Sertão, força e fé

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Publicada em 19/12/2018 às 09:02:00

 

*Rangel Alves da Costa
O sertanejo sempre cultivou fervo-
rosa religiosidade. Seja na cidade 
ou no campo, na casa arrumada ou na tapera, dificilmente não se encontram as mais singelas demonstrações de fé. O anúncio na entrada dizendo que Deus protege a casa, retratos e imagens de santos, vela acesa, o antigo oratório como miniatura do céu. Além, logicamente, da devoção presente em cada coração.
Lugar de beatices, fanatismos, promessas e devotamentos, o sertão é a síntese de uma religiosidade que não existe mais noutros lugares. A devoção é tamanha que nenhum tipo de sofrimento - seca, fome, sede, miséria - é imaginado como falta de piedade divina. E sim como culpa do próprio homem enquanto pecador e suas desastrosas ações sobre a terra.
Nos momentos mais difíceis, naqueles períodos em que a desolação toma conta dos quadrantes esturricados pelo sol escaldante, ainda assim é na religiosidade que se apegam na esperança de dias melhores. Então se avolumam as rezas e as promessas, os terços e rosários ficam mais desgastados, os joelhos se dobram com muito mais devoção e fervor.
Quanto mais humildes, pobres e calejados são os sertanejos, mais se entregam aos poderes de Deus, à força dos santos e dos anjos bons e a tudo que, sob o manto da religiosidade, elevem sua fé, sua proteção diante das dificuldades da vida e a sempre alentada esperança de salvação eterna. Muitos ainda possuem o jejum como obrigação, combatem fervorosamente os pecados mundanos, vivem segundo ordena cada conta de seu terço de todo dia.
Assim se expressa a religiosidade de um povo que, ao lado dos cultos oficiais, também se lança entusiasticamente na adoração de outros dois principais protetores, ou santos nordestinos, como preferem dizer: Padim Ciço, o Padre Cícero Romão Batista, e Frei Damião, o missionário e milagroso capuchinho. Em muitas casas e casebres, ainda que sobre a velha mesa não exista qualquer jarro barato de enfeite, será possível afastar as duas imagens dos dois santos sertanejos. 
E um sertanejo entristecido pelo sol de mais de ano, vendo tudo esturricar ao redor, ouvindo o mugir do gado faminto e sedento, subiu numa montanha, fez uma oração em constrição aflitiva, depois levou à boca o berrante, deu uns três sopros dolentemente ritmados, e em seguida começou a aboiar. Expressava seu aboio triste como se estivesse declamando para o horizonte ressequido ouvir:
E entoando seu canto triste soltava suas angústias e esperanças, dizendo: Bem-aventurados os pobres sertanejos, porque deles é esse sertão injustiçado, mas glorificado pelo Senhor. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados, terão chuva em abundância, colheita com toda fartura, comida sobre a mesa e alegria no coração.
Bem-aventurados os mansos, os pacientes, os que não se desesperam diante do sofrimento, porque herdarão a terra, e uma terra molhada, com grão semeado e a força de cada um para remover a terra até dela sair o broto, o fruto e o significado da vida do sertão e do sertanejo.
Bem-aventurados os que têm fome e sede não só de Justiça, mas também de clemência das autoridades, do olhar piedoso dos governantes, de compreensão de quem desconhece essa vida e de quem vê tudo isso e se faz de fingido. Porque precisamos também ser fartos dessas coisas que o mundo pode oferecer.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão a Misericórdia, pois mesmo na terra seca semeamos a bondade, no chão ressecado da lagoa semeamos a esperança, no irmão desconhecido semeamos a amizade, e nos nosso corpo enfraquecido semeamos a prece e a oração, com a certeza de que Deus não nos faltará.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a face e Deus, e assim é o coração sertanejo, na sua vida para o trabalho, na sua lide sem mágoa, na sua vontade de sempre doar, ajudar o irmão. E se não faz aquilo que não pode é porque também está semeando para um dia fazer muito mais.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. E é por isso que o manto da paz se estende sertão adentro, lavando com as águas do tempo o sangue inocente que escorre e fazendo desse sal da vida um chamando para que vivamos em paz e comunhão.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição dos poderosos, das autoridades, dos governantes, daqueles que deveriam ser a mão estendida e se comportam como algozes, pois o pequeno Davi matuto derruba com o sopro da força divina todo aquele que nos olha com o olhar de Golias.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem, perseguirem e mentirem, dizendo todo mal contra vós por causa do Senhor. Não, não nos farão trocar nossa fé pelas promessas mundanas nem nosso Deus por ídolos sem altares, pois em cada barraco de taipa há uma imensa igreja e dentro dela um céu também de barro e com anjos nus, e ainda assim sorridentes e felizes.
Então exultai e alegrai-vos irmãos sertanejos, porque é grande a glória que descerá dos céus, porque de sede e de fome também sofreram os profetas que vieram antes de nós.
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

O sertanejo sempre cultivou fervo- rosa religiosidade. Seja na cidade  ou no campo, na casa arrumada ou na tapera, dificilmente não se encontram as mais singelas demonstrações de fé. O anúncio na entrada dizendo que Deus protege a casa, retratos e imagens de santos, vela acesa, o antigo oratório como miniatura do céu. Além, logicamente, da devoção presente em cada coração.
Lugar de beatices, fanatismos, promessas e devotamentos, o sertão é a síntese de uma religiosidade que não existe mais noutros lugares. A devoção é tamanha que nenhum tipo de sofrimento - seca, fome, sede, miséria - é imaginado como falta de piedade divina. E sim como culpa do próprio homem enquanto pecador e suas desastrosas ações sobre a terra.
Nos momentos mais difíceis, naqueles períodos em que a desolação toma conta dos quadrantes esturricados pelo sol escaldante, ainda assim é na religiosidade que se apegam na esperança de dias melhores. Então se avolumam as rezas e as promessas, os terços e rosários ficam mais desgastados, os joelhos se dobram com muito mais devoção e fervor.
Quanto mais humildes, pobres e calejados são os sertanejos, mais se entregam aos poderes de Deus, à força dos santos e dos anjos bons e a tudo que, sob o manto da religiosidade, elevem sua fé, sua proteção diante das dificuldades da vida e a sempre alentada esperança de salvação eterna. Muitos ainda possuem o jejum como obrigação, combatem fervorosamente os pecados mundanos, vivem segundo ordena cada conta de seu terço de todo dia.
Assim se expressa a religiosidade de um povo que, ao lado dos cultos oficiais, também se lança entusiasticamente na adoração de outros dois principais protetores, ou santos nordestinos, como preferem dizer: Padim Ciço, o Padre Cícero Romão Batista, e Frei Damião, o missionário e milagroso capuchinho. Em muitas casas e casebres, ainda que sobre a velha mesa não exista qualquer jarro barato de enfeite, será possível afastar as duas imagens dos dois santos sertanejos. 
E um sertanejo entristecido pelo sol de mais de ano, vendo tudo esturricar ao redor, ouvindo o mugir do gado faminto e sedento, subiu numa montanha, fez uma oração em constrição aflitiva, depois levou à boca o berrante, deu uns três sopros dolentemente ritmados, e em seguida começou a aboiar. Expressava seu aboio triste como se estivesse declamando para o horizonte ressequido ouvir:
E entoando seu canto triste soltava suas angústias e esperanças, dizendo: Bem-aventurados os pobres sertanejos, porque deles é esse sertão injustiçado, mas glorificado pelo Senhor. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados, terão chuva em abundância, colheita com toda fartura, comida sobre a mesa e alegria no coração.
Bem-aventurados os mansos, os pacientes, os que não se desesperam diante do sofrimento, porque herdarão a terra, e uma terra molhada, com grão semeado e a força de cada um para remover a terra até dela sair o broto, o fruto e o significado da vida do sertão e do sertanejo.
Bem-aventurados os que têm fome e sede não só de Justiça, mas também de clemência das autoridades, do olhar piedoso dos governantes, de compreensão de quem desconhece essa vida e de quem vê tudo isso e se faz de fingido. Porque precisamos também ser fartos dessas coisas que o mundo pode oferecer.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão a Misericórdia, pois mesmo na terra seca semeamos a bondade, no chão ressecado da lagoa semeamos a esperança, no irmão desconhecido semeamos a amizade, e nos nosso corpo enfraquecido semeamos a prece e a oração, com a certeza de que Deus não nos faltará.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a face e Deus, e assim é o coração sertanejo, na sua vida para o trabalho, na sua lide sem mágoa, na sua vontade de sempre doar, ajudar o irmão. E se não faz aquilo que não pode é porque também está semeando para um dia fazer muito mais.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. E é por isso que o manto da paz se estende sertão adentro, lavando com as águas do tempo o sangue inocente que escorre e fazendo desse sal da vida um chamando para que vivamos em paz e comunhão.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição dos poderosos, das autoridades, dos governantes, daqueles que deveriam ser a mão estendida e se comportam como algozes, pois o pequeno Davi matuto derruba com o sopro da força divina todo aquele que nos olha com o olhar de Golias.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem, perseguirem e mentirem, dizendo todo mal contra vós por causa do Senhor. Não, não nos farão trocar nossa fé pelas promessas mundanas nem nosso Deus por ídolos sem altares, pois em cada barraco de taipa há uma imensa igreja e dentro dela um céu também de barro e com anjos nus, e ainda assim sorridentes e felizes.
Então exultai e alegrai-vos irmãos sertanejos, porque é grande a glória que descerá dos céus, porque de sede e de fome também sofreram os profetas que vieram antes de nós.

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com