João de Deus

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Publicada em 28/12/2018 às 06:04:00

 

* Lelê Teles
Deus é a mais perfeita criação do homem. O homem, a mais imperfeita das criaturas de Deus.
O homem e a mulher são as únicas criaturas do planeta que compreendem os mandamentos divinos, e as únicas que os subvertem descaradamente.
Os animais, veja que curioso, não precisaram inventar um deus, pois já vivem em equilíbrio e harmonia.
Vai lendo.
No ano passado, um casal estava em desequilíbrio emocional e o lar em desarmonia. Os dois decidiram pedir ajuda espiritual ao famoso Guru das Celebridades, um certo Sri Prem Baba, uma caricatura arquetípica e clichê: bata branca, fala mansa, cabelos longos, longas barbas encanecidas.
Baba receitou o infalível tantra.
E passou a praticar sexo tântrico com a esposa do infeliz. Dois meses se passaram entre mantras e tantras e o casal continuou em desarmonia. Só aí esposa e marido perceberam que Baba estava cometendo abuso sexual a pretexto de profilática terapia holística.
Caiu a máscara do guru. Surgiram outra vítimas: esposas e maridos.
Amigas e amigos exotéricos mostraram-se surpresos. Eu não.
Desde que o mundo é mundo, espertalhões, charlatães e falsários se travestem de padres, pastores, bispos, quimbandas, feiticeiros, cartomantes, monges, xamãs e afins, para se aproveitarem da fragilidade emocional das pessoas.
Você sabe, não é fácil falar com Deus, não é só ajoelhar, juntar as mãos, fechar os olhos e orar. O deus urbano é cheio de burocracias. É por isso que as pessoas apelam para esses mediadores.
O sacerdote é, portanto, uma mescla de hermeneuta e hierofante, representa o papel de intermediário entre o homem e a Transcendência.
E em nome de deus, muitos, fazem o diabo.
Damares Goiabeira, a pastora e ministra bolsonarista, disse que foi estuprada por um pastor aos dez anos de idade.
Em São João do Meriti, Baixada Fluminense, um certo pastor Marcos Pereira foi preso após estuprar diversas fiéis. O tarado promovia bacantes orgias e chegou a ter um médico particular para fazer aborto em suas vítimas.
Em Curitiba, um médium foi acusado de simular poderes mediúnicos enquanto abusava sexualmente de homens e mulheres.
Já na Indonésia uma garota de 13 anos foi levada pela família até um xamã de nome Jago. O falsário raptou a garotinha, a levou para uma caverna e a estuprou durante 15 anos. Só o prenderam agora.
Nos Estados Unidos, o mestre zen-budista japonês Joshu Sasaki foi acusado de abuso sexual, o que chocou o mundo; mas ele não estava só, em seguida veio uma enxurrada de denúncias feitas vítimas sexuais dos zen-budistas.
Na China, budistas também andaram barbarizando.
Shi Xuencheng, veja essa, liderava um dos monastérios mais importantes de seu país, até ser acusado de assédio psicológico e sexual por várias monjas.
Xuengue aplicava a mesma técnica do Prem Baba, sexo tântrico.
Porém, era o busdista quem procurava suas vítimas, solteiras e celibatárias, e era ele quem as fragilizava para depois curar suas fragilidades.
Usava como tática de abordagem o sexting, e a técnica era tuitar pornografia, inculcando nas donzelas a mística mítica de que o tantra ajuda no controle da mente e na purificação espiritual.
No Tibet e na Tailândia passaram a pipocar acusações contra monges, e uma campanha mundial veio à rede com a tag #MeTooGuru.
Shogyal Lakar Rimpoche, uma espécie de lama reencarnado, gostava de hotéis luxuosos, charutos, comida à farta e garotas na flor da idade.
Longe de ser uma criatura mansa e dócil, Shogyal era um machão abusador que batia, gritava e humilhava suas vítimas.
O arauto de araque dizia que tudo isso ajudava desformatar o ego e trazia alívio espiritual.
O Dalai Lama foi provocado e afirmou saber dessas taradices desde os anos 90. Mas nada fez para refrear os sexólatras que estão sob sua liderança.
Bergoglio, o argentino simpático que lidera a igreja católica, se vê na mesma na mesma sinuca de bico em que se meteu o Dalai Lama. Alguns de seus liderados andam a fornicar de forma criminosa.
Porém, se Prem Baba tinha tara por mulheres casadas e os monges abusavam de celibatárias, os padres parecem preferir menino homem.
Sim, minha senhora, não são os comunistas que comem criancinhas, são os padres.
O caso dos padres pedófilos ainda carece de um estudo mais aprofundado.
E não serve o argumento de que o celibato cria esses distúrbios, que a proibição aumenta o desejo etc.
Porque pra descelibatar, os padres nem precisavam agir como os monges ou os gurus tarados, não faltam beatas - viúvas, casadas, solteiras ou jovens - querendo quebrar o celibato dos padres bonitões.
Esses padres poderiam, ainda, entrar no Tinder, contratar um serviço de prostitutas, cantar alguém no confessionário...
Até agora não vi um estudo convincente que explique essa fixação por meninos.
Como se vê, o caso do João de Deus, ou o ocaso de João de Deus, não é um fato isolado. Há canalhas nas mais diversas religiões, como há canalhas nos mais diversos segmentos sociais.
Os tarados são diretores, atores, cantores, policiais, médicos, professores, homens de bens, cidadãos acima de qualquer suspeita e pais de família exemplar.
O fato de que esses machos brancos só agora estejam sendo expostos ä execração pública mostra o quanto a falsa imagem do negão estuprador, criada pelo cinema, os beneficiou.
Desde que David Griffith lançou, em 1915, o seminal O Nascimento de uma Nação, onde uma garotinha branca é perseguida por um tarado de black face - preferindo se atirar de cabeça de um penhasco rochoso para não ser violentada por aquele animal - que os negros são negativamente sexualizados no cinema.
No filme Bonitinha, Mas Ordinária, a personagem interpretada por Lucélia Santos simula um estupro contra si mesma e contrata para estuprá-la, veja que curioso, um grupo de negros.
Enquanto eles a "estupram" ela sorri e grita na cara deles, como se os xingasse: "negro, negro..."
A imagem do negro como um violador sexual é tão forte que até os homens temem o Negão Estuprador que miticamente existe em cada cela de cada penitenciária deste país.
Sabemos que mais de 70% dos estupros ocorrem em ambientes fechados ou domésticos.
As adolescentes são a maioria das vítimas.
O estuprador não aquele negão mal encarado que fica escondido atrás de uma parede numa rua escura, ele pode ser o pediatra da sua filha, ou o ginecologista dela.
O professor de ginástica, o guia espiritual da sua esposa, o pastor da igreja da sua tia...
E não se esquema, o macho branco fez da violência sexual um troço institucionalizado no Brasil Colônia. O estupro contra mulheres escravizadas chegou mesmo a ser aplaudido como uma política de miscigenação.
Esse costume foi adaptado às casas de família onde patrões e filhos de patrões abusam de suas domésticas.
O estupro e o assédio sexual não são casos isolados, são uma verdadeira epidemia, e seus autores precisam ser denunciados e punidos.
Palavra da salvação.
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista

* Lelê Teles

Deus é a mais perfeita criação do homem. O homem, a mais imperfeita das criaturas de Deus.
O homem e a mulher são as únicas criaturas do planeta que compreendem os mandamentos divinos, e as únicas que os subvertem descaradamente.
Os animais, veja que curioso, não precisaram inventar um deus, pois já vivem em equilíbrio e harmonia.
Vai lendo.
No ano passado, um casal estava em desequilíbrio emocional e o lar em desarmonia. Os dois decidiram pedir ajuda espiritual ao famoso Guru das Celebridades, um certo Sri Prem Baba, uma caricatura arquetípica e clichê: bata branca, fala mansa, cabelos longos, longas barbas encanecidas.
Baba receitou o infalível tantra.
E passou a praticar sexo tântrico com a esposa do infeliz. Dois meses se passaram entre mantras e tantras e o casal continuou em desarmonia. Só aí esposa e marido perceberam que Baba estava cometendo abuso sexual a pretexto de profilática terapia holística.
Caiu a máscara do guru. Surgiram outra vítimas: esposas e maridos.
Amigas e amigos exotéricos mostraram-se surpresos. Eu não.
Desde que o mundo é mundo, espertalhões, charlatães e falsários se travestem de padres, pastores, bispos, quimbandas, feiticeiros, cartomantes, monges, xamãs e afins, para se aproveitarem da fragilidade emocional das pessoas.
Você sabe, não é fácil falar com Deus, não é só ajoelhar, juntar as mãos, fechar os olhos e orar. O deus urbano é cheio de burocracias. É por isso que as pessoas apelam para esses mediadores.
O sacerdote é, portanto, uma mescla de hermeneuta e hierofante, representa o papel de intermediário entre o homem e a Transcendência.
E em nome de deus, muitos, fazem o diabo.
Damares Goiabeira, a pastora e ministra bolsonarista, disse que foi estuprada por um pastor aos dez anos de idade.
Em São João do Meriti, Baixada Fluminense, um certo pastor Marcos Pereira foi preso após estuprar diversas fiéis. O tarado promovia bacantes orgias e chegou a ter um médico particular para fazer aborto em suas vítimas.
Em Curitiba, um médium foi acusado de simular poderes mediúnicos enquanto abusava sexualmente de homens e mulheres.
Já na Indonésia uma garota de 13 anos foi levada pela família até um xamã de nome Jago. O falsário raptou a garotinha, a levou para uma caverna e a estuprou durante 15 anos. Só o prenderam agora.
Nos Estados Unidos, o mestre zen-budista japonês Joshu Sasaki foi acusado de abuso sexual, o que chocou o mundo; mas ele não estava só, em seguida veio uma enxurrada de denúncias feitas vítimas sexuais dos zen-budistas.
Na China, budistas também andaram barbarizando.
Shi Xuencheng, veja essa, liderava um dos monastérios mais importantes de seu país, até ser acusado de assédio psicológico e sexual por várias monjas.
Xuengue aplicava a mesma técnica do Prem Baba, sexo tântrico.
Porém, era o busdista quem procurava suas vítimas, solteiras e celibatárias, e era ele quem as fragilizava para depois curar suas fragilidades.
Usava como tática de abordagem o sexting, e a técnica era tuitar pornografia, inculcando nas donzelas a mística mítica de que o tantra ajuda no controle da mente e na purificação espiritual.
No Tibet e na Tailândia passaram a pipocar acusações contra monges, e uma campanha mundial veio à rede com a tag #MeTooGuru.
Shogyal Lakar Rimpoche, uma espécie de lama reencarnado, gostava de hotéis luxuosos, charutos, comida à farta e garotas na flor da idade.
Longe de ser uma criatura mansa e dócil, Shogyal era um machão abusador que batia, gritava e humilhava suas vítimas.
O arauto de araque dizia que tudo isso ajudava desformatar o ego e trazia alívio espiritual.
O Dalai Lama foi provocado e afirmou saber dessas taradices desde os anos 90. Mas nada fez para refrear os sexólatras que estão sob sua liderança.
Bergoglio, o argentino simpático que lidera a igreja católica, se vê na mesma na mesma sinuca de bico em que se meteu o Dalai Lama. Alguns de seus liderados andam a fornicar de forma criminosa.
Porém, se Prem Baba tinha tara por mulheres casadas e os monges abusavam de celibatárias, os padres parecem preferir menino homem.
Sim, minha senhora, não são os comunistas que comem criancinhas, são os padres.
O caso dos padres pedófilos ainda carece de um estudo mais aprofundado.
E não serve o argumento de que o celibato cria esses distúrbios, que a proibição aumenta o desejo etc.
Porque pra descelibatar, os padres nem precisavam agir como os monges ou os gurus tarados, não faltam beatas - viúvas, casadas, solteiras ou jovens - querendo quebrar o celibato dos padres bonitões.
Esses padres poderiam, ainda, entrar no Tinder, contratar um serviço de prostitutas, cantar alguém no confessionário...
Até agora não vi um estudo convincente que explique essa fixação por meninos.
Como se vê, o caso do João de Deus, ou o ocaso de João de Deus, não é um fato isolado. Há canalhas nas mais diversas religiões, como há canalhas nos mais diversos segmentos sociais.
Os tarados são diretores, atores, cantores, policiais, médicos, professores, homens de bens, cidadãos acima de qualquer suspeita e pais de família exemplar.
O fato de que esses machos brancos só agora estejam sendo expostos ä execração pública mostra o quanto a falsa imagem do negão estuprador, criada pelo cinema, os beneficiou.
Desde que David Griffith lançou, em 1915, o seminal O Nascimento de uma Nação, onde uma garotinha branca é perseguida por um tarado de black face - preferindo se atirar de cabeça de um penhasco rochoso para não ser violentada por aquele animal - que os negros são negativamente sexualizados no cinema.
No filme Bonitinha, Mas Ordinária, a personagem interpretada por Lucélia Santos simula um estupro contra si mesma e contrata para estuprá-la, veja que curioso, um grupo de negros.
Enquanto eles a "estupram" ela sorri e grita na cara deles, como se os xingasse: "negro, negro..."
A imagem do negro como um violador sexual é tão forte que até os homens temem o Negão Estuprador que miticamente existe em cada cela de cada penitenciária deste país.
Sabemos que mais de 70% dos estupros ocorrem em ambientes fechados ou domésticos.
As adolescentes são a maioria das vítimas.
O estuprador não aquele negão mal encarado que fica escondido atrás de uma parede numa rua escura, ele pode ser o pediatra da sua filha, ou o ginecologista dela.
O professor de ginástica, o guia espiritual da sua esposa, o pastor da igreja da sua tia...
E não se esquema, o macho branco fez da violência sexual um troço institucionalizado no Brasil Colônia. O estupro contra mulheres escravizadas chegou mesmo a ser aplaudido como uma política de miscigenação.
Esse costume foi adaptado às casas de família onde patrões e filhos de patrões abusam de suas domésticas.
O estupro e o assédio sexual não são casos isolados, são uma verdadeira epidemia, e seus autores precisam ser denunciados e punidos.
Palavra da salvação.

* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista