AINDA SOBRE A POSSE DO PRESIDENTE BOLSONARO

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Publicada em 19/01/2019 às 07:11:00

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
A posse de qualquer presidente da república mundo afora, levanta expectativas, comentários e cenários prospectivos. Pauta para mídias, atenção de lideranças estrangeiras e abstrações geopolíticas. Na atualidade, carrega uma maior visibilidade, em face da globalização, onde os interesses das nações ultrapassam as fronteiras pátrias "além mar e ar", num contexto de competição e proteção ampliadas. Um mundo complexo que nos brutaliza. 
No caso do Brasil, as atenções ocupam os ambientes interno e externo. No externo, a importância como a décima economia mundial, produtor e exportador de alimentos, possuidor de estratégica biodiversidade, energia fóssil, e liderança no continente latino-americano. Um País com um futuro inexorável para se consolidar como uma potência na geopolítica mundial. 
No nível interno, a ascensão pela soberania popular de um Presidente da República assumidamente de direita, uma proposta neoliberal da economia, conservador nos costumes, crítico aos direitos humanos, ao meio ambiente e aproximações religiosas. Um fenômeno eleitoral, merecedor de explicações, em face de ser filiado a um partido político nanico, sem abrangência nacional, limitada exposição pública, e isolamento de lideranças políticas.
Isso não é pouco. Um inédito governante no presidencialismo brasileiro contemporâneo, eleito com esse perfil e circunstâncias. Confirmação das práticas e promessas de uma "direita até então recolhida". Inéditas propostas de governo, como "posse de arma, privatizações de estatais, acolhimento de militares e distância do presidencialismo de coalizão". Uma eleição com características ímpares, merece a atenção da sociologia, da economia, da antropologia, e da ciência política, numa era globalizante, para entender o "mito". Alternância de poder, por mais de duas décadas, de três presidentes eleitos e reeleitos. Um alinhado à social democracia. Outros, de matriz socialista, identificado com o ideário dos intelectuais e sindicatos de trabalhadores. 
Uma vitória jamais imaginada pelos qualificados e experientes analistas. Relevante compreender as formalidades e simbologias visíveis e invisíveis da posse presidencial, ingrediente do novo governo. As visíveis, como os "convidados e desconvidados", o desfile em carro aberto, os discursos do Presidente e da primeira dama, os trajes e vestes, a ostensiva segurança, entre outros. As invisíveis, nos bastidores e protocolos confidenciais, inacessíveis e proibidos aos comuns em tempo real. 
Entre as formalidades visíveis, atenção aos inusitados acontecimentos. Primeiro, a parada do imperial Rolls-Royce, com o Presidente e a evangélica primeira dama, em frente à Catedral de Brasília, um templo católico, oriundo da prancheta do comunista Oscar Niemayer. Supõe-se que receberam as "bênçãos de um sacerdote negro". Na campanha eleitoral, realce para o apoio das igrejas pentecostais. Segundo, o desajeitado carona no carro do desfile presidencial, alojado sobre o felpudo assento. Inexplicável para uma cerimônia com tal requinte. Não era um qualquer, mas o filho do Presidente. Um improvisado segurança, contra um imaginário "atentado pelas costas" tal qual o sofrido pelo Presidente americano John Kennedy. Terceiro, a esferográfica Bic, de tinta azul, usada na assinatura das posses ministeriais. Aparente expressão de simplicidade, menosprezo à compreensão da sociedade, mascarando os custos e pompas de uma cerimônia de tal grandeza.
Qualquer que sejam os registros da história, existe um fenômeno político, incorporado num Presidente eleito e empossado com simbologias visíveis e invisíveis, algumas explicadas, outras não. As pessoas não se alimentam de palavras e "libras", mas de ações, comida, emprego, educação, segurança, moradia e bem-viver. O tempo dirá se a ruptura aconteceu por uma soberana e pensada escolha popular; ações articuladas de uma robusta direita; o fim de um círculo político; ou uma renovação incompleta, com imponderáveis consequências.  No dizer de Hannah Arendt, "o sentido da política é a liberdade, [nunca] a banalidade do mal".
* Manoel Moacir Costa Macêdo,  Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

