Doces recordações

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Publicada em 15/01/2019 às 06:05:00

 

* Raymundo Mello
(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)
 
Hoje - 15 de janeiro - é o "Dia mundial do Compositor". A comemoração tem sua origem no México, por ter sido nesta data a fundação da 'Sociedade de Autores e Compositores do México', em 1945. Porém, somente a partir de 1983 a data passou a ser oficialmente celebrada no mundo.
No Brasil, contudo, há outra comemoração semelhante: no dia 7 de outubro, celebra-se o "Dia do Compositor Brasileiro". Tive o cuidado de consultar as agendas de efemérides dos principais países, e, em todas, assinala-se o dia 15 de janeiro como o "Dia do Compositor". Então, sigo a maioria e reverencio 'hoje' os compositores.
A homenagem supõe-se bem ampla, mas, com tanta 'baboseira' que se toca e canta por aí, temos que "tirar o chapéu" apenas para os que produzem "boa música" - normalmente falamos assim. Mas...
... de repente, paro, sinto-me 'egocêntrico' - "que exibe atitudes ou comportamentos voltados para si mesmo, de modo relativamente insensível às preocupações dos outros", segundo Houaiss - e questiono-me: o que é "boa música"? Seriam as canções que me agradam, compostas ou interpretadas por meus/minhas cantores/as preferidos/as, ou aquelas tecnicamente perfeitas, escritas em conformidade com os princípios musicais e dando vida a poemas gramaticalmente bem estruturados? Ou, ainda, seriam aquelas que refletem os anseios sociais, a indignação com a realidade vivida?
A rigor, a música é uma forma de expressão de sentimentos. E respeitando o conceito de 'alteridade' - "natureza ou condição do que é outro, do que é distinto; situação, estado ou qualidade que se constitui através de relações de contraste, distinção, diferença", voltando ao Houaiss - não podemos apontar o que é "música boa" ou "música ruim". Seja qual for a música, ela reflete os valores dos que a apreciam, dos que a entoam, dos que dela fazem a sua voz. Eu posso não gostar, mas 'o outro' gosta...
Então, quando passamos aqui-e-ali e vemos pessoas, seja lá de que idade for, entoando e "se esbaldando" no que nós classificamos como "músicas de péssima qualidade", antes devemos lembrar que, para a cultura dos que ali estão, aquelas músicas lhes falam o que querem ouvir, o que querem dizer.
Segundo o antropólogo 'Franz Boas', no seu livro "Arte primitiva" (1927), "todas as atividades humanas podem assumir formas que lhes conferem mérito estético". Então, as músicas tocadas e/ou cantadas que consideramos ruins, na verdade, sinalizam que "vemos" como ruim a cultura das pessoas, seus valores, o que, numa escada de critérios de análise, nos leva à base da pirâmide, à educação.
Um povo bem instruído, educado desde a chamada 'tenra idade', será, necessariamente, um povo culto, com gostos refinados e sentimentos nobres.
Façamos um exercício de imaginação criativa: se, por obra de um gênio da lâmpada disposto a atender desejos imediatos, viéssemos a ter - já - uma educação de qualidade, com cumprimento rigoroso de conteúdos propostos, disciplina, responsabilidade de professores e alunos, infraestrutura adequada, livros didáticos consistentes e não-direcionadores, entre tantas outras condições "sine-qua-non" para uma educação verdadeiramente do 'ser', muito provavelmente, em pouco tempo - uma década, duas, talvez - as músicas que "nos ferem a audição" pouco ou quase nenhum espaço teriam e os brasileiros voltariam a sorver belas expressões literárias saltitando em linhas melódicas inebriantes, como nos versos de 'Angenor de Oliveira', o Cartola, em "As rosas não falam" e "O mundo é um moinho".
Assim, antes da crítica, precisamos buscar compreender as raízes dos problemas que, de modo implacável, atingem a sociedade brasileira. E, sem dúvida, a educação é um dos principais, depois de tantas e tão desastrosas "experiências" que vêm se sucedendo, na base da "tentativa-e-erro".
Mas, voltando aos compositores, quero abraçá-los no seu dia. Poderia citar muitos. Mas hoje opto por lembrar um talentoso músico - com toda a intensidade da palavra - que Sergipe teve e pouco lembra: 'João Rodrigues de Jesus' - meu professor de violão, quando, aos 15 anos, ganhei o meu instrumento, que ainda hoje possuo, conservadíssimo, bem cuidado como a mim mesmo, "um Di Giorgio do tempo que um Di Giorgio era um Di Giorgio". Quem entende de violão sabe o que estou dizendo. 
Conheci, àquela época, o professor João Rodrigues, sugerido que fora para ensinar-me pelo violonista "Carnera", 'Ursino Fontes de Araújo Góis', amigo de meu pai. Muita gente em Aracaju começou a "fazer aulas de violão", como se diz atualmente, com ele.
Homem simples, de profissão 'alfaiate', conhecia teoria musical como poucos. Utilizando-se do livro "Iniciação violonística", de autoria da concertista 'Maria Lívia São Marcos', método dos mais respeitados na didática violonística, ia aos poucos, do "zero" mesmo, ensinando os segredos do violão aos seus alunos. Era rigoroso em tudo - com a postura corporal, o jeito de "segurar" o instrumento, a posição das mãos, o dedilhar. Passar para um novo estudo, só quando o atual estivesse sendo executado sem erros. Tocar música logo, acompanhar-se, nem pensar. Ele percorria o caminho sugerido pelo método, avançando gradativamente na teoria, nas escalas, nos exercícios de arpejo. Alguns alunos, menos pacientes, desistiam, outros perseveravam e iam até onde o professor podia chegar.
A convivência com o mestre levava os alunos a admirar aquele senhor sisudo, solteirão, de trajes antiquados, que pouco comentava sobre a sua vida pessoal. Dele, comentava-se apenas que tivera um grande amor num passado distante, alguém que se mudara de cidade e nunca mais havia visto, talvez... As hipóteses eram muitas, para se compreender a sua solidão, estampada nas músicas que gostava de cantar, e que, aos poucos, ia ensinando. Recordo-me de algumas: "A noite do meu bem", "Ouça", "Abismo de rosas", entre outras. Esta última ele tinha em partitura original com uma dedicatória de certa dama que dizia muito querer bem. Seria ela o seu grande amor?
O compositor sergipano 'Mingo Santana' o conheceu bem, posto que, já em idade avançada e sem condições de trabalho, o professor passava seus dias nas lojas de instrumentos musicais da cidade e o seu grande prazer era afinar os instrumentos postos à venda, dedilhar bonitas melodias e, então, naturalmente, emitir a sua opinião técnica. Conhecia com profundidade o violão e o cavaquinho, mas seu instrumento por excelência era o bandolim. Enchia a boca quando dizia: "O piano é o rei do regional; o bandolim é o príncipe".
Durante suas aulas, preferencialmente no final, gostava de executar algumas peças musicais, umas clássicas, outras populares, creio que a título de despertar no aluno maior gosto pelo estudo do instrumento.
Assim, ao término de uma das minhas aulas, o ouvi executar - e encantei-me desde aquele instante! - um choro de sua própria autoria, que, segundo ele, estava ainda "em fase de ajustes". E bote ajuste nisso, diante de sua rigorosidade musical.
Vez por outra eu lhe perguntava sobre a música e ouvia a mesma resposta. Certo dia, ele me chega com uma partitura escrita à mão, uma de suas especialidades. Era a música "Doce recordação". Finalmente, ele havia dada por concluída a composição. Segundo suas palavras, "uma composição para bandolim". "Pode ser tocada em outros instrumentos, mas foi escrita para o bandolim, com as peculiaridades de execução próprias do bandolim" - disse-me. E complementou: "E o certo é tocar neste tom que está escrita".
João Rodrigues conhecia bem música clássica e certamente as afirmações sobre a sua composição tinham estreita relação com as peças dos grandes compositores clássicos, muitas escritas para instrumentos específicos.
O tempo passou e, como a vida é um ciclo, o mestre João Rodrigues se foi, tão humilde como viveu, executar suas canções junto a outros grandes compositores, próximo de Deus e de seus anjos, músicos por natureza.
Hoje, poucos, além dos seus alunos - vez ou outra - lembram-se do grande compositor sergipano João Rodrigues de Jesus, o professor João Rodrigues, de violão.
Graças a Deus, Mingo Santana, num felicíssimo momento autoral, conseguiu "retratar" com precisão, num poema, quem era João Rodrigues imerso em seus sentimentos. O conheci bem e atesto a fidedignidade dos versos de Mingo à personalidade do professor.
Os versos encaixaram-se maravilhosamente na melodia e a canção caiu-como-uma-luva na voz de 'Raquel Delmondes'. "Doce recordação", de João Rodrigues e Mingo Santana, é uma das mais belas músicas que integram o seu álbum "Vem cantar meu samba", cuja recomendação se me impõe para os que têm audição requintada.
Abraço, Mingo! Sua bênção, João Rodrigues!
E feliz "Dia do Compositor" para os compositores todos, independente de idade, de gênero musical, de prestígio ou não. Parabéns para quem empresta seu talento à emoção de tantos.
Quanto a mim, agora vou ouvir "Doce recordação", que me traz muitas e tão doces recordações.
* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br

* Raymundo Mello

(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)

Hoje - 15 de janeiro - é o "Dia mundial do Compositor". A comemoração tem sua origem no México, por ter sido nesta data a fundação da 'Sociedade de Autores e Compositores do México', em 1945. Porém, somente a partir de 1983 a data passou a ser oficialmente celebrada no mundo.
No Brasil, contudo, há outra comemoração semelhante: no dia 7 de outubro, celebra-se o "Dia do Compositor Brasileiro". Tive o cuidado de consultar as agendas de efemérides dos principais países, e, em todas, assinala-se o dia 15 de janeiro como o "Dia do Compositor". Então, sigo a maioria e reverencio 'hoje' os compositores.
A homenagem supõe-se bem ampla, mas, com tanta 'baboseira' que se toca e canta por aí, temos que "tirar o chapéu" apenas para os que produzem "boa música" - normalmente falamos assim. Mas...
... de repente, paro, sinto-me 'egocêntrico' - "que exibe atitudes ou comportamentos voltados para si mesmo, de modo relativamente insensível às preocupações dos outros", segundo Houaiss - e questiono-me: o que é "boa música"? Seriam as canções que me agradam, compostas ou interpretadas por meus/minhas cantores/as preferidos/as, ou aquelas tecnicamente perfeitas, escritas em conformidade com os princípios musicais e dando vida a poemas gramaticalmente bem estruturados? Ou, ainda, seriam aquelas que refletem os anseios sociais, a indignação com a realidade vivida?
A rigor, a música é uma forma de expressão de sentimentos. E respeitando o conceito de 'alteridade' - "natureza ou condição do que é outro, do que é distinto; situação, estado ou qualidade que se constitui através de relações de contraste, distinção, diferença", voltando ao Houaiss - não podemos apontar o que é "música boa" ou "música ruim". Seja qual for a música, ela reflete os valores dos que a apreciam, dos que a entoam, dos que dela fazem a sua voz. Eu posso não gostar, mas 'o outro' gosta...
Então, quando passamos aqui-e-ali e vemos pessoas, seja lá de que idade for, entoando e "se esbaldando" no que nós classificamos como "músicas de péssima qualidade", antes devemos lembrar que, para a cultura dos que ali estão, aquelas músicas lhes falam o que querem ouvir, o que querem dizer.
Segundo o antropólogo 'Franz Boas', no seu livro "Arte primitiva" (1927), "todas as atividades humanas podem assumir formas que lhes conferem mérito estético". Então, as músicas tocadas e/ou cantadas que consideramos ruins, na verdade, sinalizam que "vemos" como ruim a cultura das pessoas, seus valores, o que, numa escada de critérios de análise, nos leva à base da pirâmide, à educação.
Um povo bem instruído, educado desde a chamada 'tenra idade', será, necessariamente, um povo culto, com gostos refinados e sentimentos nobres.
Façamos um exercício de imaginação criativa: se, por obra de um gênio da lâmpada disposto a atender desejos imediatos, viéssemos a ter - já - uma educação de qualidade, com cumprimento rigoroso de conteúdos propostos, disciplina, responsabilidade de professores e alunos, infraestrutura adequada, livros didáticos consistentes e não-direcionadores, entre tantas outras condições "sine-qua-non" para uma educação verdadeiramente do 'ser', muito provavelmente, em pouco tempo - uma década, duas, talvez - as músicas que "nos ferem a audição" pouco ou quase nenhum espaço teriam e os brasileiros voltariam a sorver belas expressões literárias saltitando em linhas melódicas inebriantes, como nos versos de 'Angenor de Oliveira', o Cartola, em "As rosas não falam" e "O mundo é um moinho".
Assim, antes da crítica, precisamos buscar compreender as raízes dos problemas que, de modo implacável, atingem a sociedade brasileira. E, sem dúvida, a educação é um dos principais, depois de tantas e tão desastrosas "experiências" que vêm se sucedendo, na base da "tentativa-e-erro".
Mas, voltando aos compositores, quero abraçá-los no seu dia. Poderia citar muitos. Mas hoje opto por lembrar um talentoso músico - com toda a intensidade da palavra - que Sergipe teve e pouco lembra: 'João Rodrigues de Jesus' - meu professor de violão, quando, aos 15 anos, ganhei o meu instrumento, que ainda hoje possuo, conservadíssimo, bem cuidado como a mim mesmo, "um Di Giorgio do tempo que um Di Giorgio era um Di Giorgio". Quem entende de violão sabe o que estou dizendo. 
Conheci, àquela época, o professor João Rodrigues, sugerido que fora para ensinar-me pelo violonista "Carnera", 'Ursino Fontes de Araújo Góis', amigo de meu pai. Muita gente em Aracaju começou a "fazer aulas de violão", como se diz atualmente, com ele.
Homem simples, de profissão 'alfaiate', conhecia teoria musical como poucos. Utilizando-se do livro "Iniciação violonística", de autoria da concertista 'Maria Lívia São Marcos', método dos mais respeitados na didática violonística, ia aos poucos, do "zero" mesmo, ensinando os segredos do violão aos seus alunos. Era rigoroso em tudo - com a postura corporal, o jeito de "segurar" o instrumento, a posição das mãos, o dedilhar. Passar para um novo estudo, só quando o atual estivesse sendo executado sem erros. Tocar música logo, acompanhar-se, nem pensar. Ele percorria o caminho sugerido pelo método, avançando gradativamente na teoria, nas escalas, nos exercícios de arpejo. Alguns alunos, menos pacientes, desistiam, outros perseveravam e iam até onde o professor podia chegar.
A convivência com o mestre levava os alunos a admirar aquele senhor sisudo, solteirão, de trajes antiquados, que pouco comentava sobre a sua vida pessoal. Dele, comentava-se apenas que tivera um grande amor num passado distante, alguém que se mudara de cidade e nunca mais havia visto, talvez... As hipóteses eram muitas, para se compreender a sua solidão, estampada nas músicas que gostava de cantar, e que, aos poucos, ia ensinando. Recordo-me de algumas: "A noite do meu bem", "Ouça", "Abismo de rosas", entre outras. Esta última ele tinha em partitura original com uma dedicatória de certa dama que dizia muito querer bem. Seria ela o seu grande amor?
O compositor sergipano 'Mingo Santana' o conheceu bem, posto que, já em idade avançada e sem condições de trabalho, o professor passava seus dias nas lojas de instrumentos musicais da cidade e o seu grande prazer era afinar os instrumentos postos à venda, dedilhar bonitas melodias e, então, naturalmente, emitir a sua opinião técnica. Conhecia com profundidade o violão e o cavaquinho, mas seu instrumento por excelência era o bandolim. Enchia a boca quando dizia: "O piano é o rei do regional; o bandolim é o príncipe".
Durante suas aulas, preferencialmente no final, gostava de executar algumas peças musicais, umas clássicas, outras populares, creio que a título de despertar no aluno maior gosto pelo estudo do instrumento.
Assim, ao término de uma das minhas aulas, o ouvi executar - e encantei-me desde aquele instante! - um choro de sua própria autoria, que, segundo ele, estava ainda "em fase de ajustes". E bote ajuste nisso, diante de sua rigorosidade musical.
Vez por outra eu lhe perguntava sobre a música e ouvia a mesma resposta. Certo dia, ele me chega com uma partitura escrita à mão, uma de suas especialidades. Era a música "Doce recordação". Finalmente, ele havia dada por concluída a composição. Segundo suas palavras, "uma composição para bandolim". "Pode ser tocada em outros instrumentos, mas foi escrita para o bandolim, com as peculiaridades de execução próprias do bandolim" - disse-me. E complementou: "E o certo é tocar neste tom que está escrita".
João Rodrigues conhecia bem música clássica e certamente as afirmações sobre a sua composição tinham estreita relação com as peças dos grandes compositores clássicos, muitas escritas para instrumentos específicos.
O tempo passou e, como a vida é um ciclo, o mestre João Rodrigues se foi, tão humilde como viveu, executar suas canções junto a outros grandes compositores, próximo de Deus e de seus anjos, músicos por natureza.
Hoje, poucos, além dos seus alunos - vez ou outra - lembram-se do grande compositor sergipano João Rodrigues de Jesus, o professor João Rodrigues, de violão.
Graças a Deus, Mingo Santana, num felicíssimo momento autoral, conseguiu "retratar" com precisão, num poema, quem era João Rodrigues imerso em seus sentimentos. O conheci bem e atesto a fidedignidade dos versos de Mingo à personalidade do professor.
Os versos encaixaram-se maravilhosamente na melodia e a canção caiu-como-uma-luva na voz de 'Raquel Delmondes'. "Doce recordação", de João Rodrigues e Mingo Santana, é uma das mais belas músicas que integram o seu álbum "Vem cantar meu samba", cuja recomendação se me impõe para os que têm audição requintada.
Abraço, Mingo! Sua bênção, João Rodrigues!
E feliz "Dia do Compositor" para os compositores todos, independente de idade, de gênero musical, de prestígio ou não. Parabéns para quem empresta seu talento à emoção de tantos.
Quanto a mim, agora vou ouvir "Doce recordação", que me traz muitas e tão doces recordações.

* Raymundo Mello é Memorialistaraymundopmello@yahoo.com.br