A tragédia do "Risada de Tigre": um poeta estanciano em terra fluminense - II

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 25/01/2019 às 05:59:00

 

* Acrísio Gonçalves de Oliveira
Lima Barreto deu ao poeta estanciano o apelido "Risada de Tigre", talvez por que - de acordo com um jornal do Rio - possuísse o estanciano "amplas gargalhadas, ruidoso". Pereira Barreto também colaborou com a revista Floreal, fundada em 1907 por Lima Barreto. Além da importância dos seus trabalhos, daria um impulso à literatura brasileira por recomendar a Antonio Maria, seu editor português, a publicação do primeiro livro do amigo, o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de 1909. Frequentador do "Café Papagaio", fazia parte do "Esplendor dos Amanuenses" grupo, que dentre outros, estava Bastos Tigre, Domingos Ribeiro Filho, Rafael Pinheiro e os caricaturistas Gil, Calixto e Raul Pederneiras, artista importante e um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, de referência mundial. 
Com a morte da sua mulher, Pereira Barreto passaria a frequentar bares, se tornaria boêmio, se entregaria ao álcool. Dizia que era para tentar esquecer a morte da esposa. Essa vida perturbada o faria até deixar de comer. Depois passou a frequentar diversas vezes sessões de espiritismo, devorando livros sobre o assunto. Nessa época o poeta repentinamente aparecia e desaparecia das rodas de conversas e bebedeiras. Finalmente conseguiu dar a volta por cima e abandonar a vida que levava, pois um amor em sua vida passaria a surgir.
Em junho de 1912, Barreto finalmente casaria com seu novo amor, Annita Levy, natural de Juiz de Fora (MG), cuja mãe, de origem judaica, era viúva bem de vida e dona de uma importante joalheria da cidade mineira. Depois da realização do casamento em Juiz de Fora, o casal passou a residir em Niterói, na rua da Sagração nº 18, bairro do Icaraí. Porém, a paixão arrebatadora que o poeta sentia pela mulher faria o casal passar por momentos torturantes, principalmente por parte da esposa que não podia olhar para ninguém, nem sequer ser olhada. A vizinhança se dizia incomodada com os insultos de Pereira Barreto, os quais eram motivados por ciúmes. Isso diversas vezes o fez se deparar na delegacia. Numa dessas foi o dia que insultou, em praça pública, um homem que coincidentemente parou em sua porta. Também pelo mesmo motivo fez confusão a um grupo de rapazes. Nesse ciúme doentio sempre se voltava para a esposa, culpabilizando-a.
Esse temperamento violento de João Pereira Barreto era comum quando bebia. Alguns anos antes, ao estar entre amigos, envolveu-se em confusão com um alemão que ali tomava bebida de forma tranquila. Como ambos estavam embriagados, a simples troca de olhar foi o suficiente para Barreto começar o conflito, ali contido pelos colegas. Mas, quando o alemão ia-se embora o poeta sacou de uma arma e atirou nele, pegando a bala de raspão. Por incrível que pareça a vítima deixou o caso por aquilo mesmo.
