Serra Negra e Poço Redondo

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Publicada em 27/01/2019 às 07:08:00

 

*Rangel Alves da Costa
Somente uma questão de limites interestaduais separou Poço Redondo, em Sergipe, da baiana Serra Negra (hoje Pedro Alexandre), pois no restante sempre existiu uma comunhão de amizades e entrelaçamentos familiares, políticos e de poder. 
A família Carvalho de Serra Negra, principalmente os irmãos João Maria de Carvalho (tenente João Maria, coronel de poder e de mando) e Piduca Alexandre, sempre estiveram presentes na vida de Poço Redondo. Mas a família numerosa, da descendência do alagoano de Entremontes, Pedro Alexandre, toda igualmente amiga do sertão sergipano. E vasta era a prole de Pedro Alexandre: João Maria de Carvalho, Pedro Alexandre Filho (Piduca), Liberato de Carvalho (caçador de cangaceiro e depois general do Exército), João Batista, José Pedro (Zuca Carvalho), João Pedro (Ioiô), Manoel (Santinho), e ainda as filhas Adelina, Nanã, Zabilina (Isabel), Zefinha, Maria, Dona (Esmeralda) e Doninha. 
Todos estes se tornaram de renome e influência nas terras baianas e mais além, ultrapassando as fronteiras e alargando suas amizades com os sertanejos de Poço Redondo. Gabriel Feitosa exemplifica bem tal entrelaçamento. Bastião Joaquim, irmão de Gabriel, era outro amigo dos Carvalho da Serra Negra, assim como Antônio Rosendo, Abdias, Mané Cante, Tião de Sinhá e muitos outros. Estes mais pela vida vaqueira a serviço dos da Serra negra. Gabriel não foi somente vaqueiro e tangedor de gado de Piduca Alexandre, mas principalmente um grande e fiel amigo. 
Os alexandrinos possuíam inteligência sem igual. Sabiam muito bem que não adiantava apenas a riqueza sem os entrelaçamentos das amizades. Daí que foram fecundando de amigos as terras baianas e sergipanas, tornando Poço Redondo como verdadeiro lar familiar e sempre rodeado de muitos amigos. No tempo do cangaço, durante as famosas Carreiras (quando Poço Redondo ficava praticamente deserto pela aproximação dos cangaceiros), o principal destino de inúmeras famílias foi Serra Negra. Meus avôs paternos Ermerindo e Emeliana foram destes que partiram em fuga. Foi em Serra Negra que nasceu o meu tio José Alves Costa (o saudadoso Zé de Ermerindo). 
As propriedades adquiridas pelos alexandrinos no sertão sergipano possibilitaram uma aproximação ainda maior. Os irmãos João Maria e Piduca, por exemplo, já eram possuidores de uma imensidão de terras em solo baiano, mas com tino sem igual para a posse de novas terras, passaram a adquirir dezenas de fazendas do lado de cá da fronteira, em Poço Redondo. Como dito, somente no lado sergipano possuíam mais de uma dezena de grandes propriedades, verdadeiros latifúndios. 
De João Maria eram o São Clemente, Cacimba Dantas, Paraíso, Santo Antônio, Poço do Mulungu, Exu, Riacho Largo de Baixo e o Recurso, propriedade esta comprada a meu avô Teotônio Alves China, o China do Poço. De Seu Piduca eram a Queimada Grande (onde Tião de Sinhá era Vaqueiro), Lagoa da Onça, Bate Lata (Lulu de Sinhá, irmão de Tião, era o vaqueiro), Casa Nova (Santa Maria), Caibreiros, Charco Grande, Barraca dos Negros (onde Bastião de Timbé foi vaqueiro), Baixa Verde (também sob responsabilidade de Bastião de Timbé), Jurema e Riacho Largo de Cima. Os irmãos poço-redondenses João Paulo e Abdias eram os vaqueiros desta fazenda. 
