Inferno nas redes

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Publicada em 11/12/2018 às 06:00:00

 

* Antonio Passos
Lançado em 1974, o filme norte-americano "Inferno na Torre" foi muito badalado aqui no Brasil. A produção mostra o desespero de pessoas presas nos mais altos andares de um arranha-céu em chamas. Quando eu estava rabiscando este texto me veio a inspiração no título do velho filme, daí "Inferno nas redes".
Porém, aqui, o tema não será o mesmo mostrado no clássico do Cine Catástrofe. Não tratarei de carne humana queimando. No máximo, imagino "cabeças fumegando" sob o fogo cruzado da nova modalidade de aporrinhação que se instaurou entre nós: a explosão da comunicação nas redes sociais.
Esta semana um amigo me enviou uma postagem pelo WhatsApp: umas vinte fotos de Dubai. Edifícios gigantescos, carros luxuosos e outros taras consumistas... Fiquei olhando as imagens, um tanto espantado e pensando: por que ele enviou logo para mim? Que mal eu teria feito ao amigo para merecer aquilo?
Não é nada disso. As pessoas não postam coisas para as outras, de modo geral, para ofender. Posta-se nas redes sociais pelos mais variados motivos e até sem eles. Posta-se por se acreditar que todos acharão interessante aquilo que me agrada. Posta-se para fugir de outras atividades, para matar o tempo...
Mas o terrível, para mim, é que considero uma falta de atenção receber uma mensagem e não responder, nem que seja com uma mãozinha fazendo o sinal de "joia" ou outro qualquer. E o que dizer diante das fotos de Dubai? Eureca! A frase me veio pronta e eu a enviei: "Então é aí onde estão torrando os recursos do planeta."
Ah! Mas se fossem só as vinte fotos de Dubai… Não é assim, todo mundo sabe. Primeiro você baixa o aplicativo e cadastra algumas pessoas. Depois a lista não para mais de crescer e começam os grupos: amiguinhos do jardim de infância, a família, equipes de trabalho, a galera que avisa onde tem blitz e por aí vai…
Quando você menos percebe está afundado numa tsunami diária de mensagens de bom dia, boa tarde, boa noite, durma bem e tudo o mais. Há também as postagens de autoajuda e os conselhos alheios. Essas e esses não param nunca. Mesmo se você desligar o celular elas continuam entupindo seu aparelho.
Além de tudo, a avalanche de mensagens é capaz de enlouquecer qualquer um que se deixe impressionar pelo que sugerem. De manhã dizem para você pular da cama e enfrentar a vida com a fúria de um guerreiro, mais tarde afirmam que só é feliz quem se afasta dos conflitos e cultiva a serenidade. Coisa de doido!
E os corações, as flores e os passarinhos? A música pasteurizada de André Rieu? E as mensagens em nome de Deus? Se a divindade tivesse um celular e recebesse todas as postagens feitas diariamente pelos brasileiros, não tenho dúvida de que o Brasil seria o paraíso na terra. Porém, não é o que parece acontecer.
As redes sociais também geram piadas e conversa fiada. Ouvi esta: um cara andava insistindo muito para ter acesso ao WhatsApp de uma garota. Era um paquerador sedento e já dispunha de uma abundante lista, porém, aquela mulher não dava a ele a menor bola. Por mais que ele pedisse o número, ela negava.
Conversa vai, conversa vem e o cara fez uma promessa: garantiu que nunca, em hipótese alguma, postaria mais de 15 mensagens por dia para a garota. No primeiro dia, após ela ceder, ele enviou 22. Ela reclamou e ele respondeu: "Você me deu seu número, certo? Aquilo lá era uma situação, agora é outra."
É mole?
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Lançado em 1974, o filme norte-americano "Inferno na Torre" foi muito badalado aqui no Brasil. A produção mostra o desespero de pessoas presas nos mais altos andares de um arranha-céu em chamas. Quando eu estava rabiscando este texto me veio a inspiração no título do velho filme, daí "Inferno nas redes".
Porém, aqui, o tema não será o mesmo mostrado no clássico do Cine Catástrofe. Não tratarei de carne humana queimando. No máximo, imagino "cabeças fumegando" sob o fogo cruzado da nova modalidade de aporrinhação que se instaurou entre nós: a explosão da comunicação nas redes sociais.
Esta semana um amigo me enviou uma postagem pelo WhatsApp: umas vinte fotos de Dubai. Edifícios gigantescos, carros luxuosos e outros taras consumistas... Fiquei olhando as imagens, um tanto espantado e pensando: por que ele enviou logo para mim? Que mal eu teria feito ao amigo para merecer aquilo?
Não é nada disso. As pessoas não postam coisas para as outras, de modo geral, para ofender. Posta-se nas redes sociais pelos mais variados motivos e até sem eles. Posta-se por se acreditar que todos acharão interessante aquilo que me agrada. Posta-se para fugir de outras atividades, para matar o tempo...
Mas o terrível, para mim, é que considero uma falta de atenção receber uma mensagem e não responder, nem que seja com uma mãozinha fazendo o sinal de "joia" ou outro qualquer. E o que dizer diante das fotos de Dubai? Eureca! A frase me veio pronta e eu a enviei: "Então é aí onde estão torrando os recursos do planeta."
Ah! Mas se fossem só as vinte fotos de Dubai… Não é assim, todo mundo sabe. Primeiro você baixa o aplicativo e cadastra algumas pessoas. Depois a lista não para mais de crescer e começam os grupos: amiguinhos do jardim de infância, a família, equipes de trabalho, a galera que avisa onde tem blitz e por aí vai…
Quando você menos percebe está afundado numa tsunami diária de mensagens de bom dia, boa tarde, boa noite, durma bem e tudo o mais. Há também as postagens de autoajuda e os conselhos alheios. Essas e esses não param nunca. Mesmo se você desligar o celular elas continuam entupindo seu aparelho.
Além de tudo, a avalanche de mensagens é capaz de enlouquecer qualquer um que se deixe impressionar pelo que sugerem. De manhã dizem para você pular da cama e enfrentar a vida com a fúria de um guerreiro, mais tarde afirmam que só é feliz quem se afasta dos conflitos e cultiva a serenidade. Coisa de doido!
E os corações, as flores e os passarinhos? A música pasteurizada de André Rieu? E as mensagens em nome de Deus? Se a divindade tivesse um celular e recebesse todas as postagens feitas diariamente pelos brasileiros, não tenho dúvida de que o Brasil seria o paraíso na terra. Porém, não é o que parece acontecer.
As redes sociais também geram piadas e conversa fiada. Ouvi esta: um cara andava insistindo muito para ter acesso ao WhatsApp de uma garota. Era um paquerador sedento e já dispunha de uma abundante lista, porém, aquela mulher não dava a ele a menor bola. Por mais que ele pedisse o número, ela negava.
Conversa vai, conversa vem e o cara fez uma promessa: garantiu que nunca, em hipótese alguma, postaria mais de 15 mensagens por dia para a garota. No primeiro dia, após ela ceder, ele enviou 22. Ela reclamou e ele respondeu: "Você me deu seu número, certo? Aquilo lá era uma situação, agora é outra."
É mole?

* Antonio Passos é jornalista