Um novo ano escolar

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Publicada em 22/01/2019 às 06:53:00

 

* Raymundo Mello
(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)
 
Desde as 9 horas de 1.º de março de 
1982, sou Professor. Lá se vão qua-
se 37 anos. "Começaria tudo outra vez se preciso fosse, (...) a chama em meu peito ainda queima, (...) nada foi em vão" - parafraseando 'Gonzaguinha' -, já que as raras agruras são ínfimas diante das inúmeras circunstâncias gratificantes que cercam o árduo trabalho. 
Pena que a educação no Brasil mudou tanto - penso que para pior! - desde aquela "época de ouro" quando iniciei, jovem, aos 20 anos. Tive que enfrentar desafios, me superar. Comecei a ensinar já integrando um "time de craques", alguns, inclusive, mestres consagrados que haviam sido meus professores. Os alunos, apenas 5 anos mais novos que eu, eram, na sua maioria, estudantes sobre os quais os professores "enchiam a boca" ao dizer: "Fulano/a é excelente!". Mas a vontade de "fazer bonito" era grande. Desde cedo já ministrava aulas particulares para alunos das séries iniciais e quando surgiu a oportunidade, segurei.
Acompanhei as "transformações" que foram sendo implantadas, assistindo de perto a "construção" do caos ao qual chegamos. Lembro-me que participando de uma mesa-redonda num programa de rádio no período de implantação do chamado Processo Seletivo Seriado (PSS), que, graças a Deus, acabou de forma tão medíocre como começou, fui o único a discordar dos outros participantes, todos alinhados com a modernidade avassaladora. Afirmei categoricamente: "Ao elaborar este modelo estúpido, seus idealizadores "rasgaram" todo o conteúdo dos livros de Psicologia do Desenvolvimento". Fui criticado - era retrógrado, a educação precisava evoluir, caminhar passo-a-passo com a modernidade. Os que me criticaram, anos depois do fracasso do sistema praticamente repetiram o meu discurso, mas a pouca humildade não lhes permitiu reconhecer que eu tinha razão.
E aí, outras tantas mudanças foram acontecendo... "É preciso manter o aluno na escola, a reprovação afasta, desmotiva", e com isso as avaliações, os sonhados '42 pontos para passar direto', sem prova final nem recuperação, foram "pro beleléu" - a média foi baixando cada vez mais, os alunos perderam o compromisso com as provas; arguição, penso, é palavra obsoleta hoje nos ambientes educativos. Trabalho de pesquisa, frequência às bibliotecas, folhear páginas de livros? Nem pensar! Hoje existe o Google e a ferramenta "copiar-e-colar". Disciplina, respeito às normas de conduta dentro e fora das escolas, é coisa do passado, talvez o 'Jessier Quirino', poeta que canta as coisas bonitas do existir, possa incluir estes itens no seu poema "Vou-me embora pro passado" - se assemelham ao que ele relembra com nostalgia... E por aí vai...
No final do ano passado, estando num ônibus, num certo ponto subiram uns 15 estudantes fardando uniforme de uma bem referida escola de nossa cidade - bem dispostos, sorridentes, rapazes estilosos e moças desenvolvidas fisicamente para a idade. As conversas, "belíssimas" para um ônibus com tantas pessoas idosas. A frase mais "singela" que ouvi de uma das garotas, foi: "Véio, que prova foi aquela? Eu tô f.....", com o respectivo gesto significativo do estado que disse encontrar-se.
Mas as escolas enchem o peito ao dizer que ensinam disciplinas "exóticas", que seus alunos - que pouco conhecem a exuberante e completa Língua Portuguesa e suas literaturas - dominam idiomas estrangeiros, são selecionados para instituições no exterior, isso para citar alguns poucos exemplos de um modelo de ensino "maquiado", que, por um lado, serve aos interesses do capital e, por outro, dá margem a compensações políticas pelo que não se fez nem faz (pelo ensino público), através de programas como bolsa-escola e tantos outros.
Olho tudo isto de longe. E ao escrever este artigo relembro tanta coisa boa que vivi nas minhas salas de aula... e esqueço por um momento o triste cenário. E como o carnaval está próximo, canto com 'Zé Keti' a sua marchinha carnavalesca: "Na mesma máscara negra que esconde o teu rosto eu quero matar a saudade. (...) não me leve a mal: hoje é carnaval". Não, carnaval, não. É o começo de um novo ano escolar.
Bons estudos pra todos!
E que nos nutra de esperança por dias melhores na educação no Brasil a frase proverbial de São João Bosco: "Amanhã será melhor!".
Que seja mesmo!
* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br

