MERCANTILIZAÇÃO NA REFORMA DA IGREJA DE PORTO DA FOLHA

Opinião

 

* Manoel Alves de Souza
Repercutiu fortemente na imprensa sergipana, em junho do ano passado, a invasão da igreja matriz de Porto da Folha e a pichação do mural da arte sacra ao fundo do altar- mor da referida igreja. Mais grave do que a invasão da igreja e a danificação do mural foi o fato de que o ato de vandalismo contou com a conivência das autoridades eclesiásticas, com indícios de que todo isto foi um plano arquitetado.
Em audiência com um grupo de portofolhenses em Propriá, três dias depois do ocorrido, Dom Vitor Agnaldo de Menezes, questionado sobre a sua indiferença diante do fato, declarou que não houve invasão da igreja e o ocorrido não foi crime. E repetiu o que havia dito há poucos dias na igreja de Porto da Folha, sem qualquer justificativa, que o mural não ficaria mais ali, que ele era inadequado naquele local e deveria estar num museu ou na Secretaria de Cultura, não na igreja. Evidenciando ainda mais a sua conivência com esses fatos, seis dias depois da pichação, o Sr. bispo mandou destruir o que sobrou do mural, um trabalho realizado com a igreja de portas fechadas, exatamente como ocorreu o ato de vandalismo, na madrugada de 5 de junho. A igreja vinha sendo reformada, desde 2016, para a festa dos 200 anos da paróquia - segundo o padre, em 19 de fevereiro de 2021; segundo outros, em 16 de agosto de 2032.
Mas, por que tanta pressa em destruir o belo mural de arte sacra? O Sr. Bispo e o Sr. Pároco tinham conhecimento, por ofícios do Conselho Estadual de Cultura, de que o processo de tombamento do mural estava em tramitação. Portanto, a destruição do mural foi uma afronta ao referido Conselho e uma agressão aos portofolhenses, à cultura, à história e à arte do município de Porto da Folha e do estado de Sergipe.    
Muito se discutiu e se escreveu a respeito do valor artístico, cultural e histórico do mural, uma obra de arte sacra em estilo modernista, pintada pelo franciscano Frei Juvenal Vieira Bomfim e inaugurado festivamente no dia 8 de dezembro de 1970 por Dom José Brandão de Casto, um bispo muito culto, integrante da Academia Sergipana de Letras, poeta, escritor, excelente orador sacro, com formação em Filosofia e História da Arte. A obra foi inspirada no Concílio Vaticano II e na Conferência dos Bispos da América Latina, em Medelín (Colômbia), de uma Igreja inserida no meio do povo, voltada preferencialmente para os pobres. O mural era a única obra do gênero a retratar as nascentes comunidades eclesiais de base (CEBs) em Sergipe e uma das poucas do gênero existentes no Brasil. O mural era o registro de uma época de extraordinária evangelização dos franciscanos em Porto da Folha, sob a orientação de Dom José Brandão, no sentido de despertar nas pessoas o compromisso de uma vida verdadeiramente cristã, com ênfase na solidariedade mútua de uns para com os outros, resgatando o modo de vida das primeiras comunidades cristãs. A evangelização por essas bandas na época não restringia a religião aos atos litúrgicos, mas se estendia para a vida em comunidade, em que todos se irmanavam na oração e na ação.
A reforma da igreja avança na parte interna, sob a coordenação do pároco, Pe. Melchizedeck de Oliveira Neto. Com a redução das contribuições, depois do ato de vandalismo e da destruição do mural, o pároco, necessitando de dinheiro para a conclusão da bela e rica reforma, estipulou o valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais) para cada um dos onze vitrais da igreja. Cada um dos onze "contribuintes" terá o nome gravado no vitral que escolher. Não se sabe se o Sr. bispo foi consultado a esse respeito. Mas não sobrou nenhum vitral, todos os onze foram "vendidos". Nenhum dos milhares de pobres portofolhenses terá o seu nome gravado nos vitrais comemorativos dos 200 anos da paróquia.
Esta forma mercantilista e discriminatória de administrar a paróquia tem causado estranheza. Por conta disto, comenta-se com humor que é preciso ficar atento para que não sejam cobrados pelos assentos nos bancos da igreja. Se chegar a este ponto, os pobres, que já foram retirados do centro da Igreja com a destruição do mural, serão forçados a ficar em pé ou do lado de fora da igreja durante os atos litúrgicos porque não podem pagar por um lugarzinho nos bancos. Será este mais um ato impensado ou o retorno aos tempos em que era dado o direito aos barões, coronéis e endinheirados de serem sepultados dentro da igreja? Naqueles tempos, os lugares mais próximos do altar eram reservados aos que mais contribuíam financeiramente com a paróquia.
Tal postura é completamente dissonante com a postura e orientação do Papa Francisco, moldado na Teologia da Libertação e, também por isto, adepto da corrente teológica de uma Igreja voltada, preferencialmente, para os mais pobres, como ele resumiu magistralmente na seguinte frase: "Ah, como gostaria de uma Igreja pobre e pelos pobres!"
* Manoel Alves de Souza é portofolhense, funcionário público aposentado.

