Choveu no sertão

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Publicada em 08/12/2018 às 07:11:00

 

*Rangel Alves da Costa
Choveu. Trovejou, relampejou e choveu. E mesmo não sendo muita e contínua, aos moldes da verdadeira trovoada, a chuvarada dos últimos dias desceu dos céus como milagre sobre a terra sertaneja. Como alguém fielmente relatou, um mundo novo, alegre e esperançoso, pareceu de repente surgir com as visões dos pingos caídos, dos riachos em cheias e dos tanques tomados de águas. 
Não há sertanejo que também não se inunde de encantamento ao se deparar com a chuvarada. O que parecia até impossível de acontecer, de repente desaba lá de riba como milagre e glória. Sinhá Zefinha desenterrou o São José fincado na terra de cabeça pra baixo. Gonçalinho deixou o velho chapéu de couro debaixo da goteira e depois bebeu daquela água no maior contentamento da vida. A meninada desandou nua a se banhar no molhado, enquanto mãos calejadas foram levantadas aos céus em gestos de profundo agradecimento.
Visões realmente de encantar. O sertanejo que toda manhã se desencanta ao abrir a porta e nada encontrar nos horizontes que lhe dê alento, que lhe traga esperança em forma de chuva, de repente sentir o cheiro do barrufo forte subindo pelo ar e presenciar os gotejamentos das nuvens por todo lugar. Como diz o outro, não sabe nem o que fazer, pois não sabe se reza em agradecimento, se pula, se corre pelos descampados, se rola feito bicho feliz pelo chão empoçado.
Sempre o outro lado do sofrimento. O Eclesiastes que surge mostrando um tempo de alegria. Chuvarada mais que esperada, desejada e providencial. No mundo-sertão, a certeza da ação divina que nunca desampara os seus. Um remédio na hora certa para curar, ou ao menos amenizar, os males que já colocavam em risco a vida de muitos: homem, terra, bicho. Tudo já se prostrando de vez, já sem forças e sem poder de reação ante as agruras causadas pelas fornalhas ensolaradas.
O sertão estava sofrido demais, padecente demais, entristecido demais. O sertão estava nu, ossudo, esfarrapado, magricela, feio, mendigo, indigente, faminto, de cuia à mão. O sertão estava ajoelhado, submisso, ao deus-dará. O sertão estava cabisbaixo, esmorecido, numa fragilidade de causar clemência e comoção. Um povo tão forte e tão lutador, uma gente tão desejosa de trabalho e pão, mas desde muito forçado às submissões das carências.
Ora, mas que se negue que uma estiagem apenas prolongada leve o homem à desvalia, que se negue tamanha pobreza naqueles que não se ajoelharam em prantos nem afastaram de si os planos e sonhos. Que se diga que o sertanejo não esmola pelas esquinas nem vai batendo de porta em porta pedindo um tiquinho de "de comer". Que se diga que ele jamais se prostrou faminto e desesperançado. Mas há indigência maior que a falta de chuvas, que a seca grande e pavorosa?
Contradições, talvez. Ironia do tempo, talvez. Mas é a chuva e não a seca que deve ser tida como normalidade no sertão. A gente e o bicho não se alimentam nem bebem da terra seca, não sobrevivem na fogueira da vida, não se sustentam apenas na secura e na sequidão. A seca sempre vem, todo sertanejo sabe disso e até se prepara para esperá-la, mas ele se sustenta e ama a terra pelo que ela possa oferecer, jamais pelo que lhe retira. E se ama o sertão, se vive em pacto de vida e morte com o sertão, é por que confia na sua retribuição.
O homem da terra sempre soube dos limites do seu lar sertanejo. A grandeza que quer é o da existência. A riqueza que quer é a da subsistência. Sempre foi assim. Tendo chuva, tendo chão molhado, tendo água no barreiro, tendo palma e planta rasteira para o bicho se alimentar, no restante tudo se dá um jeito. Comida pouca não é problema, feira de bocadinho não é problema, calça rasgada ou chinelo sem sola, nada disso aflige tanto o homem da terra como a feiura da estiagem.
A chuva que caiu nos últimos dias foi como uma alegria maior. Certamente que os problemas não acabaram com as águas juntadas, com o chão empoçado, com a paisagem verdejante surgida. As carências nunca deixam de existir, mas ao menos não haverá a lastimosa continuidade da indigência existencial de homem e bicho. Homem empobrecido pela desvalia do tempo e bicho depauperado pelo tempo desvalido.
A fuga dessa indigência existencial é tudo o que o sertanejo tanto espera e precisa. Nada mais doloroso que saber que nada mais resta como alimento ao bicho de cria, do que saber que vai ter de se humilhar ao político para ter um pouco d'água, de ouvir o berro, o mugido e o mugido e nada poder fazer. E agora, com a fuga temporária à submissão e ao temor, deseja apenas que as nuvens prenhes continuem rondando o seu mundo e que as chuvaradas novamente caiam sem pressa.
Um mundo molhado, embebido de água e de fé. É esta a feição de mundo tanto almejado pelo sertão e o sertanejo.
