Revisitando um usineiro socialista

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Publicada em 08/12/2018 às 07:06:00

 

Pode um homem moldado pela sociedade patriarcal representativa da cultura dos engenhos, filho e neto de usineiros, ter se tornado socialista? Mesmo que a resposta seja negativa, quem há de negar que Orlando Dantas tenha sido a personificação mais bem acabada dessa metamorfose teoricamente impossível?
Nascido e criado no cenário atrasado de um engenho nordestino, e durante toda a vida proprietário de usina de cana-de-açúcar, Orlando Vieira Dantas foi um político nacionalista e, acima de tudo, um jornalista de posições intransigentes na defesa da economia de Sergipe e quase sempre radicais contra a ditadura e a opressão.
Fez da Gazeta de Sergipe a trincheira principal para seus embates e um campo aberto para a divulgação das variadas manifestações da sociedade. Foi, sem medo de errar, o principal nome da imprensa sergipana no século XX.
"Não se contentou Orlando Dantas na atuação de empresário progressista e bem sucedido. Buscou caminhos do jornalismo e da política, agindo de forma destemida e inconformada, denunciando as arbitrariedades do poder, as injustiças sociais, na defesa de um mundo mais justo e mais humano", assim escreveu certa vez a historiadora Maria Thetis Nunes.
Ela e a também professora da UFS Amy Adelina Coutinho de Faria Alves consideram Orlando Dantas um cientista social, autor de livros sobre a vida em engenhos de açúcar, dentre os quais destacam "A Vida Patriarcal de Sergipe". Mas, observam, ele era um usineiro, filho de senhor de engenho, que viveu com escravos emancipados e carregava raízes profundas da sociedade patriarcal.
GAZETA SOCIALISTA
Orlando Dantas nasceu no Engenho Palmeira, em Capela, e era filho de Manoel Corrêa Dantas, que foi presidente de Sergipe (1927-30). Ainda jovem começou a dirigir a Usina Vassouras, em Divina Pastora, depois Capela. Antes, em 1927, já demonstrava seus dotes jornalísticos-literários quando tentou fundar um jornal que pretendia chamar de "Gazeta de Sergipe", mas fracassou.
Em 1929, no governo do pai, já bem relacionado com os ferroviários, durante uma greve conseguiu evitar o confronto armado entre aqueles e a polícia. Em 1944, foi um dos fundadores do jornal "O Nordeste" e escreveu o livro "O Problema Açucareiro de Sergipe".
Em 1945, participou da fundação da Esquerda Democrática em Sergipe, pela qual se elegeu deputado estadual constituinte em 1946. Nesse mandato, teve coragem de protestar contra o fechamento do Partido Comunista. De 1951 a 1955, foi deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro, quando se notabilizou pelo forte nacionalismo.
Não só foi uma das vozes mais ativas na Câmara pela criação da Petrobras, como foi um dos responsáveis pela instituição do monopólio estatal do petróleo, só revogado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Em 1956, fundou a Gazeta Socialista, jornal que enfrentou forte resistência da elite sergipana, tendo à frente o PSD e até a UDN, que ele ajudou a fundar e na qual esteve abrigada a Esquerda Democrática antes de transformar-se em PSB.
Finalmente, em 1958, surge a Gazeta de Sergipe, primeiro jornal diário de Aracaju, após desvincular a Gazeta Socialista do Partido Socialista. Em 1962, Orlando Dantas apoiou a eleição de Seixas Dória ao governo de Sergipe e tornou-se um feroz crítico do regime militar depois que o governador foi deposto. Logo após o golpe, o jornal chegou a ser empastelado.