* Manoel Alves de Souza

Repercutiu fortemente na imprensa sergipana, em junho do ano passado, a invasão da igreja matriz de Porto da Folha e a pichação do mural da arte sacra ao fundo do altar- mor da referida igreja. Mais grave do que a invasão da igreja e a danificação do mural foi o fato de que o ato de vandalismo contou com a conivência das autoridades eclesiásticas, com indícios de que todo isto foi um plano arquitetado.
Em audiência com um grupo de portofolhenses em Propriá, três dias depois do ocorrido, Dom Vitor Agnaldo de Menezes, questionado sobre a sua indiferença diante do fato, declarou que não houve invasão da igreja e o ocorrido não foi crime. E repetiu o que havia dito há poucos dias na igreja de Porto da Folha, sem qualquer justificativa, que o mural não ficaria mais ali, que ele era inadequado naquele local e deveria estar num museu ou na Secretaria de Cultura, não na igreja. Evidenciando ainda mais a sua conivência com esses fatos, seis dias depois da pichação, o Sr. bispo mandou destruir o que sobrou do mural, um trabalho realizado com a igreja de portas fechadas, exatamente como ocorreu o ato de vandalismo, na madrugada de 5 de junho. A igreja vinha sendo reformada, desde 2016, para a festa dos 200 anos da paróquia - segundo o padre, em 19 de fevereiro de 2021; segundo outros, em 16 de agosto de 2032.
Mas, por que tanta pressa em destruir o belo mural de arte sacra? O Sr. Bispo e o Sr. Pároco tinham conhecimento, por ofícios do Conselho Estadual de Cultura, de que o processo de tombamento do mural estava em tramitação. Portanto, a destruição do mural foi uma afronta ao referido Conselho e uma agressão aos portofolhenses, à cultura, à história e à arte do município de Porto da Folha e do estado de Sergipe.    
Muito se discutiu e se escreveu a respeito do valor artístico, cultural e histórico do mural, uma obra de arte sacra em estilo modernista, pintada pelo franciscano Frei Juvenal Vieira Bomfim e inaugurado festivamente no dia 8 de dezembro de 1970 por Dom José Brandão de Casto, um bispo muito culto, integrante da Academia Sergipana de Letras, poeta, escritor, excelente orador sacro, com formação em Filosofia e História da Arte. A obra foi inspirada no Concílio Vaticano II e na Conferência dos Bispos da América Latina, em Medelín (Colômbia), de uma Igreja inserida no meio do povo, voltada preferencialmente para os pobres. O mural era a única obra do gênero a retratar as nascentes comunidades eclesiais de base (CEBs) em Sergipe e uma das poucas do gênero existentes no Brasil. O mural era o registro de uma época de extraordinária evangelização dos franciscanos em Porto da Folha, sob a orientação de Dom José Brandão, no sentido de despertar nas pessoas o compromisso de uma vida verdadeiramente cristã, com ênfase na solidariedade mútua de uns para com os outros, resgatando o modo de vida das primeiras comunidades cristãs. A evangelização por essas bandas na época não restringia a religião aos atos litúrgicos, mas se estendia para a vida em comunidade, em que todos se irmanavam na oração e na ação.
A reforma da igreja avança na parte interna, sob a coordenação do pároco, Pe. Melchizedeck de Oliveira Neto. Com a redução das contribuições, depois do ato de vandalismo e da destruição do mural, o pároco, necessitando de dinheiro para a conclusão da bela e rica reforma, estipulou o valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais) para cada um dos onze vitrais da igreja. Cada um dos onze "contribuintes" terá o nome gravado no vitral que escolher. Não se sabe se o Sr. bispo foi consultado a esse respeito. Mas não sobrou nenhum vitral, todos os onze foram "vendidos". Nenhum dos milhares de pobres portofolhenses terá o seu nome gravado nos vitrais comemorativos dos 200 anos da paróquia.
Esta forma mercantilista e discriminatória de administrar a paróquia tem causado estranheza. Por conta disto, comenta-se com humor que é preciso ficar atento para que não sejam cobrados pelos assentos nos bancos da igreja. Se chegar a este ponto, os pobres, que já foram retirados do centro da Igreja com a destruição do mural, serão forçados a ficar em pé ou do lado de fora da igreja durante os atos litúrgicos porque não podem pagar por um lugarzinho nos bancos. Será este mais um ato impensado ou o retorno aos tempos em que era dado o direito aos barões, coronéis e endinheirados de serem sepultados dentro da igreja? Naqueles tempos, os lugares mais próximos do altar eram reservados aos que mais contribuíam financeiramente com a paróquia.
Tal postura é completamente dissonante com a postura e orientação do Papa Francisco, moldado na Teologia da Libertação e, também por isto, adepto da corrente teológica de uma Igreja voltada, preferencialmente, para os mais pobres, como ele resumiu magistralmente na seguinte frase: "Ah, como gostaria de uma Igreja pobre e pelos pobres!"

* Manoel Alves de Souza é portofolhense, funcionário público aposentado.

 


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