da madeira descem sacos, baldes, quinquilharias. Um saco que alguma serventia já teve no passado. Certamente um feijão batido, um milho despigado, uma alegria com qualquer colheita. Uma planta em caqueiro sem idade pende da madeira e desce num girau de quatro costados tortos. Talvez assim, nesse mesmo jeito e na mesma feição, dia após dia. 
O fogão de barro nem sempre é usado, somente quando a panelada é de demora em cozinhar. No barro do fogão a face da pedra. Até racha pelo fogo e pelo calor, mas nunca se esbagaça. Fogão de barro e lenha para muita serventia. Um quarto de bode para muita visita, uma feijoada pra família que chega, um cozido diferente para sair da rotina do mesmo prato do dia após dia. 
Abaixo de tudo a terra, o chão sertanejo como lastro de tudo, os passos fincados desde os tempos idos. Um chão entremeado de areia e pó, de terra e poeira, de aridez e barro batido pelo passo do tempo. Um chão que um dia foi caminho de Lampião e seu bando. Uma terra abrindo passagem para antigos caçadores, para vaqueiros e animais soltos e de cria, para os caminhos sertões adentro e mais além.
Sertões onde se espalhavam os umbuzeiros, as umburanas, as craibeiras, os marmeleiros, as quixabeiras, as catingueiras muitas, os tufos de pau. Tudo num tempo de mata e de floração ao longe. Sertões do nambu, do preá, da codorna, do caititu, do veado do mato, da seriema, da rolinha fogo-pagô, até da onça e do bicho grande. Rastros apenas perdidos nos idos, veredas de ninhadas e locas que já não existem mais. 
Certo que muito mudou e até a mata já escasseou. O bicho de caça sumiu de vez. A terra já não produz como antigamente. O desmatamento aumentou o calor e trouxe o sol para fazer moradia na varanda de cada um. 
A permanência na terra, contudo, é uma questão de amor sem igual. A obstinação pela terra, pela casinha de barro ou de qualquer sustentação, é uma opção amorosa para não deixar de acordar ainda na madrugada escurecida e adormecer com a noite ainda menina.
Nunca há riqueza de luxo, mas também em lugar nenhum é encontrada riqueza igual. O luxo e o prazer da vida ainda na paz, o contentamento de estar sentindo a terra aos pés e o bicho de cria roçando a mão. Um viver assim que Seu João de Laura sequer sonha em desapartar.
E tem gente que ainda diz que é casa de pobre. E tem gente que ainda olha pra tudo e quase renega o olhar. E tem gente que não sabe o que é a vida. E tem gente que não conhece o viver sertanejo. E tem gente que sequer reconhecer a grandeza - em toda singeleza e simplicidade - desse mundo sertão.
*Rangel Alves da Costa é advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Ainda tem gente que não desgarra de seu pedaço de chão de jeito nenhum, ainda que a cidade chame a todo instante. Ama sua terra, ama seu pedacinho de chão, seu cercado e seu jeito simples de viver e sobreviver.
Gente que nasceu e cresceu e ainda vive e convive com a mesma feição sertaneja de antigamente. Nada parece mudar. O tempo passa, tudo voa, muito se renova, mas o viver sertanejo permanece desde o beiral da estrada de chão à cancela adiante.
Da cancela adiante a porta e a janela, o batente largo, o silêncio das horas. Parece não haver morador. Mas há. Logo sobe um cheiro vindo da cozinha, o som de uma panela, uma voz qualquer. Oi de casa! Oi de fora, eis a resposta.
Assim cheguei à casa de um já envelhecido sertanejo, um dos maiores caçadores já nascidos naqueles carrascais sertanejos, pessoa de valor e nobreza reconhecidos por todos. Um homem e seu mundo, ou aquele que a distância matuta à dureza violenta do asfalto.
Moradia de Seu João de Laura, no Riacho Largo de Nossa Senhora da Conceição de Poço Redondo. Agora pergunto: Há cena mais singela e cativante que esta?  Um fogão de lenha sobre um estrado de barro batido. Cinzas espalhadas pelo que restou da lenha preparando comida. 
Um vasilhame enegrecido de tempo e cinzas em cima do beiral da boca. Pedaços de telhas quebradas com a serventia de encobrir os restos da madeira e do carvão. Uma lona velha, de um azulado empoeirado, estendida ao lado para proteger da ventania e da chuva, como se ali a chuvarada até se esquecesse de chegar.
E, bem juntinho ao fogão adormecido, em cima da leveza das cinzas mortas, um galo sem pressa de nada. Sonolento, descompromissado com qualquer cantar. Apenas ali, apenas aí. Mais adiante uma meia-cerca de madeira velha, pedaços de paus levantados e arvoredos emoldurando a vida. Restos, tocos, troncos, pedaços espalhados ali e acolá.
Dos braços da madeira descem sacos, baldes, quinquilharias. Um saco que alguma serventia já teve no passado. Certamente um feijão batido, um milho despigado, uma alegria com qualquer colheita. Uma planta em caqueiro sem idade pende da madeira e desce num girau de quatro costados tortos. Talvez assim, nesse mesmo jeito e na mesma feição, dia após dia. 
O fogão de barro nem sempre é usado, somente quando a panelada é de demora em cozinhar. No barro do fogão a face da pedra. Até racha pelo fogo e pelo calor, mas nunca se esbagaça. Fogão de barro e lenha para muita serventia. Um quarto de bode para muita visita, uma feijoada pra família que chega, um cozido diferente para sair da rotina do mesmo prato do dia após dia. 
Abaixo de tudo a terra, o chão sertanejo como lastro de tudo, os passos fincados desde os tempos idos. Um chão entremeado de areia e pó, de terra e poeira, de aridez e barro batido pelo passo do tempo. Um chão que um dia foi caminho de Lampião e seu bando. Uma terra abrindo passagem para antigos caçadores, para vaqueiros e animais soltos e de cria, para os caminhos sertões adentro e mais além.
Sertões onde se espalhavam os umbuzeiros, as umburanas, as craibeiras, os marmeleiros, as quixabeiras, as catingueiras muitas, os tufos de pau. Tudo num tempo de mata e de floração ao longe. Sertões do nambu, do preá, da codorna, do caititu, do veado do mato, da seriema, da rolinha fogo-pagô, até da onça e do bicho grande. Rastros apenas perdidos nos idos, veredas de ninhadas e locas que já não existem mais. 
Certo que muito mudou e até a mata já escasseou. O bicho de caça sumiu de vez. A terra já não produz como antigamente. O desmatamento aumentou o calor e trouxe o sol para fazer moradia na varanda de cada um. 
A permanência na terra, contudo, é uma questão de amor sem igual. A obstinação pela terra, pela casinha de barro ou de qualquer sustentação, é uma opção amorosa para não deixar de acordar ainda na madrugada escurecida e adormecer com a noite ainda menina.
Nunca há riqueza de luxo, mas também em lugar nenhum é encontrada riqueza igual. O luxo e o prazer da vida ainda na paz, o contentamento de estar sentindo a terra aos pés e o bicho de cria roçando a mão. Um viver assim que Seu João de Laura sequer sonha em desapartar.
E tem gente que ainda diz que é casa de pobre. E tem gente que ainda olha pra tudo e quase renega o olhar. E tem gente que não sabe o que é a vida. E tem gente que não conhece o viver sertanejo. E tem gente que sequer reconhecer a grandeza - em toda singeleza e simplicidade - desse mundo sertão.

*Rangel Alves da Costa é advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com