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Choveu. Trovejou, relampejou e choveu. E mesmo não sendo muita e contínua, aos moldes da verdadeira trovoada, a chuvarada dos últimos dias desceu dos céus como milagre sobre a terra sertaneja. Como alguém fielmente relatou, um mundo novo, alegre e esperançoso, pareceu de repente surgir com as visões dos pingos caídos, dos riachos em cheias e dos tanques tomados de águas. 
Não há sertanejo que também não se inunde de encantamento ao se deparar com a chuvarada. O que parecia até impossível de acontecer, de repente desaba lá de riba como milagre e glória. Sinhá Zefinha desenterrou o São José fincado na terra de cabeça pra baixo. Gonçalinho deixou o velho chapéu de couro debaixo da goteira e depois bebeu daquela água no maior contentamento da vida. A meninada desandou nua a se banhar no molhado, enquanto mãos calejadas foram levantadas aos céus em gestos de profundo agradecimento.
Visões realmente de encantar. O sertanejo que toda manhã se desencanta ao abrir a porta e nada encontrar nos horizontes que lhe dê alento, que lhe traga esperança em forma de chuva, de repente sentir o cheiro do barrufo forte subindo pelo ar e presenciar os gotejamentos das nuvens por todo lugar. Como diz o outro, não sabe nem o que fazer, pois não sabe se reza em agradecimento, se pula, se corre pelos descampados, se rola feito bicho feliz pelo chão empoçado.
Sempre o outro lado do sofrimento. O Eclesiastes que surge mostrando um tempo de alegria. Chuvarada mais que esperada, desejada e providencial. No mundo-sertão, a certeza da ação divina que nunca desampara os seus. Um remédio na hora certa para curar, ou ao menos amenizar, os males que já colocavam em risco a vida de muitos: homem, terra, bicho. Tudo já se prostrando de vez, já sem forças e sem poder de reação ante as agruras causadas pelas fornalhas ensolaradas.
O sertão estava sofrido demais, padecente demais, entristecido demais. O sertão estava nu, ossudo, esfarrapado, magricela, feio, mendigo, indigente, faminto, de cuia à mão. O sertão estava ajoelhado, submisso, ao deus-dará. O sertão estava cabisbaixo, esmorecido, numa fragilidade de causar clemência e comoção. Um povo tão forte e tão lutador, uma gente tão desejosa de trabalho e pão, mas desde muito forçado às submissões das carências.
Ora, mas que se negue que uma estiagem apenas prolongada leve o homem à desvalia, que se negue tamanha pobreza naqueles que não se ajoelharam em prantos nem afastaram de si os planos e sonhos. Que se diga que o sertanejo não esmola pelas esquinas nem vai batendo de porta em porta pedindo um tiquinho de "de comer". Que se diga que ele jamais se prostrou faminto e desesperançado. Mas há indigência maior que a falta de chuvas, que a seca grande e pavorosa?
Contradições, talvez. Ironia do tempo, talvez. Mas é a chuva e não a seca que deve ser tida como normalidade no sertão. A gente e o bicho não se alimentam nem bebem da terra seca, não sobrevivem na fogueira da vida, não se sustentam apenas na secura e na sequidão. A seca sempre vem, todo sertanejo sabe disso e até se prepara para esperá-la, mas ele se sustenta e ama a terra pelo que ela possa oferecer, jamais pelo que lhe retira. E se ama o sertão, se vive em pacto de vida e morte com o sertão, é por que confia na sua retribuição.
O homem da terra sempre soube dos limites do seu lar sertanejo. A grandeza que quer é o da existência. A riqueza que quer é a da subsistência. Sempre foi assim. Tendo chuva, tendo chão molhado, tendo água no barreiro, tendo palma e planta rasteira para o bicho se alimentar, no restante tudo se dá um jeito. Comida pouca não é problema, feira de bocadinho não é problema, calça rasgada ou chinelo sem sola, nada disso aflige tanto o homem da terra como a feiura da estiagem.
A chuva que caiu nos últimos dias foi como uma alegria maior. Certamente que os problemas não acabaram com as águas juntadas, com o chão empoçado, com a paisagem verdejante surgida. As carências nunca deixam de existir, mas ao menos não haverá a lastimosa continuidade da indigência existencial de homem e bicho. Homem empobrecido pela desvalia do tempo e bicho depauperado pelo tempo desvalido.
A fuga dessa indigência existencial é tudo o que o sertanejo tanto espera e precisa. Nada mais doloroso que saber que nada mais resta como alimento ao bicho de cria, do que saber que vai ter de se humilhar ao político para ter um pouco d'água, de ouvir o berro, o mugido e o mugido e nada poder fazer. E agora, com a fuga temporária à submissão e ao temor, deseja apenas que as nuvens prenhes continuem rondando o seu mundo e que as chuvaradas novamente caiam sem pressa.
Um mundo molhado, embebido de água e de fé. É esta a feição de mundo tanto almejado pelo sertão e o sertanejo.

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com