Anete, vinte anos depois

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Publicada em 29/12/2018 às 14:15:00

 

*Rangel Alves da Costa
Até meados dos anos 80 do século passado, as terras pertencentes aos municípios de Poço Redondo e Canindé de São Francisco, no sertão sergipano, na sua grande maioria pertenciam a um reduzido número de proprietários, latifundiários que pouco exploravam suas riquezas e mantinham aquelas vastidões muito mais pelo poder da posse do que seu efetivo uso. Um destes latifúndios, de propriedade de Antônio Leite, o Toinho Leite de Ribeirópolis, e denominada Barra da Onça, enquadrava-se no contexto da improdutividade pela sua dimensão e como afronta àqueles que, pelos arredores ou mais distantes, sonhavam em ter apenas um pedacinho de chão para garantir a sobrevivência.
Foi neste cenário que começaram as lutas pela reforma agrária na região sertaneja, até que no ano de 1986 surgiu, enfim, o Assentamento Barra da Onça, pedra fundamental para o grande número de desapropriações e assentamentos que surgiram daí em diante. Contudo, uma vida de grandes dificuldades para os assentados, principalmente pela necessidade de se reinventarem na terra árida, seca e sem opções produtivas, mas também pela demora nas ações governamentais que garantissem a digna sobrevivência. Nesta moldura de esperança ensolarada é que estava igualmente retratada a família de Agenor Miguel da Silva e Maria de Fátima da Silva, gestora de uma prole que passaria a somar treze filhos, sendo nove mulheres e quatro homens.
Dentre as filhas de Seu Agenor e Dona Maria de Fátima estava uma franzina de dez anos, de cabelos escorridos e alourados, olhos grandes e melancólicos, de sorriso pouco e sonhadora. Seu nome: Anete Alves Silva. Desde criança convivendo com um mundo de pobreza e dificuldades, morando em casa de taipa apinhada de gente, passando até fome, a menina Anete só começou a perceber alguma mudança em sua vida quando o assentamento foi visitado por pessoas desconhecidas e retratando aquela realidade através de fotografias. Segundo ela, já estava na escola da comunidade com a professora e mais dois colegas quando chegou um senhor pedindo para fotografá-la ali mesmo sentada na cadeira escolar. Este fotógrafo outro não era senão o mestre da fotografia Sebastião Salgado.
Com a despedida dos visitantes, a difícil vida tomou sua normalidade. Verdadeira dádiva sagrada quando a família recebia alguma cesta de alimentos ou qualquer quilo disso ou daquilo para ajudar na sobrevivência de tantos num só e empobrecido lar. Na imaginação de Anete - que sequer recordava mais daquele retrato tirado na sala de aula -, nada mudaria senão por força do tempo e destino. Tudo estava nas mãos de Deus. Até que cerca de um ano após a fotografia chegaram outros visitantes e dessa vez para afirmar que o seu retrato havia sido escolhido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para figurar nas cartilhas e cartazes da Campanha da Fraternidade de 1998. 
E mais: que dali em diante Anete teria seus estudos pagos e que a família seria ajudada no que necessitasse para a sobrevivência. E não demorou muito para que chegassem doações não só para sua casa como para outras famílias da Barra da Onça, e também para outras comunidades de Poço Redondo. Desse modo, segundo Anete, toda sua vida começou a mudar a partir daí, como num sonho bom que estava acontecendo. E o sonho foi acrescido quando o então governador Albano Franco mandou providenciar uma casa bem maior e confortável para a numerosa família.
Assim os passos da mudança na vida de Anete, a menina da Barra da Onça fotografada por Sebastião Salgado e que ganhou mundo na Campanha da Fraternidade de 1998 (Fraternidade e Educação: A Serviço da Vida e da Esperança). Em março de 98, comentando sobre a fotografia contida no cartaz, Dom Ervin Kräutler, Bispo de Xingu/PA, teceu as seguintes observações: "Com seu rosto e cabelos desordenados, esta menina representa milhões e milhões de crianças-jovens, do Oiapoque ao Chuí, de Fernando de Noronha a Tabatinga. Pode ser da roça ou das periferias das cidades. Sua posição, suas mãos segurando o lápis, seu olhar e sua boca nos dizem: 'Olhe, estou aqui! Quero aprender! Quero ver! Quero ter vida digna! É por isso que me esforço, faço até sacrifícios! Mas eu preciso de vocês! Quero que me ajudem!'. Seus olhos, tão expressivos, abrem-se para um futuro que se deseja melhor: justo, fraterno, solidário. São olhos ávidos de amor e compreensão. Seu brilho traduz e expressa uma grande esperança: a de que um dia todas as lágrimas serão enxugadas e, finalmente, haverá de surgir um mundo novo, sonhado e querido por Deus". 
Hoje Anete, mais conhecida como Nety, está com trinta e um anos de idade, ainda moradora da Barra da Onça, permanecendo muito agradecida àquele inusitado acontecimento em sala de aula, quando uma fotografia mudou totalmente os rumos de sua vida. Casou-se aos dezessete anos, mas hoje está separada e em relacionamento com outro sertanejo. Concluiu o ensino fundamental e não prosseguiu nos estudos. Atualmente, conforme confessa, seu sonho maior é fazer tratamento para ter um filho, vez que um problema de ovário sempre a impediu de ser mãe, esperança grande que ainda deseja realizar.
Desse modo, vinte anos depois e Anete, ou a Nety de agora, pode ser ainda encontrada na Barra da Onça, sempre bela, alegre, com sorriso largo e olhos bem diferentes daqueles retratados por Sebastião Salgado. Olhos de vida, de agradecimento, vívidos e esperançosos pela dádiva maior que lhe possa acontecer, sob os préstimos da medicina: conseguir ser mãe, enfim. E quem desejar ajudá-la a realizar seu tratamento, pode entrar em contato com este articulista pelo telefone (79) 99830-5644. Anete ficará muito grata por mais este presente de vida.
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Até meados dos anos 80 do século passado, as terras pertencentes aos municípios de Poço Redondo e Canindé de São Francisco, no sertão sergipano, na sua grande maioria pertenciam a um reduzido número de proprietários, latifundiários que pouco exploravam suas riquezas e mantinham aquelas vastidões muito mais pelo poder da posse do que seu efetivo uso. Um destes latifúndios, de propriedade de Antônio Leite, o Toinho Leite de Ribeirópolis, e denominada Barra da Onça, enquadrava-se no contexto da improdutividade pela sua dimensão e como afronta àqueles que, pelos arredores ou mais distantes, sonhavam em ter apenas um pedacinho de chão para garantir a sobrevivência.
Foi neste cenário que começaram as lutas pela reforma agrária na região sertaneja, até que no ano de 1986 surgiu, enfim, o Assentamento Barra da Onça, pedra fundamental para o grande número de desapropriações e assentamentos que surgiram daí em diante. Contudo, uma vida de grandes dificuldades para os assentados, principalmente pela necessidade de se reinventarem na terra árida, seca e sem opções produtivas, mas também pela demora nas ações governamentais que garantissem a digna sobrevivência. Nesta moldura de esperança ensolarada é que estava igualmente retratada a família de Agenor Miguel da Silva e Maria de Fátima da Silva, gestora de uma prole que passaria a somar treze filhos, sendo nove mulheres e quatro homens.
Dentre as filhas de Seu Agenor e Dona Maria de Fátima estava uma franzina de dez anos, de cabelos escorridos e alourados, olhos grandes e melancólicos, de sorriso pouco e sonhadora. Seu nome: Anete Alves Silva. Desde criança convivendo com um mundo de pobreza e dificuldades, morando em casa de taipa apinhada de gente, passando até fome, a menina Anete só começou a perceber alguma mudança em sua vida quando o assentamento foi visitado por pessoas desconhecidas e retratando aquela realidade através de fotografias. Segundo ela, já estava na escola da comunidade com a professora e mais dois colegas quando chegou um senhor pedindo para fotografá-la ali mesmo sentada na cadeira escolar. Este fotógrafo outro não era senão o mestre da fotografia Sebastião Salgado.
Com a despedida dos visitantes, a difícil vida tomou sua normalidade. Verdadeira dádiva sagrada quando a família recebia alguma cesta de alimentos ou qualquer quilo disso ou daquilo para ajudar na sobrevivência de tantos num só e empobrecido lar. Na imaginação de Anete - que sequer recordava mais daquele retrato tirado na sala de aula -, nada mudaria senão por força do tempo e destino. Tudo estava nas mãos de Deus. Até que cerca de um ano após a fotografia chegaram outros visitantes e dessa vez para afirmar que o seu retrato havia sido escolhido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para figurar nas cartilhas e cartazes da Campanha da Fraternidade de 1998. E mais: que dali em diante Anete teria seus estudos pagos e que a família seria ajudada no que necessitasse para a sobrevivência. E não demorou muito para que chegassem doações não só para sua casa como para outras famílias da Barra da Onça, e também para outras comunidades de Poço Redondo. Desse modo, segundo Anete, toda sua vida começou a mudar a partir daí, como num sonho bom que estava acontecendo. E o sonho foi acrescido quando o então governador Albano Franco mandou providenciar uma casa bem maior e confortável para a numerosa família.
Assim os passos da mudança na vida de Anete, a menina da Barra da Onça fotografada por Sebastião Salgado e que ganhou mundo na Campanha da Fraternidade de 1998 (Fraternidade e Educação: A Serviço da Vida e da Esperança). Em março de 98, comentando sobre a fotografia contida no cartaz, Dom Ervin Kräutler, Bispo de Xingu/PA, teceu as seguintes observações: "Com seu rosto e cabelos desordenados, esta menina representa milhões e milhões de crianças-jovens, do Oiapoque ao Chuí, de Fernando de Noronha a Tabatinga. Pode ser da roça ou das periferias das cidades. Sua posição, suas mãos segurando o lápis, seu olhar e sua boca nos dizem: 'Olhe, estou aqui! Quero aprender! Quero ver! Quero ter vida digna! É por isso que me esforço, faço até sacrifícios! Mas eu preciso de vocês! Quero que me ajudem!'. Seus olhos, tão expressivos, abrem-se para um futuro que se deseja melhor: justo, fraterno, solidário. São olhos ávidos de amor e compreensão. Seu brilho traduz e expressa uma grande esperança: a de que um dia todas as lágrimas serão enxugadas e, finalmente, haverá de surgir um mundo novo, sonhado e querido por Deus". 
Hoje Anete, mais conhecida como Nety, está com trinta e um anos de idade, ainda moradora da Barra da Onça, permanecendo muito agradecida àquele inusitado acontecimento em sala de aula, quando uma fotografia mudou totalmente os rumos de sua vida. Casou-se aos dezessete anos, mas hoje está separada e em relacionamento com outro sertanejo. Concluiu o ensino fundamental e não prosseguiu nos estudos. Atualmente, conforme confessa, seu sonho maior é fazer tratamento para ter um filho, vez que um problema de ovário sempre a impediu de ser mãe, esperança grande que ainda deseja realizar.
Desse modo, vinte anos depois e Anete, ou a Nety de agora, pode ser ainda encontrada na Barra da Onça, sempre bela, alegre, com sorriso largo e olhos bem diferentes daqueles retratados por Sebastião Salgado. Olhos de vida, de agradecimento, vívidos e esperançosos pela dádiva maior que lhe possa acontecer, sob os préstimos da medicina: conseguir ser mãe, enfim. E quem desejar ajudá-la a realizar seu tratamento, pode entrar em contato com este articulista pelo telefone (79) 99830-5644. Anete ficará muito grata por mais este presente de vida.

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com