O último tango de Bertolucci

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Bernardo Bertolucci, um homem de outro tempo
Bernardo Bertolucci, um homem de outro tempo

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Publicada em 27/11/2018 às 06:31:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Acabou-se o tempo de 
Bernardo Bertolucci. O 
cineasta genial, capaz de surpreender o espírito dos dias entre as quatro paredes de um apartamento, bem como o sujeito do século XX, desiludido do amor romântico, a mais popular de todas as utopias decadentes da burguesia ocidental. Agora, enterrado o macho moderno, membro em riste, sempre teso, resta a pergunta incômoda, sem manteiga, empurrada goela a baixo: Qual a serventia de um marmanjo, hoje?
Para o bem e para o mal, a inveja do falo foi soterrada pela emergência do espírito feminino. Não por acaso, antes de passar dessa pra melhor, o diretor italiano foi obrigado a confessar a sua culpa em relação aos traumas sofridos pela atriz Maria Schneider. Para todos os efeitos, a questão sodomita estava resolvida. 'O último tango em Paris' (1972), uma obra prima, afrontou ditaduras com um sopro erótico libertário. Mas nem por isso Bertolucci foi completamente perdoado.
Marlon Brando não teria hoje a menor chance. A postura rebelde, a segurança arrogante de quem adivinha o mundo inteiro aos próprios pés, não fazem nem cócegas no mulherio em guerra com o patriarcado. Sem direito a mandar flores, proibido de admirar uma mulher à queima roupa, de alto a baixo, o Romeo contemporâneo pouco pode, além de brochar sem pedir desculpas, chorar no cinema e assumir as tarefas domésticas, emasculado.
Na cena decisiva de 'Os sonhadores' (2003), último grande feito de Bertolucci, um coquetel molotov estilhaça as janelas de um apartamento no Quartier Latin, explodindo as afetações estéticas de três jovens encastelados sobre ideias vagas de beleza e participação política. Poderia ser eu, adormecido numa rede, surpreendido pelo gesto demolidor de um black bloc no Brasil pré "golpe". Poderia ser o próprio diretor, no ocaso da vida criativa, em acerto de contas com uma geração inteira, confrontado pelos fantasmas do passado.

Acabou-se o tempo de  Bernardo Bertolucci. O  cineasta genial, capaz de surpreender o espírito dos dias entre as quatro paredes de um apartamento, bem como o sujeito do século XX, desiludido do amor romântico, a mais popular de todas as utopias decadentes da burguesia ocidental. Agora, enterrado o macho moderno, membro em riste, sempre teso, resta a pergunta incômoda, sem manteiga, empurrada goela a baixo: Qual a serventia de um marmanjo, hoje?
Para o bem e para o mal, a inveja do falo foi soterrada pela emergência do espírito feminino. Não por acaso, antes de passar dessa pra melhor, o diretor italiano foi obrigado a confessar a sua culpa em relação aos traumas sofridos pela atriz Maria Schneider. Para todos os efeitos, a questão sodomita estava resolvida. 'O último tango em Paris' (1972), uma obra prima, afrontou ditaduras com um sopro erótico libertário. Mas nem por isso Bertolucci foi completamente perdoado.Marlon Brando não teria hoje a menor chance. A postura rebelde, a segurança arrogante de quem adivinha o mundo inteiro aos próprios pés, não fazem nem cócegas no mulherio em guerra com o patriarcado. Sem direito a mandar flores, proibido de admirar uma mulher à queima roupa, de alto a baixo, o Romeo contemporâneo pouco pode, além de brochar sem pedir desculpas, chorar no cinema e assumir as tarefas domésticas, emasculado.
Na cena decisiva de 'Os sonhadores' (2003), último grande feito de Bertolucci, um coquetel molotov estilhaça as janelas de um apartamento no Quartier Latin, explodindo as afetações estéticas de três jovens encastelados sobre ideias vagas de beleza e participação política. Poderia ser eu, adormecido numa rede, surpreendido pelo gesto demolidor de um black bloc no Brasil pré "golpe". Poderia ser o próprio diretor, no ocaso da vida criativa, em acerto de contas com uma geração inteira, confrontado pelos fantasmas do passado.