Mas cometeu sua mais grave contradição política ao filiar-se à Arena, partido do governo militar. Ibarê Dantas ("A Tutela Militar em Sergipe", 1997) registrou assim: "… depois de rejeitar em 1966 o convite para integrar o MDB, em 1969, no auge das repressões, o velho guerreiro da imprensa sergipana entrava no partido situacionista com a pretensão de renovar a política estadual. Em manifesto explicava ao povo sergipano: 'Escolhi a Arena (…) por julgar o processo político democrático mais consentâneo com os divergentes grupos do PSD, UDN e PR e pelas menores resistências às reformas impostas pela Revolução. Essa reforma possibilitará mudança de mentalidade política'".
Arrepende-se depois e nunca mais se filiou a outro partido político. Em 1974, publicou o livro "Política de Desenvolvimento de Sergipe". Em 1980, dois anos antes de morrer, num derradeiro ato de coragem, publicou o seu mais importante livro, "A Vida Patriarcal de Sergipe".
VIDA PATRIARCAL
O livro de Orlando Dantas - diga-se, autobiográfico - é praticamente escrito sobre exemplos da dominação masculina em Sergipe desde o período colonial. Ele reconstitui a árvore genealógica de sua família, lembrando que a tradição dos senhores de engenho tem origem na época dos primeiros portugueses que se instalaram nas terras de Sergipe para explorar a economia açucareira. Um capítulo é dedicado ao pai do autor, Manoel Correia Dantas, nascido no engenho Mouco, em Santa Rosa, distrito de Itabaiana, em 22 de dezembro de 1874, cunhado do senador José Luiz Coelho e Campos, que vinha a ser padrinho de Orlando.
Tentando se colocar no lugar do espectador, Orlando Dantas comete desvios. Ao contrário do que supunha, o patriarcalismo não é uma estrutura pretérita. O sociólogo espanhol Manuel Castells ("O Poder da Identidade", 1999) lembra que o "patriarcalismo é uma das estruturas sobre as quais se assentam todas as sociedades contemporâneas".
A socióloga feminista Heleieth Saffioti ("O Poder do Macho", 1987) chega a estabelecer uma simbiose do patriarcado com o racismo e o capitalismo que garante a permanência do primeiro: "… o patriarcado é o mais antigo sistema de dominação-exploração. Posteriormente, aparece o racismo, quando certos povos se lançam na conquista de outros, menos preparados para a guerra. Em muitas dessas conquistas, o sistema de dominação-exploração do homem sobre a mulher foi estendido aos povos vencidos. Desta sorte, não foi o capitalismo, sistema de dominação-exploração muitíssimo mais jovem que os outros dois, que 'inventou' o patriarcado e o racismo. (…) Com a emergência do capital, houve a simbiose, a fusão, entre os três sistemas de dominação-exploração".
Mas, a propósito, o sociólogo francês Pierre Bourdieu ("A Dominação Masculina Revisitada", 1998) observa que qualquer um pode cometer desvios ao tentar compreender o patriarcado. "Quando tentamos pensar a dominação masculina, corremos o risco de recorrer ou nos submeter a modos de pensamento que são, eles próprios, produtos de milênios de dominação masculina. Queiramos ou não, o analista, homem ou mulher, é parte e parcela do objeto que tenta compreender. Pois ele ou ela interiorizou, na forma de esquemas inconscientes de percepção ou apreciação, as estruturas sociais históricas da lei masculina".
O reparo vale como defesa de Orlando Dantas, alguém que como empresário, político, jornalista ou factótum de sociólogo teve coragem de remexer nas estruturas sobre as quais se criou e esteve assentado.
Contraditório, polêmico, um homem que viveu à frente do seu tempo, Orlando Vieira Dantas nasceu no dia 28 de setembro de 1900 e morreu em 9 de abril de 1982.