Na noite do dia 2 de dezembro de 1912, depois de participar de uma sessão espírita, seguiu com os amigos - inclusive Lima Barreto - a um bar próximo, se prolongando a altas horas da madrugada do dia seguinte. Embriagado, voltou para casa pensando numa possível infidelidade conjugal e esse delírio o fez concluir que, por isso, deveria matar sua esposa. Batendo à porta já de arma em punho, esperou que ela abrisse. Do outro lado da porta estava Annita Levy, sonolenta e com trajes próprios de dormir. Ferozmente ele a empurrou e, de mãos à pistola atirou-lhe na face. 
Pereira Barreto tinha partido em fuga. Foi em busca do seu cunhado, o já citado e famoso escritor sergipano, o lagartense Sílvio Romero. Também confessara o assassinato a um sobrinho seu. Em seguida desapareceu. Silvio Romero não tergiversou, pediu que o caso fosse logo comunicado à polícia. Horas depois, na cena do crime, legistas encontrariam cadeiras viradas, e, ao lado, o corpo da jovem Annita, cujas mãos agarravam fósforos e um molho de chaves. Um pouco afastado, castiçal e três pentes de bala. Perdeu a vida aos 28 anos. Estava grávida! O belo soneto denominado "Quadros", que Pereira Barreto produziria anos depois, parecia traduzir aquele infeliz momento. Aqui, reproduzimos duas de suas estrofes:
Depois, do interno abismo a noite fria e densa/Desdobra lentamente o lutuoso manto/ Sobre os sonhos do amor, sobre os sonhos da crença
Enquanto tudo assim se esvai em sombra, enquanto/ Se envolve o coração nessa mortalha imensa/Funde na alma a saudade e se degela em pranto!
Somente sete meses depois Barreto se entregaria. Preso em São Paulo, logo seria enviado para o Rio. Chegando à capital federal reclamou da imprensa que entendia tê-lo tratado como "criminoso profissional". Em resposta, o jornal O Imparcial atacou: "seus antecedentes, todos eles nocivos, depunham contra o assassino que a sociedade amaldiçoava". Preso na Casa de Detenção, teve que ouvir o desabafo da mãe da vítima, Zorett Levy, que em soluços, chamou-o de "bandido, miserável, ingrato e covarde". Em seguida recebeu a visita de Sílvio Romero, acompanhado de seus advogados. Abatido, disse que teria cometido o crime por causa do "hipnotismo" e que era "vítima da acerbação de espírito" e das constantes vaias da vizinhança. Relatou ainda, que após a tragédia, se deu conta que estava no "comboio de um trem da Central" e que despertou "debaixo de uma contração de nervos". Só depois que acordou percebeu que o trem se dirigia para São Paulo. Nessa cidade ficou em casa de uma família conhecida apenas por uma hora e, que de repente, um "poder estranho", o fez saltar pela janela. João Pereira Barreto ainda contou que ficara 57 dias acamado na cidade paulista.
Com a prisão do assassino, Niterói ficou histérica e a imprensa carioca só comentava o terrível crime. O povo queria justiça. As "justificativas" do "Risada de Tigre" não foram bem recebidas pelo público. Foi tachado de "criminoso convicto, de um semilouco feroz e malvado". (continua)
* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância

* Acrísio Gonçalves de Oliveira

Lima Barreto deu ao poeta estanciano o apelido "Risada de Tigre", talvez por que - de acordo com um jornal do Rio - possuísse o estanciano "amplas gargalhadas, ruidoso". Pereira Barreto também colaborou com a revista Floreal, fundada em 1907 por Lima Barreto. Além da importância dos seus trabalhos, daria um impulso à literatura brasileira por recomendar a Antonio Maria, seu editor português, a publicação do primeiro livro do amigo, o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de 1909. Frequentador do "Café Papagaio", fazia parte do "Esplendor dos Amanuenses" grupo, que dentre outros, estava Bastos Tigre, Domingos Ribeiro Filho, Rafael Pinheiro e os caricaturistas Gil, Calixto e Raul Pederneiras, artista importante e um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, de referência mundial. 
Com a morte da sua mulher, Pereira Barreto passaria a frequentar bares, se tornaria boêmio, se entregaria ao álcool. Dizia que era para tentar esquecer a morte da esposa. Essa vida perturbada o faria até deixar de comer. Depois passou a frequentar diversas vezes sessões de espiritismo, devorando livros sobre o assunto. Nessa época o poeta repentinamente aparecia e desaparecia das rodas de conversas e bebedeiras. Finalmente conseguiu dar a volta por cima e abandonar a vida que levava, pois um amor em sua vida passaria a surgir.
Em junho de 1912, Barreto finalmente casaria com seu novo amor, Annita Levy, natural de Juiz de Fora (MG), cuja mãe, de origem judaica, era viúva bem de vida e dona de uma importante joalheria da cidade mineira. Depois da realização do casamento em Juiz de Fora, o casal passou a residir em Niterói, na rua da Sagração nº 18, bairro do Icaraí. Porém, a paixão arrebatadora que o poeta sentia pela mulher faria o casal passar por momentos torturantes, principalmente por parte da esposa que não podia olhar para ninguém, nem sequer ser olhada. A vizinhança se dizia incomodada com os insultos de Pereira Barreto, os quais eram motivados por ciúmes. Isso diversas vezes o fez se deparar na delegacia. Numa dessas foi o dia que insultou, em praça pública, um homem que coincidentemente parou em sua porta. Também pelo mesmo motivo fez confusão a um grupo de rapazes. Nesse ciúme doentio sempre se voltava para a esposa, culpabilizando-a.
Esse temperamento violento de João Pereira Barreto era comum quando bebia. Alguns anos antes, ao estar entre amigos, envolveu-se em confusão com um alemão que ali tomava bebida de forma tranquila. Como ambos estavam embriagados, a simples troca de olhar foi o suficiente para Barreto começar o conflito, ali contido pelos colegas. Mas, quando o alemão ia-se embora o poeta sacou de uma arma e atirou nele, pegando a bala de raspão. Por incrível que pareça a vítima deixou o caso por aquilo mesmo.
Na noite do dia 2 de dezembro de 1912, depois de participar de uma sessão espírita, seguiu com os amigos - inclusive Lima Barreto - a um bar próximo, se prolongando a altas horas da madrugada do dia seguinte. Embriagado, voltou para casa pensando numa possível infidelidade conjugal e esse delírio o fez concluir que, por isso, deveria matar sua esposa. Batendo à porta já de arma em punho, esperou que ela abrisse. Do outro lado da porta estava Annita Levy, sonolenta e com trajes próprios de dormir. Ferozmente ele a empurrou e, de mãos à pistola atirou-lhe na face. 
Pereira Barreto tinha partido em fuga. Foi em busca do seu cunhado, o já citado e famoso escritor sergipano, o lagartense Sílvio Romero. Também confessara o assassinato a um sobrinho seu. Em seguida desapareceu. Silvio Romero não tergiversou, pediu que o caso fosse logo comunicado à polícia. Horas depois, na cena do crime, legistas encontrariam cadeiras viradas, e, ao lado, o corpo da jovem Annita, cujas mãos agarravam fósforos e um molho de chaves. Um pouco afastado, castiçal e três pentes de bala. Perdeu a vida aos 28 anos. Estava grávida! O belo soneto denominado "Quadros", que Pereira Barreto produziria anos depois, parecia traduzir aquele infeliz momento. Aqui, reproduzimos duas de suas estrofes:
Depois, do interno abismo a noite fria e densa/Desdobra lentamente o lutuoso manto/ Sobre os sonhos do amor, sobre os sonhos da crença
Enquanto tudo assim se esvai em sombra, enquanto/ Se envolve o coração nessa mortalha imensa/Funde na alma a saudade e se degela em pranto!
Somente sete meses depois Barreto se entregaria. Preso em São Paulo, logo seria enviado para o Rio. Chegando à capital federal reclamou da imprensa que entendia tê-lo tratado como "criminoso profissional". Em resposta, o jornal O Imparcial atacou: "seus antecedentes, todos eles nocivos, depunham contra o assassino que a sociedade amaldiçoava". Preso na Casa de Detenção, teve que ouvir o desabafo da mãe da vítima, Zorett Levy, que em soluços, chamou-o de "bandido, miserável, ingrato e covarde". Em seguida recebeu a visita de Sílvio Romero, acompanhado de seus advogados. Abatido, disse que teria cometido o crime por causa do "hipnotismo" e que era "vítima da acerbação de espírito" e das constantes vaias da vizinhança. Relatou ainda, que após a tragédia, se deu conta que estava no "comboio de um trem da Central" e que despertou "debaixo de uma contração de nervos". Só depois que acordou percebeu que o trem se dirigia para São Paulo. Nessa cidade ficou em casa de uma família conhecida apenas por uma hora e, que de repente, um "poder estranho", o fez saltar pela janela. João Pereira Barreto ainda contou que ficara 57 dias acamado na cidade paulista.
Com a prisão do assassino, Niterói ficou histérica e a imprensa carioca só comentava o terrível crime. O povo queria justiça. As "justificativas" do "Risada de Tigre" não foram bem recebidas pelo público. Foi tachado de "criminoso convicto, de um semilouco feroz e malvado". (continua)

* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância