Queda de braço com equipe econômica é derrota para Bolsonaro

Opinião

 

* Emir Sader
A queda de braço entre rompantes de Bolsonaro e a equipe econômica apresentou, no primeiro round, uma derrota para o novo presidente. Ele foi desmentido no que se refere aos impostos e à reforma da previdência e se calou.
O Guedes que, no momento da sua nomeação, parecia um personagem folclórico, pinochetista, Chicago boy, foi parecendo razoável diante dos nomeados posteriormente, com as sandices que defendem. Não deixa de ser uma grande asneira o Guedes dizer que vai terminar com o socialismo. Mas entenda-se socialismo como sinônimo de justiça social, de direitos dos trabalhadores, de defesa do emprego e do salário. Nesse sentido sua política age no sentido de terminar de tirar os direitos que ainda restam aos trabalhadores, com a falsa alegação repetida pelo Bolsonaro, de que a contratação de assalariados seria muito cara.
Lembremos que a escolha de Guedes foi para Bolsonaro conquistar o grande empresariado, que tendia para ele, à falta de outro candidato. Foi uma continuidade, até mais radical, do Meirelles. O candidato da direita poderia ter sido Alckmin, Joaquim Barbosa, Luciano Huck, contanto que assumisse a continuidade do modelo neoliberal. Temer garantiu o apoio do grande empresariado nomeando Meirelles para cuidar da economia. O novo governo garante a continuidade do modelo neoliberal também pela manutenção de sete membros da equipe econômica de Temer.
Desde o começo Bolsonaro teve desentendimentos com seu ministro da economia, mas antes do começo do governo, ele se retratava. Agora, um seu assessor desmentiu o Bolsonaro e este se recolheu ao silencio, como que acatando a reprimenda. Até que se recomendo a ela não falar sobre economia.
Pode ser até que, diante de tantos desentendimentos, sobre para o Guedes, que seja substituído. Mas para preservar o modelo de desgastes e não para substituí-lo. Porque a política econômica neoliberal é o que unifica a direita, a começar pelo grande empresariado, que aderiu completamente a esse modelo, mesmo se ele favorece absolutamente o capital financeiro. E que tem nos colunistas econômicos e nos editoriais da velha mídia suas expresses publicas mais difundidas.
O golpe de 2016, a prisão do Lula e as manobras para ganhar as eleições de 2018 tem como objetivo fundamental a restauração e a preservação desse modelo. A direita não dispõe de outro, mesmo se ele fracassou em escala mundial, em nenhum lugar conseguiu sair do ajuste para retomada do crescimento. A Europa é o exemplo mais claro, que não consegue sair da crise iniciada em 2008 e mantida sob políticas de austeridade, que é o nome do ajuste fiscal por lá. A Argentina e o próprio Brasil são exemplos que confirmam essa tese.
Quando o ministro da Economia, demagogicamente e sem nenhuma prova concreta a favor da sua afirmação, diz que se for feita a reforma da previdência, havia crescimento por 10 anos, repete a famosa cantilena que vinha dos anos 1990, com FHC, e que nunca foram comprovadas, em nenhum lugar. Na própria Argentina a reforma da previdência foi aprovada, mas a recessão só se aprofunda e não há nenhum horizonte de retomada do crescimento econômico. Em suma, o ministro mente. Ou não tem conhecimento da realidade ou faz demagogia barata.
A realidade é que no modelo neoliberal não há lugar para algum tipo de compromisso de classe. A hegemonia de um capital especulativo, como o capital financeiro, não permite combinar os lucros bancários com alguma forma de distribuição de renda.
O modelo getulista, do qual descende o modelo petista, são resultados de compromissos de classe, em que o desenvolvimento econômico tem na distribuição de renda um mecanismo indispensável. Ao que se opõem hoje o grande empresariado é algum tipo de modelo que implique compromissos de classe com os trabalhadores e as classes populares no seu conjunto. Toleraram esse tipo de modelo, quando foram derrotados eleitoralmente pelo PT. Se negam agora a qualquer tipo de concessão de classe e apoiam fortemente a eliminação dos direitos dos trabalhadores, assim como recursos para políticas sociais.
O novo governo incorporou esse modelo e o aprofunda, intensificando o desmonte do Estado e a centralidade do mercado, que concentra renda e exclui socialmente à maioria da população. Tem que se apoiar em um tipo de governo repressivo, porque não reserva lugar para a grande maioria da população. O capitalismo chegou a um momento da sua história, em que parece não conseguir ter modelos com capacidade hegemonia, salvo aquela baseada em discursos demagógicos, mas desmentidos pela sua política econômica e as consequências sociais devastadoras que produz.
Da mesma forma que a direita do nosso tempo é neoliberal, a esquerda do século XXI é antineoliberal, na centralidade do seu programa e da sua ação.
* Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

* Emir Sader

A queda de braço entre rompantes de Bolsonaro e a equipe econômica apresentou, no primeiro round, uma derrota para o novo presidente. Ele foi desmentido no que se refere aos impostos e à reforma da previdência e se calou.
O Guedes que, no momento da sua nomeação, parecia um personagem folclórico, pinochetista, Chicago boy, foi parecendo razoável diante dos nomeados posteriormente, com as sandices que defendem. Não deixa de ser uma grande asneira o Guedes dizer que vai terminar com o socialismo. Mas entenda-se socialismo como sinônimo de justiça social, de direitos dos trabalhadores, de defesa do emprego e do salário. Nesse sentido sua política age no sentido de terminar de tirar os direitos que ainda restam aos trabalhadores, com a falsa alegação repetida pelo Bolsonaro, de que a contratação de assalariados seria muito cara.
Lembremos que a escolha de Guedes foi para Bolsonaro conquistar o grande empresariado, que tendia para ele, à falta de outro candidato. Foi uma continuidade, até mais radical, do Meirelles. O candidato da direita poderia ter sido Alckmin, Joaquim Barbosa, Luciano Huck, contanto que assumisse a continuidade do modelo neoliberal. Temer garantiu o apoio do grande empresariado nomeando Meirelles para cuidar da economia. O novo governo garante a continuidade do modelo neoliberal também pela manutenção de sete membros da equipe econômica de Temer.
Desde o começo Bolsonaro teve desentendimentos com seu ministro da economia, mas antes do começo do governo, ele se retratava. Agora, um seu assessor desmentiu o Bolsonaro e este se recolheu ao silencio, como que acatando a reprimenda. Até que se recomendo a ela não falar sobre economia.
Pode ser até que, diante de tantos desentendimentos, sobre para o Guedes, que seja substituído. Mas para preservar o modelo de desgastes e não para substituí-lo. Porque a política econômica neoliberal é o que unifica a direita, a começar pelo grande empresariado, que aderiu completamente a esse modelo, mesmo se ele favorece absolutamente o capital financeiro. E que tem nos colunistas econômicos e nos editoriais da velha mídia suas expresses publicas mais difundidas.
O golpe de 2016, a prisão do Lula e as manobras para ganhar as eleições de 2018 tem como objetivo fundamental a restauração e a preservação desse modelo. A direita não dispõe de outro, mesmo se ele fracassou em escala mundial, em nenhum lugar conseguiu sair do ajuste para retomada do crescimento. A Europa é o exemplo mais claro, que não consegue sair da crise iniciada em 2008 e mantida sob políticas de austeridade, que é o nome do ajuste fiscal por lá. A Argentina e o próprio Brasil são exemplos que confirmam essa tese.
Quando o ministro da Economia, demagogicamente e sem nenhuma prova concreta a favor da sua afirmação, diz que se for feita a reforma da previdência, havia crescimento por 10 anos, repete a famosa cantilena que vinha dos anos 1990, com FHC, e que nunca foram comprovadas, em nenhum lugar. Na própria Argentina a reforma da previdência foi aprovada, mas a recessão só se aprofunda e não há nenhum horizonte de retomada do crescimento econômico. Em suma, o ministro mente. Ou não tem conhecimento da realidade ou faz demagogia barata.
A realidade é que no modelo neoliberal não há lugar para algum tipo de compromisso de classe. A hegemonia de um capital especulativo, como o capital financeiro, não permite combinar os lucros bancários com alguma forma de distribuição de renda.
O modelo getulista, do qual descende o modelo petista, são resultados de compromissos de classe, em que o desenvolvimento econômico tem na distribuição de renda um mecanismo indispensável. Ao que se opõem hoje o grande empresariado é algum tipo de modelo que implique compromissos de classe com os trabalhadores e as classes populares no seu conjunto. Toleraram esse tipo de modelo, quando foram derrotados eleitoralmente pelo PT. Se negam agora a qualquer tipo de concessão de classe e apoiam fortemente a eliminação dos direitos dos trabalhadores, assim como recursos para políticas sociais.
O novo governo incorporou esse modelo e o aprofunda, intensificando o desmonte do Estado e a centralidade do mercado, que concentra renda e exclui socialmente à maioria da população. Tem que se apoiar em um tipo de governo repressivo, porque não reserva lugar para a grande maioria da população. O capitalismo chegou a um momento da sua história, em que parece não conseguir ter modelos com capacidade hegemonia, salvo aquela baseada em discursos demagógicos, mas desmentidos pela sua política econômica e as consequências sociais devastadoras que produz.
Da mesma forma que a direita do nosso tempo é neoliberal, a esquerda do século XXI é antineoliberal, na centralidade do seu programa e da sua ação.

* Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

 


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