Também na política o Coronel João Maria passou a ter influência em Poço Redondo. Quando da emancipação política em 1953 e a aproximação da primeira eleição, o coronel baiano comprou briga com a burguesia política de Sergipe ao apoiar José Francisco do Nascimento (Zé de Julião) para prefeito. Por causa desse apoiou, foram redobradas as tratativas para que o candidato governista fosse eleito a qualquer custo. Como de fato ocorreu. Na eleição seguinte repetiu o apoio ao ex-cangaceiro e seu amigo Zé de Julião, que novamente foi derrotado pelas maracutaia do poder político sergipano. Aliás, não só Zé de Julião, na condição de ex-cangaceiro (Cajazeira), como diversos outros poço-redondenses, assim que precisassem de apoio ou proteção, bastava bater à porta do coronel baiano. Seus refúgios estavam garantidos.
Mesmo a morte do Coronel João Maria aos setenta e três anos, em agosto de 63, não afastou nem diminuiu a amizade dos baianos com Poço Redondo. Não havia uma só Festa de Agosto aonde uma multidão não chegasse a Poço Redondo. Dr. Heraldo de Carvalho, filho de João Maria, e seu primo Eraldo de Carvalho, tornaram-se lendários nas comemorações da padroeira poço-redondense. 
Festeiros, brincalhões, namoradores, amigueiros sem igual, sentiam-se verdadeiramente em casa. Como de fato estavam, pois sempre recebidos de braços abertos. De Heraldo de Carvalho a história repassada - e verdadeira - dando conta de seus exageros após umas doses a mais de uísque. Certa feita, durante um forró na bodega de Delino, em pleno dia maior da festa, o então prefeito de Serra Negra adentrou no salão com seu portentoso cavalo. E o alazão imenso, branco e de beleza majestosa, só faltou dançar. E dizem até que dançou.
Muito ainda teria que ser dito sobre tais laços de amizade. Impossível não falar sobre João de Ioiô e seus filhos Orlando da Serra Negra e Zé Maria, todos Carvalho de raiz e flor. Mas depois eu conto. Prometo.
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Somente uma questão de limites interestaduais separou Poço Redondo, em Sergipe, da baiana Serra Negra (hoje Pedro Alexandre), pois no restante sempre existiu uma comunhão de amizades e entrelaçamentos familiares, políticos e de poder. 
A família Carvalho de Serra Negra, principalmente os irmãos João Maria de Carvalho (tenente João Maria, coronel de poder e de mando) e Piduca Alexandre, sempre estiveram presentes na vida de Poço Redondo. Mas a família numerosa, da descendência do alagoano de Entremontes, Pedro Alexandre, toda igualmente amiga do sertão sergipano. E vasta era a prole de Pedro Alexandre: João Maria de Carvalho, Pedro Alexandre Filho (Piduca), Liberato de Carvalho (caçador de cangaceiro e depois general do Exército), João Batista, José Pedro (Zuca Carvalho), João Pedro (Ioiô), Manoel (Santinho), e ainda as filhas Adelina, Nanã, Zabilina (Isabel), Zefinha, Maria, Dona (Esmeralda) e Doninha. 
Todos estes se tornaram de renome e influência nas terras baianas e mais além, ultrapassando as fronteiras e alargando suas amizades com os sertanejos de Poço Redondo. Gabriel Feitosa exemplifica bem tal entrelaçamento. Bastião Joaquim, irmão de Gabriel, era outro amigo dos Carvalho da Serra Negra, assim como Antônio Rosendo, Abdias, Mané Cante, Tião de Sinhá e muitos outros. Estes mais pela vida vaqueira a serviço dos da Serra negra. Gabriel não foi somente vaqueiro e tangedor de gado de Piduca Alexandre, mas principalmente um grande e fiel amigo. 
Os alexandrinos possuíam inteligência sem igual. Sabiam muito bem que não adiantava apenas a riqueza sem os entrelaçamentos das amizades. Daí que foram fecundando de amigos as terras baianas e sergipanas, tornando Poço Redondo como verdadeiro lar familiar e sempre rodeado de muitos amigos. No tempo do cangaço, durante as famosas Carreiras (quando Poço Redondo ficava praticamente deserto pela aproximação dos cangaceiros), o principal destino de inúmeras famílias foi Serra Negra. Meus avôs paternos Ermerindo e Emeliana foram destes que partiram em fuga. Foi em Serra Negra que nasceu o meu tio José Alves Costa (o saudadoso Zé de Ermerindo). 
As propriedades adquiridas pelos alexandrinos no sertão sergipano possibilitaram uma aproximação ainda maior. Os irmãos João Maria e Piduca, por exemplo, já eram possuidores de uma imensidão de terras em solo baiano, mas com tino sem igual para a posse de novas terras, passaram a adquirir dezenas de fazendas do lado de cá da fronteira, em Poço Redondo. Como dito, somente no lado sergipano possuíam mais de uma dezena de grandes propriedades, verdadeiros latifúndios. De João Maria eram o São Clemente, Cacimba Dantas, Paraíso, Santo Antônio, Poço do Mulungu, Exu, Riacho Largo de Baixo e o Recurso, propriedade esta comprada a meu avô Teotônio Alves China, o China do Poço. De Seu Piduca eram a Queimada Grande (onde Tião de Sinhá era Vaqueiro), Lagoa da Onça, Bate Lata (Lulu de Sinhá, irmão de Tião, era o vaqueiro), Casa Nova (Santa Maria), Caibreiros, Charco Grande, Barraca dos Negros (onde Bastião de Timbé foi vaqueiro), Baixa Verde (também sob responsabilidade de Bastião de Timbé), Jurema e Riacho Largo de Cima. Os irmãos poço-redondenses João Paulo e Abdias eram os vaqueiros desta fazenda. 
Também na política o Coronel João Maria passou a ter influência em Poço Redondo. Quando da emancipação política em 1953 e a aproximação da primeira eleição, o coronel baiano comprou briga com a burguesia política de Sergipe ao apoiar José Francisco do Nascimento (Zé de Julião) para prefeito. Por causa desse apoiou, foram redobradas as tratativas para que o candidato governista fosse eleito a qualquer custo. Como de fato ocorreu. Na eleição seguinte repetiu o apoio ao ex-cangaceiro e seu amigo Zé de Julião, que novamente foi derrotado pelas maracutaia do poder político sergipano. Aliás, não só Zé de Julião, na condição de ex-cangaceiro (Cajazeira), como diversos outros poço-redondenses, assim que precisassem de apoio ou proteção, bastava bater à porta do coronel baiano. Seus refúgios estavam garantidos.
Mesmo a morte do Coronel João Maria aos setenta e três anos, em agosto de 63, não afastou nem diminuiu a amizade dos baianos com Poço Redondo. Não havia uma só Festa de Agosto aonde uma multidão não chegasse a Poço Redondo. Dr. Heraldo de Carvalho, filho de João Maria, e seu primo Eraldo de Carvalho, tornaram-se lendários nas comemorações da padroeira poço-redondense. 
Festeiros, brincalhões, namoradores, amigueiros sem igual, sentiam-se verdadeiramente em casa. Como de fato estavam, pois sempre recebidos de braços abertos. De Heraldo de Carvalho a história repassada - e verdadeira - dando conta de seus exageros após umas doses a mais de uísque. Certa feita, durante um forró na bodega de Delino, em pleno dia maior da festa, o então prefeito de Serra Negra adentrou no salão com seu portentoso cavalo. E o alazão imenso, branco e de beleza majestosa, só faltou dançar. E dizem até que dançou.
Muito ainda teria que ser dito sobre tais laços de amizade. Impossível não falar sobre João de Ioiô e seus filhos Orlando da Serra Negra e Zé Maria, todos Carvalho de raiz e flor. Mas depois eu conto. Prometo.

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com