Marcos Cardoso

Pode um homem moldado pela sociedade patriarcal representativa da cultura dos engenhos, filho e neto de usineiros, ter se tornado socialista? Mesmo que a resposta seja negativa, quem há de negar que Orlando Dantas tenha sido a personificação mais bem acabada dessa metamorfose teoricamente impossível?
Nascido e criado no cenário atrasado de um engenho nordestino, e durante toda a vida proprietário de usina de cana-de-açúcar, Orlando Vieira Dantas foi um político nacionalista e, acima de tudo, um jornalista de posições intransigentes na defesa da economia de Sergipe e quase sempre radicais contra a ditadura e a opressão.
Fez da Gazeta de Sergipe a trincheira principal para seus embates e um campo aberto para a divulgação das variadas manifestações da sociedade. Foi, sem medo de errar, o principal nome da imprensa sergipana no século XX.
"Não se contentou Orlando Dantas na atuação de empresário progressista e bem sucedido. Buscou caminhos do jornalismo e da política, agindo de forma destemida e inconformada, denunciando as arbitrariedades do poder, as injustiças sociais, na defesa de um mundo mais justo e mais humano", assim escreveu certa vez a historiadora Maria Thetis Nunes.
Ela e a também professora da UFS Amy Adelina Coutinho de Faria Alves consideram Orlando Dantas um cientista social, autor de livros sobre a vida em engenhos de açúcar, dentre os quais destacam "A Vida Patriarcal de Sergipe". Mas, observam, ele era um usineiro, filho de senhor de engenho, que viveu com escravos emancipados e carregava raízes profundas da sociedade patriarcal.
GAZETA SOCIALISTA
Orlando Dantas nasceu no Engenho Palmeira, em Capela, e era filho de Manoel Corrêa Dantas, que foi presidente de Sergipe (1927-30). Ainda jovem começou a dirigir a Usina Vassouras, em Divina Pastora, depois Capela. Antes, em 1927, já demonstrava seus dotes jornalísticos-literários quando tentou fundar um jornal que pretendia chamar de "Gazeta de Sergipe", mas fracassou.
Em 1929, no governo do pai, já bem relacionado com os ferroviários, durante uma greve conseguiu evitar o confronto armado entre aqueles e a polícia. Em 1944, foi um dos fundadores do jornal "O Nordeste" e escreveu o livro "O Problema Açucareiro de Sergipe".
Em 1945, participou da fundação da Esquerda Democrática em Sergipe, pela qual se elegeu deputado estadual constituinte em 1946. Nesse mandato, teve coragem de protestar contra o fechamento do Partido Comunista. De 1951 a 1955, foi deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro, quando se notabilizou pelo forte nacionalismo.
Não só foi uma das vozes mais ativas na Câmara pela criação da Petrobras, como foi um dos responsáveis pela instituição do monopólio estatal do petróleo, só revogado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Em 1956, fundou a Gazeta Socialista, jornal que enfrentou forte resistência da elite sergipana, tendo à frente o PSD e até a UDN, que ele ajudou a fundar e na qual esteve abrigada a Esquerda Democrática antes de transformar-se em PSB.
Finalmente, em 1958, surge a Gazeta de Sergipe, primeiro jornal diário de Aracaju, após desvincular a Gazeta Socialista do Partido Socialista. Em 1962, Orlando Dantas apoiou a eleição de Seixas Dória ao governo de Sergipe e tornou-se um feroz crítico do regime militar depois que o governador foi deposto. Logo após o golpe, o jornal chegou a ser empastelado.
Mas cometeu sua mais grave contradição política ao filiar-se à Arena, partido do governo militar. Ibarê Dantas ("A Tutela Militar em Sergipe", 1997) registrou assim: "… depois de rejeitar em 1966 o convite para integrar o MDB, em 1969, no auge das repressões, o velho guerreiro da imprensa sergipana entrava no partido situacionista com a pretensão de renovar a política estadual. Em manifesto explicava ao povo sergipano: 'Escolhi a Arena (…) por julgar o processo político democrático mais consentâneo com os divergentes grupos do PSD, UDN e PR e pelas menores resistências às reformas impostas pela Revolução. Essa reforma possibilitará mudança de mentalidade política'".
Arrepende-se depois e nunca mais se filiou a outro partido político. Em 1974, publicou o livro "Política de Desenvolvimento de Sergipe". Em 1980, dois anos antes de morrer, num derradeiro ato de coragem, publicou o seu mais importante livro, "A Vida Patriarcal de Sergipe".
VIDA PATRIARCAL
O livro de Orlando Dantas - diga-se, autobiográfico - é praticamente escrito sobre exemplos da dominação masculina em Sergipe desde o período colonial. Ele reconstitui a árvore genealógica de sua família, lembrando que a tradição dos senhores de engenho tem origem na época dos primeiros portugueses que se instalaram nas terras de Sergipe para explorar a economia açucareira. Um capítulo é dedicado ao pai do autor, Manoel Correia Dantas, nascido no engenho Mouco, em Santa Rosa, distrito de Itabaiana, em 22 de dezembro de 1874, cunhado do senador José Luiz Coelho e Campos, que vinha a ser padrinho de Orlando.
Tentando se colocar no lugar do espectador, Orlando Dantas comete desvios. Ao contrário do que supunha, o patriarcalismo não é uma estrutura pretérita. O sociólogo espanhol Manuel Castells ("O Poder da Identidade", 1999) lembra que o "patriarcalismo é uma das estruturas sobre as quais se assentam todas as sociedades contemporâneas".
A socióloga feminista Heleieth Saffioti ("O Poder do Macho", 1987) chega a estabelecer uma simbiose do patriarcado com o racismo e o capitalismo que garante a permanência do primeiro: "… o patriarcado é o mais antigo sistema de dominação-exploração. Posteriormente, aparece o racismo, quando certos povos se lançam na conquista de outros, menos preparados para a guerra. Em muitas dessas conquistas, o sistema de dominação-exploração do homem sobre a mulher foi estendido aos povos vencidos. Desta sorte, não foi o capitalismo, sistema de dominação-exploração muitíssimo mais jovem que os outros dois, que 'inventou' o patriarcado e o racismo. (…) Com a emergência do capital, houve a simbiose, a fusão, entre os três sistemas de dominação-exploração".
Mas, a propósito, o sociólogo francês Pierre Bourdieu ("A Dominação Masculina Revisitada", 1998) observa que qualquer um pode cometer desvios ao tentar compreender o patriarcado. "Quando tentamos pensar a dominação masculina, corremos o risco de recorrer ou nos submeter a modos de pensamento que são, eles próprios, produtos de milênios de dominação masculina. Queiramos ou não, o analista, homem ou mulher, é parte e parcela do objeto que tenta compreender. Pois ele ou ela interiorizou, na forma de esquemas inconscientes de percepção ou apreciação, as estruturas sociais históricas da lei masculina".
O reparo vale como defesa de Orlando Dantas, alguém que como empresário, político, jornalista ou factótum de sociólogo teve coragem de remexer nas estruturas sobre as quais se criou e esteve assentado.
Contraditório, polêmico, um homem que viveu à frente do seu tempo, Orlando Vieira Dantas nasceu no dia 28 de setembro de 1900 e morreu em 9 de abril de 1982.