Blitz Cultural no coração do Bugio

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Você tem fome de quê?
Você tem fome de quê?

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Publicada em 18/01/2019 às 07:22:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
A próxima semana, entre 
os dias 25 e 27 de janei-
ro, o grupo Boca de Cena transforma o conjunto Bugio em um grande palco, oferecendo uma bela mostra do poder de fogo desprezado pelo poder público na periferia de Aracaju. 
Arte e reflexão. Teatro, música, oficinas e debate. Segundo o ator e produtor cultural Rogério Alves, para quem todo lugar de fala deve ser reivindicado com a ação mais consequente, a Blitz Cultural é um ato político. Trata-se, no fim das contas, de declarar a potência criativa dos situados à margem. Com todas as letras, em alto e bom som.
"O grupo sabe que é um agente social dentro da comunidade e nosso objetivo é sempre fomentar a arte, trazendo todos os públicos, de todas as faixas etárias, para dentro da nossa sede".
Na entrevista abaixo, o artista fala por si mesmo, pelo Grupo Boca de Cena e, sobretudo, por todos os famintos de comida, diversão e arte. Como a perguntar: "Você tem fome de quê?". 
A programação completa da Blitz Cultural pode ser acessada nos canais mantidos pelo Grupo de Boca de Cena nas redes sociais.
Jornal do Dia - O que é a Blitz Cultural? Como e quando surgiu? Quantas edições já foram realizadas?
Grupo Boca de Cena - A Blitz Cultural é um festival de arte realizado pelo grupo Boca de Cena, cujo objetivo é parar, pensar e refletir arte! A nossa intenção é a de promover o reencantamento do cotidiano, através do teatro, da dança, música, artes plásticas, oficinas e workshops realizados na sede do grupo e escolas da rede pública.
A primeira edição da Blitz foi realizada em setembro de 2014, em comemoração aos 9 anos do grupo, às vésperas da estreia do espetáculo 'Como Nasce um Santo', mobilizando principalmente a cena teatral, com personalidades de âmbito local e nacional.
Realizamos a Blitz duas vezes, a primeira em 2014 e a segunda em 2015, em comemoração aos 10 anos do grupo. Infelizmente, ficou inviável dar continuidade ao projeto, visto que não tínhamos patrocínio, tudo era produzido por conta própria, e o apoio era somente dos artistas que se apresentavam de graça. Isso já não é um ato Político?
JD - O projeto promove diversas atividades no conjunto Bugio. O que vocês prepararam para a edição deste ano?
Boca de Cena - Todos os anos a gente busca de alguma forma cumprir nosso papel enquanto agentes culturais e artistas, seja através de uma oficina gratuita numa escola pública ou de um espetáculo apresentado na praça. O grupo sabe que é um agente social dentro da comunidade e nosso objetivo é sempre fomentar a arte, trazendo todos os públicos, de todas as faixas etária, para dentro da nossa sede, um trabalho de formiguinha, tendo em vista a geração de bons frutos. Inclusive, uma de nossas atrizes mora no Bugio, participou de uma oficina do Boca de Cena em 2012. Este é um círculo virtuoso de transformação social que começa e não tem fim.
JD - A sede do Grupo Boca de Cena talvez seja o único aparelho cultural do Bugio. Neste particular, é possível afirmar que as periferias da capital sergipana foram abandonadas pelo poder público?
Boca de Cena - O Bugio foi um bairro com uma efervescência cultural muito forte na década de 80, é habitado por diversos artistas populares. Infelizmente, o Bugio apresentado na mídia é apenas um bairro periférico de Aracaju com índices altíssimos de criminalidade. 
Desde 2010, quando o grupo se firma no bairro, com a ocupação de um posto de saúde desativado, tentamos reverter essa impressão promovendo o exercício artístico dentro da periferia, dialogando com a comunidade do Bugio, Jardim Centenário e imediações, buscando parcerias com grupos locais e de outros estados, artistas de renome nacional e internacional, apresentando a potência criativa deste lugar para o Brasil inteiro. Se as periferias foram abandonadas pelo poder público não foi com a nossa colaboração.
JD - Qual a expectativa do grupo em relação ao governo Belivaldo Chagas? A nomeação de Conceição Vieira para dirigir a Fundação Aperipê lhes parece acertada?
Boca de Cena - Estamos passando por um momento tenebroso, em âmbito nacional. Realmente é complicado falar de incentivo cultural quando se extingue o Ministério da Cultura, com o previsível efeito dominó, em estados e municípios. Sem Ministério da Cultura, sem Secretaria de Cultura. Vamos aguardar as cenas do próximo capítulo desse governo que, até agora, dá continuidade à velha política sergipana. Quanto ao nome da Conceição Vieira para a direção da Fundação Aperipê precisamos aguardar, ainda é cedo, sabemos que ela sempre foi uma pessoa ativa na política sergipana, na luta por questões sociais, mas seria prematuro da nossa parte assumir um posicionamento agora. 
JD - Os artistas dos quatro cantos do País parecem concordar com a impressão de viver tempos sombrios. No entanto, o Boca de Cena não demonstra a menor disposição para o lamento. Aliás, talvez seja possível afirmar que o grupo vive um excelente momento criativo e profissional, como demonstra o patrocínio do projeto Palco Giratório (Sesc), de abrangência nacional. O que explica a incongruência? A situação de vocês é excepcional?
Boca de Cena - Um grupo que compra um terreno com a própria grana e ergue um equipamento cultural no Bugio, "periferia" de Aracaju, promove um festival com acesso livre, abarcando escolas da rede pública, sem apoio financeiro, vive uma situação excepcional? A gente gosta de fazer. Se for preciso, a gente tira do nosso próprio bolso para materializar os nossos sonhos e contribuir com a formação de um mundo mais sensível e de afetos positivos, na construção da realidade concreta. A gente ocupa o nosso lugar de fala fazendo.
A sensação é que sempre foi difícil. Chega ser tenebroso e sombrio! E, como diz Isabel Santos, no livro do Grupo Imbuaça , sobre a dificuldade de trabalhar com arte: "O mais difícil foi e ainda é conciliar a profissão de produzir magia e a magia de produzir sobrevivência". 

A próxima semana, entre  os dias 25 e 27 de janei- ro, o grupo Boca de Cena transforma o conjunto Bugio em um grande palco, oferecendo uma bela mostra do poder de fogo desprezado pelo poder público na periferia de Aracaju. 
Arte e reflexão. Teatro, música, oficinas e debate. Segundo o ator e produtor cultural Rogério Alves, para quem todo lugar de fala deve ser reivindicado com a ação mais consequente, a Blitz Cultural é um ato político. Trata-se, no fim das contas, de declarar a potência criativa dos situados à margem. Com todas as letras, em alto e bom som.
"O grupo sabe que é um agente social dentro da comunidade e nosso objetivo é sempre fomentar a arte, trazendo todos os públicos, de todas as faixas etárias, para dentro da nossa sede".
Na entrevista abaixo, o artista fala por si mesmo, pelo Grupo Boca de Cena e, sobretudo, por todos os famintos de comida, diversão e arte. Como a perguntar: "Você tem fome de quê?". 
A programação completa da Blitz Cultural pode ser acessada nos canais mantidos pelo Grupo de Boca de Cena nas redes sociais.

Jornal do Dia - O que é a Blitz Cultural? Como e quando surgiu? Quantas edições já foram realizadas?

Grupo Boca de Cena - A Blitz Cultural é um festival de arte realizado pelo grupo Boca de Cena, cujo objetivo é parar, pensar e refletir arte! A nossa intenção é a de promover o reencantamento do cotidiano, através do teatro, da dança, música, artes plásticas, oficinas e workshops realizados na sede do grupo e escolas da rede pública.
A primeira edição da Blitz foi realizada em setembro de 2014, em comemoração aos 9 anos do grupo, às vésperas da estreia do espetáculo 'Como Nasce um Santo', mobilizando principalmente a cena teatral, com personalidades de âmbito local e nacional.
Realizamos a Blitz duas vezes, a primeira em 2014 e a segunda em 2015, em comemoração aos 10 anos do grupo. Infelizmente, ficou inviável dar continuidade ao projeto, visto que não tínhamos patrocínio, tudo era produzido por conta própria, e o apoio era somente dos artistas que se apresentavam de graça. Isso já não é um ato Político?

JD - O projeto promove diversas atividades no conjunto Bugio. O que vocês prepararam para a edição deste ano?

Boca de Cena - Todos os anos a gente busca de alguma forma cumprir nosso papel enquanto agentes culturais e artistas, seja através de uma oficina gratuita numa escola pública ou de um espetáculo apresentado na praça. O grupo sabe que é um agente social dentro da comunidade e nosso objetivo é sempre fomentar a arte, trazendo todos os públicos, de todas as faixas etária, para dentro da nossa sede, um trabalho de formiguinha, tendo em vista a geração de bons frutos. Inclusive, uma de nossas atrizes mora no Bugio, participou de uma oficina do Boca de Cena em 2012. Este é um círculo virtuoso de transformação social que começa e não tem fim.

JD - A sede do Grupo Boca de Cena talvez seja o único aparelho cultural do Bugio. Neste particular, é possível afirmar que as periferias da capital sergipana foram abandonadas pelo poder público?

Boca de Cena - O Bugio foi um bairro com uma efervescência cultural muito forte na década de 80, é habitado por diversos artistas populares. Infelizmente, o Bugio apresentado na mídia é apenas um bairro periférico de Aracaju com índices altíssimos de criminalidade. 
Desde 2010, quando o grupo se firma no bairro, com a ocupação de um posto de saúde desativado, tentamos reverter essa impressão promovendo o exercício artístico dentro da periferia, dialogando com a comunidade do Bugio, Jardim Centenário e imediações, buscando parcerias com grupos locais e de outros estados, artistas de renome nacional e internacional, apresentando a potência criativa deste lugar para o Brasil inteiro. Se as periferias foram abandonadas pelo poder público não foi com a nossa colaboração.

JD - Qual a expectativa do grupo em relação ao governo Belivaldo Chagas? A nomeação de Conceição Vieira para dirigir a Fundação Aperipê lhes parece acertada?

Boca de Cena - Estamos passando por um momento tenebroso, em âmbito nacional. Realmente é complicado falar de incentivo cultural quando se extingue o Ministério da Cultura, com o previsível efeito dominó, em estados e municípios. Sem Ministério da Cultura, sem Secretaria de Cultura. Vamos aguardar as cenas do próximo capítulo desse governo que, até agora, dá continuidade à velha política sergipana. Quanto ao nome da Conceição Vieira para a direção da Fundação Aperipê precisamos aguardar, ainda é cedo, sabemos que ela sempre foi uma pessoa ativa na política sergipana, na luta por questões sociais, mas seria prematuro da nossa parte assumir um posicionamento agora. 

JD - Os artistas dos quatro cantos do País parecem concordar com a impressão de viver tempos sombrios. No entanto, o Boca de Cena não demonstra a menor disposição para o lamento. Aliás, talvez seja possível afirmar que o grupo vive um excelente momento criativo e profissional, como demonstra o patrocínio do projeto Palco Giratório (Sesc), de abrangência nacional. O que explica a incongruência? A situação de vocês é excepcional?

Boca de Cena - Um grupo que compra um terreno com a própria grana e ergue um equipamento cultural no Bugio, "periferia" de Aracaju, promove um festival com acesso livre, abarcando escolas da rede pública, sem apoio financeiro, vive uma situação excepcional? A gente gosta de fazer. Se for preciso, a gente tira do nosso próprio bolso para materializar os nossos sonhos e contribuir com a formação de um mundo mais sensível e de afetos positivos, na construção da realidade concreta. A gente ocupa o nosso lugar de fala fazendo.
A sensação é que sempre foi difícil. Chega ser tenebroso e sombrio! E, como diz Isabel Santos, no livro do Grupo Imbuaça , sobre a dificuldade de trabalhar com arte: "O mais difícil foi e ainda é conciliar a profissão de produzir magia e a magia de produzir sobrevivência".