* Raymundo Mello

(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)

Desde as 9 horas de 1.º de março de  1982, sou Professor. Lá se vão qua- se 37 anos. "Começaria tudo outra vez se preciso fosse, (...) a chama em meu peito ainda queima, (...) nada foi em vão" - parafraseando 'Gonzaguinha' -, já que as raras agruras são ínfimas diante das inúmeras circunstâncias gratificantes que cercam o árduo trabalho. 
Pena que a educação no Brasil mudou tanto - penso que para pior! - desde aquela "época de ouro" quando iniciei, jovem, aos 20 anos. Tive que enfrentar desafios, me superar. Comecei a ensinar já integrando um "time de craques", alguns, inclusive, mestres consagrados que haviam sido meus professores. Os alunos, apenas 5 anos mais novos que eu, eram, na sua maioria, estudantes sobre os quais os professores "enchiam a boca" ao dizer: "Fulano/a é excelente!". Mas a vontade de "fazer bonito" era grande. Desde cedo já ministrava aulas particulares para alunos das séries iniciais e quando surgiu a oportunidade, segurei.
Acompanhei as "transformações" que foram sendo implantadas, assistindo de perto a "construção" do caos ao qual chegamos. Lembro-me que participando de uma mesa-redonda num programa de rádio no período de implantação do chamado Processo Seletivo Seriado (PSS), que, graças a Deus, acabou de forma tão medíocre como começou, fui o único a discordar dos outros participantes, todos alinhados com a modernidade avassaladora. Afirmei categoricamente: "Ao elaborar este modelo estúpido, seus idealizadores "rasgaram" todo o conteúdo dos livros de Psicologia do Desenvolvimento". Fui criticado - era retrógrado, a educação precisava evoluir, caminhar passo-a-passo com a modernidade. Os que me criticaram, anos depois do fracasso do sistema praticamente repetiram o meu discurso, mas a pouca humildade não lhes permitiu reconhecer que eu tinha razão.
E aí, outras tantas mudanças foram acontecendo... "É preciso manter o aluno na escola, a reprovação afasta, desmotiva", e com isso as avaliações, os sonhados '42 pontos para passar direto', sem prova final nem recuperação, foram "pro beleléu" - a média foi baixando cada vez mais, os alunos perderam o compromisso com as provas; arguição, penso, é palavra obsoleta hoje nos ambientes educativos. Trabalho de pesquisa, frequência às bibliotecas, folhear páginas de livros? Nem pensar! Hoje existe o Google e a ferramenta "copiar-e-colar". Disciplina, respeito às normas de conduta dentro e fora das escolas, é coisa do passado, talvez o 'Jessier Quirino', poeta que canta as coisas bonitas do existir, possa incluir estes itens no seu poema "Vou-me embora pro passado" - se assemelham ao que ele relembra com nostalgia... E por aí vai...
No final do ano passado, estando num ônibus, num certo ponto subiram uns 15 estudantes fardando uniforme de uma bem referida escola de nossa cidade - bem dispostos, sorridentes, rapazes estilosos e moças desenvolvidas fisicamente para a idade. As conversas, "belíssimas" para um ônibus com tantas pessoas idosas. A frase mais "singela" que ouvi de uma das garotas, foi: "Véio, que prova foi aquela? Eu tô f.....", com o respectivo gesto significativo do estado que disse encontrar-se.
Mas as escolas enchem o peito ao dizer que ensinam disciplinas "exóticas", que seus alunos - que pouco conhecem a exuberante e completa Língua Portuguesa e suas literaturas - dominam idiomas estrangeiros, são selecionados para instituições no exterior, isso para citar alguns poucos exemplos de um modelo de ensino "maquiado", que, por um lado, serve aos interesses do capital e, por outro, dá margem a compensações políticas pelo que não se fez nem faz (pelo ensino público), através de programas como bolsa-escola e tantos outros.
Olho tudo isto de longe. E ao escrever este artigo relembro tanta coisa boa que vivi nas minhas salas de aula... e esqueço por um momento o triste cenário. E como o carnaval está próximo, canto com 'Zé Keti' a sua marchinha carnavalesca: "Na mesma máscara negra que esconde o teu rosto eu quero matar a saudade. (...) não me leve a mal: hoje é carnaval". Não, carnaval, não. É o começo de um novo ano escolar.
Bons estudos pra todos!
E que nos nutra de esperança por dias melhores na educação no Brasil a frase proverbial de São João Bosco: "Amanhã será melhor!".
Que seja mesmo!

* Raymundo Mello é Memorialistaraymundopmello@yahoo.com.br