* Manoel Moacir Costa Macêdo

A posse de qualquer presidente da república mundo afora, levanta expectativas, comentários e cenários prospectivos. Pauta para mídias, atenção de lideranças estrangeiras e abstrações geopolíticas. Na atualidade, carrega uma maior visibilidade, em face da globalização, onde os interesses das nações ultrapassam as fronteiras pátrias "além mar e ar", num contexto de competição e proteção ampliadas. Um mundo complexo que nos brutaliza. 
No caso do Brasil, as atenções ocupam os ambientes interno e externo. No externo, a importância como a décima economia mundial, produtor e exportador de alimentos, possuidor de estratégica biodiversidade, energia fóssil, e liderança no continente latino-americano. Um País com um futuro inexorável para se consolidar como uma potência na geopolítica mundial. 
No nível interno, a ascensão pela soberania popular de um Presidente da República assumidamente de direita, uma proposta neoliberal da economia, conservador nos costumes, crítico aos direitos humanos, ao meio ambiente e aproximações religiosas. Um fenômeno eleitoral, merecedor de explicações, em face de ser filiado a um partido político nanico, sem abrangência nacional, limitada exposição pública, e isolamento de lideranças políticas.
Isso não é pouco. Um inédito governante no presidencialismo brasileiro contemporâneo, eleito com esse perfil e circunstâncias. Confirmação das práticas e promessas de uma "direita até então recolhida". Inéditas propostas de governo, como "posse de arma, privatizações de estatais, acolhimento de militares e distância do presidencialismo de coalizão". Uma eleição com características ímpares, merece a atenção da sociologia, da economia, da antropologia, e da ciência política, numa era globalizante, para entender o "mito". Alternância de poder, por mais de duas décadas, de três presidentes eleitos e reeleitos. Um alinhado à social democracia. Outros, de matriz socialista, identificado com o ideário dos intelectuais e sindicatos de trabalhadores. 
Uma vitória jamais imaginada pelos qualificados e experientes analistas. Relevante compreender as formalidades e simbologias visíveis e invisíveis da posse presidencial, ingrediente do novo governo. As visíveis, como os "convidados e desconvidados", o desfile em carro aberto, os discursos do Presidente e da primeira dama, os trajes e vestes, a ostensiva segurança, entre outros. As invisíveis, nos bastidores e protocolos confidenciais, inacessíveis e proibidos aos comuns em tempo real. 
Entre as formalidades visíveis, atenção aos inusitados acontecimentos. Primeiro, a parada do imperial Rolls-Royce, com o Presidente e a evangélica primeira dama, em frente à Catedral de Brasília, um templo católico, oriundo da prancheta do comunista Oscar Niemayer. Supõe-se que receberam as "bênçãos de um sacerdote negro". Na campanha eleitoral, realce para o apoio das igrejas pentecostais. Segundo, o desajeitado carona no carro do desfile presidencial, alojado sobre o felpudo assento. Inexplicável para uma cerimônia com tal requinte. Não era um qualquer, mas o filho do Presidente. Um improvisado segurança, contra um imaginário "atentado pelas costas" tal qual o sofrido pelo Presidente americano John Kennedy. Terceiro, a esferográfica Bic, de tinta azul, usada na assinatura das posses ministeriais. Aparente expressão de simplicidade, menosprezo à compreensão da sociedade, mascarando os custos e pompas de uma cerimônia de tal grandeza.
Qualquer que sejam os registros da história, existe um fenômeno político, incorporado num Presidente eleito e empossado com simbologias visíveis e invisíveis, algumas explicadas, outras não. As pessoas não se alimentam de palavras e "libras", mas de ações, comida, emprego, educação, segurança, moradia e bem-viver. O tempo dirá se a ruptura aconteceu por uma soberana e pensada escolha popular; ações articuladas de uma robusta direita; o fim de um círculo político; ou uma renovação incompleta, com imponderáveis consequências.  No dizer de Hannah Arendt, "o sentido da política é a liberdade, [nunca] a banalidade do mal".

* Manoel Moacir Costa Macêdo,  Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra